Golfinhos e baleias valem milhões de euros e ajudam a abrandar as alterações climáticas

Odiados por alguns mas amados por muitos, só agora se começa a perceber o valor real de baleias e golfinhos não só na economia mas também nos ecossistemas. Fundamentais na avaliação da saúde dos oceanos dos quais depende a nossa sobrevivência, os cetáceos, sabe-se agora, desempenham um importante papel no abrandamento das alterações climáticas.

Em abril de 2019, o aparecimento de uma beluga em Hammerfest, cidade no norte da Noruega, fez reavivar velhas memórias do tempo da Guerra Fria. O animal aproximava-se dos barcos e parecia estar à espera de que lhe dessem ordens. Tinha um arnês especialmente preparado para que fossem acopladas câmaras de vídeo onde se podia ler "Equipment St. Petersburg". Tudo isto contribuiu para que rapidamente se espalhasse a teoria de que o animal estaria a ser treinado pela Marinha russa.

A utilização de mamíferos marinhos em ações militares remonta aos anos da Guerra Fria. Os Estados Unidos da América treinam golfinhos e leões-marinhos desde 1959 ao abrigo do Navy"s Marine Mammal Program.

Em 1991 a Rússia terá interrompido a operação mas, em 2016, segundo o jornal britânico The Guardian, que terá tido acesso ao contrato público, o Ministério da Defesa russo terá comprado cinco golfinhos com idades entre os 3 e os 5 anos, com "dentição perfeita" e sem problemas físicos por cerca de 21 mil euros ao delfinário de Moscovo. De acordo com a NBC News, os animais terão sido levados para um centro de treino em Sevastopol, na Crimeia. Em 2017, uma estação de televisão, Tv Zvezda, administrada pelo Ministério da Defesa da Rússia, revelou que a Marinha daquele país estava a treinar belugas, focas e golfinhos para fins militares em águas polares.

Para quem estuda mamíferos marinhos é fácil perceber o interesse. Estes animais possuem dos mais sofisticados sonares que a ciência conhece, uma excelente memória, ótima visão subaquática e, dependendo das espécies, são fáceis de treinar. Conseguem mergulhar a grandes profundidades, mesmo em águas escuras, sem sofrerem da doença de descompressão que tanto aflige, e pode matar, mergulhadores humanos. Minas e objetos potencialmente perigosos são fáceis de encontrar para estes mamíferos marinhos, que são igualmente capazes de assistir mergulhadores, transportar objetos e até detetar inimigos.

Por vezes o difícil é distinguir quem treina quem...

Em Laguna, no sul do estado de Santa Catarina, no Brasil, golfinhos e pescadores trabalham juntos na pesca da tainha. Os animais encaminham os peixes para a lagoa onde os pescadores já se encontram a postos com as suas redes. A um sinal dos golfinhos, os homens lançam as redes e partilham o que apanham com os seus "companheiros de pescaria". Nem todos os golfinhos cooperam com os humanos e, além disso, são cada vez menos, segundo um estudo apresentado pelo professor Fábio Daura- Jorge, da Universidade Federal de Santa Catarina, na World Marine Mammal Conference, que decorreu em Barcelona. "As tainhas estão em declínio, o que faz que a estrutura social dos golfinhos se altere e a cooperação com os pescadores diminua."

A diminuição do alimento é apenas uma das muitas ameaças que os cetáceos, grupo que engloba baleias e golfinhos, enfrentam. E somos nós, os homens, que os colocamos em perigo.

Calcula-se que a atividade humana tenha transformado cerca de metade da superfície da Terra, o que produz um enorme impacto na vida do nosso planeta. As cerca de 90 espécies de golfinhos e baleias têm de tentar sobreviver à sobre-exploração dos recursos marinhos, à diminuição do alimento, à destruição do habitat, à captura acidental em redes de pesca, ao ruído, à poluição, e são muitas vezes vítimas de colisões com navios e de doenças, algumas provocadas por bactérias que também nos infetam a nós. Não sendo fácil estudar estes mamíferos marinhos no meio selvagem, é através dos animais que dão à costa que os investigadores obtêm muita informação. Estas espécies funcionam como indicadores da saúde dos ecossistemas marinhos e, portanto, da nossa saúde também.

Cerca de 170 baleias e golfinhos dão à costa por ano em Portugal. Destes cetáceos são recolhidas, regularmente, várias amostras, algumas das quais são sujeitas a análise de contaminantes. "Temos resultados, que no caso de Portugal são preocupantes, de contaminação por DDT e PCB, componentes de inseticidas, banidos há muitos anos mas que continuam ainda no ambiente", afirma Marina Sequeira, bióloga do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

No âmbito de um projeto europeu foram comparadas as análises realizadas a uma espécie de golfinho específica, o golfinho-roaz. As amostras recolhidas em Portugal foram as que apresentaram os valores mais elevados destes componentes, que são integrados nos tecidos destes animais através do peixe e das lulas de que se alimentam que, por sua vez, fazem parte da alimentação humana. A morte por contaminação é, na maior parte dos casos, uma morte lenta. O animal vai acumulando estas substâncias que, por sua vez, diminuem a capacidade de resposta do sistema imunitário às doenças, comprometendo a sua capacidade de reprodução e amamentação. Estas substâncias podem produzir efeitos nas gerações seguintes, uma vez que podem ser transmitidas para as crias através do leite.

Afinal, quanto vale uma baleia?

Estima-se que as atividades de observação de baleias e golfinhos rendam, globalmente, cerca de dois mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros). Em Portugal esta atividade centra-se sobretudo no estuário do Sado, no Algarve, na Madeira e nos Açores. Neste arquipélago é possível observar e nadar no mar com golfinhos.

Karin Hartman, doutorada pela Universidade dos Açores, vive na ilha do Pico há vinte anos e dedica-se a estudar uma espécie de golfinho muito peculiar, o golfinho-de-risso (Grampus griseus) também conhecido como moleiro. Este mamífero marinho pode atingir os três metros de comprimento, tem cabeça arredondada e possui dentes apenas na mandíbula.

Os moleiros mergulham a grandes profundidades e alimentam-se de lulas. São considerados animais inteligentes que vivem em grupos sociais onde as fêmeas tendem a ajudar-se na vigilância das crias. O que torna esta espécie de golfinho muito diferente das outras é o padrão de escarificação da pele, ou seja, as cicatrizes que alteram a cor da pele tornando-os aparentemente claros com manchas escuras. Os golfinhos-de-risso nascem com uma coloração cinzenta. Com o crescimento tornam-se mais escuros e, quando chegam à adolescência, desenvolvem um certo interesse pelos companheiros que se traduz em mordiscar o corpo uns dos outros. Estas mordidelas produzem lesões que se tornam brancas, levando a que os indivíduos mais velhos possam parecer totalmente brancos.

Aparentemente, esta população não se encontra em perigo de extinção mas Karin Hartman, fundadora da organização Nova Atlantis, alerta para a influência dos seres humanos sobre estes mamíferos marinhos. "A poluição sonora e, neste arquipélago especificamente, as atividades de observação e natação com golfinhos estão a causar-lhes muito stress. Não sei qual será o efeito a longo prazo, mas observamos cada vez menos animais nos nossos grupos residentes durante o verão, indivíduos que regressam em setembro". Para esta investigadora é importante, apesar da legislação existente, ajustar esta atividade pois os comportamentos de evitamento por parte destes animais em relação aos humanos são cada vez mais acentuados, pelo que Karin Hartman deixa o alerta: nadar com os golfinhos pode ser muito perigoso para os animais e para as pessoas, sendo importante que todos estejam cientes dos riscos.

No entanto, o valor dos cetáceos não se resume às atividades marítimo-turísticas. As baleias contribuem para a cadeia alimentar aumentando os stocks de peixe e são elementos fundamentais na captura de carbono da atmosfera, não só porque aumentam a quantidade de fitoplâncton (que, segundo estudos recentes, contribui com cerca de 50% do oxigénio da atmosfera e captura cerca de 37 mil milhões de toneladas de CO2 por ano) como o próprio animal, dependendo da espécie, pode armazenar no seu corpo cerca de 33 toneladas de CO2, que leva para o fundo do mar quando morre, podendo retirá-lo da atmosfera durante séculos.

Em comparação, uma árvore apenas absorve cerca de 20 quilos de CO2 por ano. Feitas as contas, a capacidade de absorção destes organismos aquáticos poderá ser o equivalente a quatro florestas amazónicas. Segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional, realizado por quatro economistas, uma das soluções para capturar mais carbono é aumentar as populações de baleias. Baseados nas estimativas mais conservadoras, os autores do estudo acreditam que o valor de uma baleia grande, tendo em conta os vários contributos para a economia, o turismo e o ambiente, seja de 1,8 milhões de euros (dois milhões de dólares).

Heidi Pearson, professora da Universidade Southeast Alaska, concorda com a importância deste estudo mas alerta: "A política não pode andar à frente da ciência. Ainda há muito trabalho a fazer para ter a certeza acerca destes números e nestes tempos de emergência climática temos de explorar todas as estratégias potenciais."

O nosso mundo está a mudar. Para os 2500 investigadores de 90 países que participaram na World Marine Mammal Conference, a maior conferência do mundo dedicada aos mamíferos marinhos, que teve lugar em dezembro, em Barcelona, não restam dúvidas: a mudança está a ser tão rápida que os ecossistemas não estão a conseguir adaptar-se. O nosso planeta funciona como um todo, onde cada elemento, por mais pequeno e ínfimo que pareça ser, desempenha um papel fundamental. Estamos a chegar a um ponto de não retorno. Cabe-nos a nós decidir em que planeta queremos viver.

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