Ofertas de emprego em queda livre

Em abril, o IEFP recebeu apenas 3142 ofertas de emprego. É uma quebra de 70%. Nem durante a crise financeira de 2008 houve valores tão baixos.

A paragem da economia provocada pela pandemia do coronavírus está a marcar profundamente o mercado de trabalho. As ofertas de emprego quase desapareceram e, as poucas que há, oferecem remunerações que, na sua maioria, não ultrapassam o salário mínimo: 635 euros brutos.

O Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) registou, em abril, 392 mil desempregados e apenas 3142 novas ofertas de emprego. É uma quebra de 70% face ao mesmo mês do ano passado e menos 58,8% que em março. Nem na crise de 2008 se registou níveis tão baixos.

Os números de maio, que deverão ser conhecidos hoje ou amanhã, deverão ser ainda piores. O desemprego, alertam os economistas, deve disparar com o fim do regime de lay-off simplificado, medida que visava assegurar a manutenção do emprego nas empresas cuja atividade foi afetada pela crise sanitária. E esse aumento previsível do número de pessoas sem trabalho e a fraca dinâmica da economia poderá pressionar em baixa os salários, como sucedeu na última recessão económica.

As ofertas de emprego colocadas no site do IEFP já espelham uma nova realidade: por exemplo, há uma entidade que pretende recrutar um especialista em trabalho social. Exige formação de nível superior e oferece uma remuneração bruta de 635 euros. Mesmo para empregos em que a procura é maior que a oferta, as empresas estão a comprimir os salários. Há um pedido para analistas e programadores de software, licenciados e com experiência, onde a remuneração prometida é de 750 euros brutos. E uma indústria transformadora quer recrutar um diretor apostando num salário de mil euros ilíquido.

"É natural que aconteça alguma depreciação salarial por via da pressão do aumento do desemprego", reconhece João Cerejeira, professor na Universidade do Minho, recordando que as projeções apontam para que este ano a taxa de desemprego atinja 9% a 10%, depois de, no ano passado, ter caído para 6,5%.

José Reis, da Universidade de Coimbra, admite que a queda dos salários a breve prazo "é um cenário possível e que pode corresponder a um decréscimo da atividade económica ". Reconhece que o lay-off - a que recorreram mais de 105 mil empresas, abrangendo um universo de quase 850 mil trabalhadores - "pode ser a antecâmara do desemprego. É um risco muito sério, pode haver empresas que depois de receberem os apoios públicos aproveitem para se libertar de mão-de-obra e de custos salariais".

O turismo será dos mais afetados pela perda de emprego, até porque não se espera para este ano uma retoma desta atividade, alerta José Cerejeira. No entanto, lembra que o novo regime de lay-off previsto para agosto, poderá ajudar a segurar postos de trabalho. Mas há outras incertezas no horizonte e que não dependem exclusivamente do país. A recuperação dos mercados a nível global é crucial para muito do tecido económico português, que tem no exterior o garante do seu negócio. Neste contexto, estão as indústrias exportadoras, cuja viabilidade estará muito dependente desse retomar da economia internacional.

O combate ao escalar do desemprego deve passar por uma aposta na reindustrialização, que substitua as importações e incremente as exportações através do aumento da componente nacional na produção, defende José Reis. Na sua opinião, a economia dos serviços - até agora muito centrada no turismo - pode ser reorganizada. João Cerejeira, por seu lado, admite que possa vir a registar-se algum dinamismo no emprego em setores como o agrícola, transportes, saúde e construção.

jornalista do Dinheiro Vivo

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