Câmara de Sintra quer reforçar o serviço de urgência do hospital Fernando Fonseca até outubro

Com a possibilidade de uma segunda vaga de covid-19 e com o regresso às aulas presenciais no outono, o presidente da Câmara de Sintra - o concelho do país que confirmou o maior número de infeções na última semana (mais 257) - garante que será feito o reforço da capacidade do hospital Fernando Fonseca, mais conhecido como Amadora-Sintra. Basílio Horta fala ainda na necessidade de preparar outras medidas para evitar que se repitam os "erros" do desconfinamento.

Antevendo que o número de infeções pelo novo coronavírus pode continuar a aumentar nos próximos meses, principalmente no período de outono e inverno, com o regresso às aulas presenciais e com a eventualidade de uma segunda vaga da pandemia, o presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta, aponta como prioridade garantir resposta hospitalar. Em entrevista ao DN, o autarca do concelho com mais novos casos de covid-19 esta semana fala num projeto para alargar a capacidade de resposta do serviço de urgência no Hospital Fernando Fonseca, mais conhecido como Amadora-Sintra. Basílio Horta deixa ainda criticas à forma como o plano de deconfinamento foi gerido e ao início tardio das reuniões entre câmaras municipais e Governo.

Até esta terça-feira (21 de julho) o município de Sintra regista, segundo a Direção-Geral da Saúde, 3 476 casos de covid-19, tendo 257 sido confirmados na última semana. Embora a maioria dos doentes não seja considerado grave, por várias vezes, nos últimos dois meses, o Hospital Amadora-Sintra foi mencionado como estando perto de esgotar a sua capacidade de internamento, além de descritas dificuldades nas urgências. Houve pacientes transferidos para outros hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo, mas agora o presidente da câmara insiste na necessidade de um plano de ação para a unidade hospitalar.

Basílio Horta não descarta a possibilidade de ajudar a montar um hospital de campanha, mas, independentemente disso, há uma ideia que já tem clara. "É preciso aumentar a urgência do Amadora-Sintra e estamos disponíveis para o fazer. A urgência já de si é limitada e vai ser necessário criar uma infraestrutura para aumentar a o serviço. Isso vamos ter de fazer seguramente. Até setembro ou outubro está pronta", diz.

"Estamos realmente preocupados com o que pode vir aí, porque não é só a covid. É a covid a coincidir com a gripe e com a reabertura das escolas. Nós temos aqui 47 mil alunos que vão ter aulas presenciais", acrescenta o autarca eleito pelo Partido Socialista e fundador do CDS, que refere estar a colocar em marcha outras medidas.

A câmara decidiu comprar mais um milhão de máscaras para distribuir pela população, desinfetante e outros equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde. Vão também dar formação aos assistentes operacionais dos lares para os habilitar a tratar de utentes infetados e manter o apoio às equipas pluridisciplinares, compostas por profissionais da Saúde, Segurança Social, Proteção Civil e forças de segurança, que estão no terreno a sensibilizar a população para as medidas de prevenção da doença. Estas equipas procuram ainda solução para quem precisa de alimentação ou alojamento.

Sintra tem seis grupos destes (o maior número da região, em conjunto com Lisboa que também tem seis), segundo um comunicado da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, enviado esta terça-feira. Nas equipas de Sintra, existem 12 profissionais ligados à saúde e já foram acompanhadas 1453 pessoas do concelho, entre 30 de junho e 17 de julho, de acordo com a mesma fonte.

Basílio Horta lembra que a ideia destas equipas resultou das reuniões entre autarcas da área metropolitana de Lisboa e o Governo, considerando que a população teria beneficiado ainda mais de medidas como esta se aplicadas antes. "A intervenção das autarquias deveria ter começado mais cedo. Perdeu-se muito tempo", aponta. "Houve um atraso de cerca de dois meses na constituição das equipas pluridisciplinares, que causou muitos problemas".

Em relação ao plano de desconfinamento do Governo, refere o mesmo: pecou por não ter sido capaz de antever algumas circunstâncias.

No concelho onde a pandemia mais cresceu, as freguesias do norte e do sul andam a velocidades diferentes

Sobre os dados epidemiológicos do município referentes a esta semana, o presidente da câmara fala em valores menos positivos. "Na semana anterior a esta, tivemos números mais favoráveis", diz, concluindo, no entanto, que o número de casos ativos está a diminuir. São agora, cerca de 1100, segundo o autarca, "quando há mais de um mês tínhamos 1480. Há efetivamente uma melhoria".

Somando os 257 casos desta semana, Sintra contabiliza 3 476 infeções, desde o início da pandemia, ou seja, é o segundo concelho do país com o maior número de casos acumulados, ficando apenas atrás de Lisboa (4 240 casos). Já proporcionalmente o município é o quinto com mais casos por cem mil habitantes. Tem 898 infeções por cada cem mil habitantes, segundo a plataforma Eye Data, criada pela agência Lusa. À sua frente estão Reguengos de Monsaraz (com 1 537 casos por cem mil habitantes), Ovar (1 295), Amadora (1156), Loures (1044) e Odivelas (898).

O autarca de Sintra acredita que estes resultados se devem à grande densidade populacional do concelho. "Nós temos uma situação singular do ponto de vista autárquico português: temos 400 mil pessoas em 320 mil quilómetros quadrados. Somos três vezes maiores do que Lisboa", explica.

Basílio Horta aponta ainda o nível de poder de compra da população como outro fator de risco, uma vez que o concelho tem "um nível de poder de compra per capita inferior à média nacional. Por isso, as pessoas têm mesmo de sair de casa para trabalhar". "Depois, ainda há questão da mobilidade. É o concelho da área metropolitana de Lisboa com maior mobilidade. Há 200 mil pessoas por semana que saem de Sintra".

Sintra integra 11 freguesias e é precisamente nas que têm maior densidade populacional que se concentram mais casos de covid. O presidente faz uma distinção "clara" entre o norte e o sul do concelho, indicando que, neste momento, há mais infeções na parte norte do município. "Em Colares há sete casos, em São João das Lampas também há poucos, tal como em Pero Pinheiro, Sintra e Casal de Cambra", diz.

"Há seis freguesias do concelho muito concentradas e precisam de muito acompanhamento, mas nós não podemos prever tudo o que pode acontecer. Não podíamos prever que o tribunal tivesse casos de infeção ou um lar. E basta isto para os números mudarem radicalmente", conclui.

Sintra é uma exceção? Câmara fala em erro da ministra

Basílio Horta fala sempre numa "tendência claramente decrescente" no número de novos casos em Sintra, depois da ministra da Saúde se ter referido ao município, durante as conferências de imprensa de sexta-feira e de segunda-feira, como a exceção entre as freguesias ainda em estado de calamidade. Marta Temido disse que as medidas adicionais aplicadas em 19 freguesias da região de Lisboa e Vale do Tejo "têm dado alguns resultados" com a incidência da doença a diminuir em todas, à exceção de Sintra.

"Há claramente um decréscimo dos casos", afirma o presidente da câmara. "Isso [dizer que Sintra é uma exceção] não é verdade e cria um problema sério a quem vive aqui. É um erro".

Questionada pelo DN sobre as declarações da ministra que Basílio Horta coloca em causa, a tutela indica que foi verificada "uma melhoria em todos os concelhos da Área Metropolitana de Lisboa e, também em Sintra, embora ainda não tão visível como se ambiciona". "O intenso trabalho de todos e o envolvimento da autarquia permitem antecipar uma margem de progresso naquele que é o segundo maior concelho do país e onde a diversidade populacional torna o trabalho mais exigente", conclui o gabinete de Marta Temido.

Dos quatro concelhos do país que registaram mais de cem casos desde a terça-feira dia 14 de julho até esta segunda-feira, Sintra teve um crescimento de 8%, Loures e Amadora de 5% e Lisboa de 4%. Os dados por concelho publicados pela DGS são agora atualizados uma vez por semana, à segunda-feira, sendo que entre o dia 4 e o 14 de julho estiveram congelados para atualização.

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