Lisboetas vindos de fora. Thaise de todas as cores

Quando Thaise contou às amigas brasileiras que finalmente conseguira um trabalho, um contrato e, não só isso, sem ser numa pastelaria ou outro estabelecimento da restauração, ouviu em resposta um "uau!", misto de celebração e surpresa.

Thaise esperava pela reação. Sabia que pertencer ao maior contingente de imigrantes em Portugal não é garantia de um bom emprego; que a graduação e o mestrado não são suficientes para derrubar séculos de desconfiança, segurança e preconceito; que é ainda pior para as brasileiras, alvo do machismo dos portugueses, reproduzido pelas portuguesas; e, por fim, que o tom moreno da pele não ajuda. Thaise sabia de tudo isso. Entretanto, sabe também que não adianta as pessoas insistirem na visão do mundo em preto-e-branco. Nos olhos desta baiana, a vida passa em cores.

Thaise Bagdeve tem 28 anos, os últimos três como uma lisboeta que veio de fora. Antes, vivera um ano e meio na Irlanda, onde fora apresentada à diversidade da paleta de cores do Velho Mundo através do céu cinza de Dublin. "Fui estudar inglês, pois precisava aprimorá-lo para o mestrado. Cursava Psicologia na Universidade Federal da Bahia e a ideia era seguir os estudos lá. Voltei para Salvador, mas daí, a partir de 2016, o Brasil começou a tomar um caminho estranho e decidi novamente morar fora. Dublin não era opção, pelo frio e os dias nublados. Havia estado em Lisboa antes e o colorido da cidade encantou-me", conta, antes de fazer uma importante ressalva: "Claro, era a visão de uma turista."

A visão de um turista, claro. Talvez os portugueses não percebam, mas para nós é notável a diferença de tratamento em Portugal entre o turista e o imigrante brasileiro. Não chega, nunca, a ser de hospitalidade para hostilidade, mas uma mudança, digamos, do vinho do Douro à água da EPAL. A razão não é consensual, porém sempre que nos reunirmos o assunto invariavelmente vem à tona. Não foi diferente na conversa com Thaise, numa veranil tarde de agosto, com o exuberante relvado da Quinta das Conchas a contrastar com o ofuscante azul do céu.

"Talvez essa última vaga de imigrantes, mais qualificada do que as anteriores, provoque uma tensão em relação ao mercado laboral", arriscou Thaise.

"Pode ser", concordei. "E isso explicaria a insistência em dizer que falamos brasileiro, como para demarcar que de português não temos nem o idioma", completei.

Sorrimos. A conversa foi interrompida pela presença do empregado da cafetaria, um português, a servir a mesa de dois brasileiros, uma curiosa inversão do histórico papel atribuído a ex-colonizadores e colonizados, e que, de certa forma, dialogava com o assunto.

Thaise também soube inverter os papéis. O "uau!" das amigas atende por uma posição na respeitável Fundação Aga Khan em Portugal. É uma das duas brasileiras entre o numeroso contingente de colegas portugueses. Lá, garante, não sentiu a "tensão" em disputar espaços. "Tem sido bastante tranquilo", resume. A convivência agradável contribui para o desempenho da difícil e delicada tarefa em dar suporte aos projetos da fundação em áreas carenciadas de Lisboa. No caso dela, em Chelas.

Apesar da satisfação e orgulho com que fala no trabalho, Thaise reconhece que a função a distanciou um pouco da vocação, a psicologia. "Tentei equiparar o meu diploma, mas é praticamente impossível. Exigem que todas as disciplinas do currículo académico de lá sejam exatamente iguais ao de cá, o que não ocorre nem entre as universidades portuguesas. As barreiras acabam por funcionar como uma reserva de mercado", acredita.

Para dar continuidade aos estudos, Thaise fez o mestrado na área de Migrações, na Universidade Nova de Lisboa. A intenção era analisar o impacto do racismo na saúde mental dos imigrantes, mas a brasileira não encontrou apoio entre os professores. "Diziam-me que não havia racismo em Portugal, que estava a tentar importar um problema do Brasil", conta, incrédula por um discurso caro à extrema-direita ecoar na academia. "Em nome de minha própria saúde mental, decidi não comprar a briga e acabei por fazer a tese sobre outro tema", explica.

Falando em racismo e imigrantes, pergunto sobre qual a perceção dela sobre Lisboa. "Não sinto nada de ostensivo. Talvez por não ser o que as pessoas consideram negra, mas morena. A perceção do negro não se resume à cor da pele, mas a outros parâmetros sociais e financeiros. Cada vez que você se aproxima desses parâmetros, é como se a sociedade embranquecesse você. Como sou de classe média, tenho uma formação académica e falo três idiomas, fingem que não sou negra", avalia.

O que não se finge é vê-la como uma mulher brasileira. "Já me pediram até para sambar", conta, a respeito da visão lasciva em relação às brasileiras. "O homem português vê nas brasileiras prostitutas e as portuguesas, em vez de demonstrarem uma empatia e combater essa visão sexista, costumam revalidá-la", conta, sobre uma perceção que considera bem local. "Em Dublin, não me sentia vista dessa forma, como se quisesse roubar o marido de alguém."

Foi na Irlanda, aliás, que Thaise conheceu o marido, não um português, mas um francês. A decisão de viver em Portugal foi tomada de forma conjunta e o casal de imigrantes hoje é um dentre tantos a caminhar de mãos dadas pelas largas ruas do Lumiar. A relação estável serve como uma espécie de "escudo" contra as insinuações maldosas, mas não a impede de se solidarizar com as brasileiras que sofrem com o preconceito. "Tenho amigas solteiras que, como todas as solteiras, têm perfil no Tinder, mas especialmente por serem brasileiras acabam bombardeadas com comentários maldosos", conta.

Apesar de Lisboa se ter desfraldado para a residente Thaise diferente da visão da turista Thaise, não há arrependimentos. Pelo contrário. "Foi a decisão correta. Há muito de Salvador em Lisboa, seja na fisionomia dos negros que encontro, na arquitetura da Baixa, no clima, na proximidade com o mar, na cor do céu. E há também outras vantagens que ainda estou aprendendo a descobrir", garante.

A conversa levou mais tempo do que o planeado e ao despedir-me, apressado, acabei por esquecer a mochila na mesa da cafetaria. No outro dia, voltei à Quinta da Conchas e alguém a havia entregado ao empregado português que nos atendera. Contei o ocorrido a Thaise. "Pois é, ainda há isso, a segurança. Em Salvador e no Brasil, de uma forma geral, dificilmente a mochila estaria lá", respondeu, pontuando a mensagem no WhatsApp com um emoji colorido, como o olhar de uma baiana que insiste em ver em cores uma Lisboa que muitos teimam enxergar em contraste de preto e branco.


* Escritor, jornalista e lisboeta vindo de fora

Mais Notícias