José Luís Peixoto: "Ainda hoje, Rui Nabeiro não gosta de ser tratado por "rico""

Um romance biográfico inesperado sobre a vida de um português cujo nome lembra imediatamente a palavra café. A partir de várias conversas com o comendador e de outras memórias, José Luís Peixoto ilustra também em muito o Alentejo. Outra novidade é o cânone de Eugénio Lisboa.

Após ter escrito uma biografia sobre várias personagens dos romances de José Saramago, intitulado Autobiografia, e um dos melhores livros da literatura portuguesa do ano de 2019, José Luís Peixoto regressa esta semana com um romance biográfico: Almoço de Domingo. Não é uma experiência frequente entre os nossos escritores, afinal trata-se de alguém que se conhece bem e que dificilmente se escolheria para protagonista de um género como é o deste seu novo livro: Rui Nabeiro, o empresário do café.

A surpresa é grande para o leitor, mas o autor não o defrauda. Está retratada a sua vida como se fosse um personagem de ficção que tivesse inventado e não falta biografia ao Comendador para encher as duas centenas e meia de páginas. Pode-se sempre dizer falta isto ou falta aquilo, mas nenhum livro é total.

Inesperado é também o tempo em que se situa a narrativa, um dia depois de o livro chegar às livrarias e nos dois seguintes. Daí que José Luís Peixoto diga: "Pela primeira vez, terei um livro cuja ação acontece num tempo posterior à data da sua publicação."

Porquê uma biografia do comendador Rui Nabeiro?
Este livro não é uma biografia, é um romance. Esse detalhe tem uma importância imensa e faz toda a diferença. É certo que se trata de um romance biográfico, mas note-se qual o substantivo e qual o adjetivo neste conceito. Seria muitíssimo diferente se fosse uma biografia romanceada, por exemplo. Ao afirmá-lo em primeiro lugar como romance, há aqui a intenção de afirmar a dimensão ficcional como determinante na narrativa. O fio estrutural do texto, por exemplo, acontece nos dias 26, 27 e 28 de março, que ainda não tinham tido lugar durante a escrita do livro e, por isso, são necessariamente ficcionais, embora baseados em elementos concretos dos hábitos e do presente de Rui Nabeiro. Esta abordagem é válida também para as memórias mencionadas. Uma grande parte delas aconteceu em moldes semelhantes aos que são descritos no livro; ainda assim, o facto de serem apresentados sobre a perspetiva do protagonista, tal como outras escolhas que fiz, colocam-nas inexoravelmente numa dimensão ficcional. Além desse aspeto, achei extraordinária a oportunidade de construir um texto literário a partir das memórias de um homem de quase 90 anos. Ainda para mais, alguém com um papel muitíssimo marcante na sua região e, também, no país. Logo os contornos mais elementares da sua história são bastante cativantes.

"Existem, realmente, muitos mitos em torno de Rui Nabeiro. Creio que este romance comunica com várias dessas ideias, desafiando-as às vezes. Mas seria muito difícil desfazê-las completamente."

Até que ponto Rui Nabeiro estava no seu imaginário?
Embora a nível nacional haja alguma ideia acerca de quem é Rui Nabeiro, creio que, no Alentejo, há uma visão mais próxima. Circulam muitas histórias acerca da sua generosidade. Essa era também a impressão que tinha sobre ele. Para além disso, havia também Campo Maior, que é um lugar onde já tinha estado muitas vezes. Em criança e adolescente, frequentava a vila de Campo Maior nas provas de atletismo distritais que tinham lugar no estádio do Campomaiorense, estive várias vezes nas Festas do Povo e, muito especialmente, acompanhei muitas vezes o meu pai em trabalhos de carpintaria que desenvolveu em Campo Maior. Recordo ouvir a admiração com que o meu pai falava de Rui Nabeiro, por tudo o que construiu na sua terra. Ao mesmo tempo, sempre senti muita curiosidade por esta vivência da fronteira, um Alentejo que tinha muito interesse de tratar.

Escreve que "o passado tem de provar constantemente que existiu". Foi este o objetivo do livro?
De certa forma, essa ideia é realmente o centro do romance. Na medida em que as memórias, essa reconstrução do passado, são o centro do romance. Em simultâneo, fascina-me a ideia de, ao longo de uma vida, se ser contemporâneo de realidades tão díspares. Com os 46 anos que tenho, já sinto dificuldade de explicar muito do que testemunhei aos meus filhos. Suponho que, com 90 anos, se sinta uma dificuldade ainda maior de explicar o que se viveu aos bisnetos. Assim, carregamos essas realidades impartilháveis. Em vários momentos, este romance tenta dar corpo, nos limites da literatura, a essas memórias.

Como foi a investigação para contar a história do protagonista?
Existiu um período de leitura e de pesquisa muito importante, pois há bastantes trabalhos à volta da vida de Rui Nabeiro. Ao mesmo tempo, houve as conversas com o próprio Rui Nabeiro que me serviram sobretudo para entrar em detalhes, para recolher certas impressões. Foram cerca de uma dúzia de conversas em que, no fundo, tentei chegar àquilo que só ele me poderia dizer.

Até que ponto o biografado se intrometeu no trabalho do autor?
De acordo com o que combinámos no início, fui-lhe disponibilizando uma primeira versão do trabalho à medida que ia progredindo. As quatro ou cinco observações que fez foram apenas no sentido de corrigir algum pormenor que eu tinha entendido mal. Mesmo quando tomei algumas liberdades criativas mais ousadas, todas as minhas propostas foram sempre aceites.

Um dos grandes problemas das personagens literárias é dar-lhes espessura e credibilidade. Neste caso, que tem biografia a mais, como foi a triagem?
Por um lado, tenho a consciência de que se trata de um texto que sugere, que simboliza. Numa biografia, seria necessário aprofundar todas as dimensões dessa vida. Aqui, pude justamente fazer uma escolha de episódios, de acordo com a minha visão pessoal. Desse modo, há vários temas estruturais do romance que são privilegiados, como é o caso da dimensão familiar, por exemplo. Que, aliás, está presente no título.

Há vários pormenores que resultam da observação direta e outros de relatos. Foi complicado recolhê-los?
Esse é um trabalho que tenho aprendido a apreciar. Antes, no romance Autobiografia, já tinha trabalhado bastante essas competências no que toca à figura de José Saramago. Aqui, o processo de trabalho partiu de algumas características diferentes, como foi o caso de contar com a participação do protagonista do texto.

Descreve a "televisão tapada com um pano" à espera de começar a emissão. Houve histórias do passado que o surpreenderam?
Sim, várias. Recordo-me, por exemplo, do "enterro do fascismo", que Rui Nabeiro me descreveu e que, em Campo Maior, foi feito à imagem do "enterro do Entrudo" que se faz em certos festejos populares. Poderia ainda lembrar-me de muitos outros. Rui Nabeiro nasceu em 1931, eu nasci 43 anos depois e, por isso, este romance contribuiu também para saber mais sobre um tempo que não vivi, como já aconteceu com outros textos que publiquei antes.

"Hei de ser um rico diferente dos que há por aí." Concorda que o percurso de Rui Nabeiro pode ser descrito deste modo?
Creio que sim. Aliás, é muito engraçado que, ainda hoje, Rui Nabeiro não gosta de ser tratado por "rico". Creio que a dificuldade de aceitar essa palavra tem a ver com o sentido que tinha para ele. No Alentejo, ser "rico" é, normalmente, associado a alguém que tem uma história e um comportamento muito diferente daquele que Rui Nabeiro sempre teve e continua a ter.

O tema do contrabando na raia não poderia escapar, nem mesmo quando cidadãos aproveitam a comitiva de Mário Soares para o fazer?
Sem dúvida. Trata-se de um tema muito relevante naquela região. Achei, até, que precisava de gerir um pouco esse tema, pois poderia facilmente tomar conta de todo o romance. Ainda assim, achei curioso incluir esse episódio por tudo o que tem de expressivo, acerca do período histórico e dos envolvidos.

Um dos piores momentos da vida de Nabeiro foi os 17 meses "exilado" em Badajoz?
Não sei dizer. A vida de Rui Nabeiro tem muitos êxitos mas, como acontece com todas as pessoas, também tem momentos mais difíceis. Tenho a sensação de que os piores estão ligados ao desaparecimento dos seus familiares mais próximos, nomeadamente a morte precoce do seu pai, que o marcou muito e que, em grande medida, o levou a fazer muitas das escolhas de vida que construíram a pessoa que hoje é. Sendo esse, aliás, um aspeto com o qual me identifico pessoalmente.

Ao terminar a escrita sentiu que tinha libertado Nabeiro dos mitos em torno dele?
​​​​​​​Não. Existem, realmente, muitos mitos em torno de Rui Nabeiro. Creio que este romance comunica com várias dessas ideias, desafiando-as às vezes. Mas seria muito difícil desfazê-las completamente.

Como foi estruturar uma narrativa de vida de nove décadas e encontrar as datas que marcam uma vida de modo a despertar o interesse do leitor?
Tive de fazer algumas escolhas. Esta vida poderia ter sido retratada a partir de múltiplas perspetivas. Tentei seguir, sobretudo, um caminho ligado a uma dimensão pessoal, talvez porque esse é o meu primeiro instinto mas, também, talvez por incapacidade minha. Acredito que a minha vocação é abordar os temas a partir dessa dimensão pessoal.

Escreve: "Felipe González novo estava dentro do Felipe González velho". Nabeiro também pode ser assim descrito agora?
Creio que sim. Até porque a vitalidade de Rui Nabeiro é, ainda hoje, bastante invejável. Estamos a falar de um homem que tem uma agenda bastante preenchida, que não abdica de desenvolver pessoalmente múltiplos projetos.

Ao contrário de Marcello Caetano, o nome de Salazar nunca aparece. Há alguma razão?
Rui Nabeiro encontrou-se com Marcello Caetano. Essa reunião espoletou o seu afastamento da câmara de Campo Maior. Mas não chegou a ter nenhum encontro com Salazar, apenas o viu ao longe na inauguração da ponte sobre o Tejo.

"O tempo só existe quando paramos." Um pensamento do autor ou do protagonista?
Nessa circunstância, é um pensamento do narrador. Todas as frases do livro são minhas.

Qual é o peso das memórias sobre um homem com tanto poder e qual o efeito no autor enquanto investigava e escrevia?
No início, quando nos encontrámos pela primeira vez, senti-me um pouco impactado por essa dimensão. Mas, depois, ao longo dos encontros que tivemos, também à medida que ia sabendo mais sobre ele, foi-se humanizando cada vez mais aos meus olhos, o que não é difícil, uma vez que Rui Nabeiro é, reconhecidamente, um homem de trato muito fácil e invulgarmente afável.

Ao chegar às livrarias na próxima quinta-feira, o livro antecipa em três dias o cenário com que termina o livro. Porquê?
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A chegada às livrarias nessa data é possível graças ao extraordinário sentido de oportunidade da Quetzal Editores, que fez um trabalho notável. Tanto mais que, neste mês de março, devido aos grandes constrangimentos que atravessamos, apenas vai publicar dois títulos: este e uma reedição de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. Fiquei muito satisfeito com a possibilidade de o romance sair nesta ocasião. Pela primeira vez, terei um livro cuja ação acontece num tempo posterior à data da sua publicação.

José Luís Peixoto

Editora Quetzal

264 páginas

Nas livrarias dia 25

Outros lançamentos

Vamos Ler

Eugénio Lisboa

Editora Guerra & Paz

136 páginas

A palavra cânone raramente era pronunciada na vida cultural portuguesa, no entanto de há uns meses para cá a publicação de dois volumes sobre o tema tornou-a mais normal. Agora, chega a vez de um terceiro livro que elabora sobre esse conceito, de autoria de Eugénio Lisboa e publicado na série Cadernos Vermelhos da editora Guerra & Paz. Com muito menos páginas do que qualquer um dos anteriores, o autor privilegia o "gosto da leitura" e a abrir explica que entre os seus objetivos estava o de propor uma breve lista de escritores e de obras que fizessem baixar as guardas ao "leitor relutante" e não o cânone onde existiriam obras de Machado de Assis, Turgénev, Thomas Mann e outras que "alimentaram prodigiosamente" os seus primeiros passos literários.

O livro não ignora certas figuras nacionais, e ainda bem pois há em relação a eles muito esquecimento e censura. É o caso de: "as inimitáveis Viagens na Minha Terra" do "inconfundível provocador Almeida Garrett", e da "leitura obrigatória" de Júlio Dinis e de Alexandre Herculano... sugerir a fuga dos fingimentos em torno de James Joyce e de Gabriela Llansol para os primeiros passos e optar por Edgar Poe, Mark Twain, Miguel Torga ou José Régio, de modo a fazer com que o tal leitor relutantes se convença do conselho que dá: "a leitura para ser proveitosa não deve encontrar um leitor passivo, mas um que reaja e crítico daquilo que lê". Curiosa é a lista de 50 livros e 35 autores portugueses que dá. A ler.

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