"Em nome de Deus"

O título tem aspas por profundo e sincero respeito aos religiosos de boa-fé. Esclareço-o sem quaisquer trocadilhos ou ironia, pois a verdade é que muitos crentes, de todas as religiões, usam a sua fé para objetivos escusos e condenáveis. Como o fazem também, aliás, muitos defensores de outras formas de ideologia. Dizer que ninguém, absolutamente, é santo ou puro seria, como é óbvio, um nítido exagero, mas a história dos seres humanos demonstra que muitos não praticam o que dizem defender e aconselham ou exigem que os outros o façam. Os "santos" e "puros" que existem talvez sirvam apenas, infelizmente, para confirmar essa provável regra.

Não pude deixar de pensar nisso nos últimos dias, ao seguir o caso da menina brasileira de apenas 10 anos de idade que foi violada por um tio e teve de travar uma épica batalha mediática e judicial para poder abortar legalmente. "Indizível" e "horripilante" são dois adjetivos que, embora fortes, são insuficientes para classificar essa história.

Além do horror da violação em si, a menina teve ainda de viver outro horror, igualmente abominável: a pressão da extrema-direita religiosa brasileira para que não fizesse um aborto legal e medicamente assistido, num hospital de referência. Tal pressão - note-se - foi exercida por grupos e indivíduos cristãos, sobretudo evangélicos, mas também protestantes e católicos.

Os referidos extremistas não se limitaram a produzir ataques verbais, em especial nessa arena onde hoje, lamentavelmente, tudo é permitido, ou seja, as redes sociais. Os mesmos chegaram ao ponto de cercar e tentar invadir o hospital onde acabou por ser realizada a interrupção da gravidez da menina estuprada pelo tio, tentando impedir a entrada não apenas dos profissionais sanitários - chamados de "assassinos" -, mas também de outros doentes, que precisavam de ser atendidos por outras razões.

A batalha chegou aos órgãos judiciais, tendo, inclusive, um tribunal de primeira instância conseguido atrasar o processo, com todos os riscos eventualmente decorrentes da demora em realizar o procedimento requerido. Mas o bom senso, a racionalidade e o humanismo imperaram, tendo a instância legal seguinte autorizado o aborto.

O que explica todo este absurdo, para não lhe chamar barbárie, em pleno século XXI?

Um pastor brasileiro, evangélico, negro e que seguramente podemos considerar um ser humano puro e decente - Ronilson Pacheco - explicou-o num breve artigo publicado no passado dia 18 deste mês no site da UOL. Para ele, a atitude desses movimentos alegadamente pró-vida e que se opunham ao aborto da menina de 10 anos violada pelo tio não tem nada que ver com a religião, sendo apenas uma estratégia de "manutenção de uma estrutura de violência e sujeição, em que a Bíblia só vai aparecer como álibi".

Acrescenta ele: - "Não é possível exigir coerência de grupos evangélicos fundamentalistas de movimentos pró-vida e pró-família. (...) O melhor a fazer é encarar o facto de que um grupo de origem racista, machista, classista, violento e negador de direitos está cada vez mais fortalecido, mais agressivo e eles vão usar da Bíblia ao direito constitucional para manter o seu projeto de sociedade ideal."

Ronilson Pacheco vai mais longe e localiza no período escravocrata a origem da ideologia fundamentalista antiaborto. Tratava-se, explica ele, de diferenciar a família branca, em especial as mulheres, da prática recorrente entre as escravas negras, que praticavam (ou eram forçadas a isso) o aborto, a fim de evitarem procriar dos seus senhores, por quem eram frequentemente estupradas. Para evitar que as mulheres brancas abortassem, nada mais "eficaz" do que demonizar o referido procedimento.

Os grupos pró-vida e pró-família surgiram formalmente nos anos 40, 50 do século passado e endureceram-se na sequência do movimento pelos direitos civis nos EUA, nos anos 1960 e 70. Como se sabe, o movimento pelos direitos civis alargou-se da defesa dos direitos dos negros ao movimento de liberação sexual e ao feminismo, tendo conduzido à primeira decisão do Supremo Tribunal daquele país a favor do aborto legal, em 1973. Essas revolucionárias transformações deixaram acuada a família branca tradicional. Daí a reação conservadora e branca então verificada e que culminou com a eleição de Richard Nixon. Toda a semelhança com a reação que levou Donald Trump ao poder em 2016 não é coincidência.

Note-se que, e tal como ficou patente em 1955, no linchamento de Emet Till, por ter supostamente assediado uma mulher branca, os primeiros grupos pró-vida e pró-família eram apoiantes da segregação racial. "Grupos pró-família e pró-vida são grupos de ódio. Eles nasceram assim nos Estados Unidos, eles permanecem assim no Brasil", escreveu o pastor Ronilson Pacheco.

Não é ocasional, acrescento eu, que o conservadorismo moral, muitas vezes misturado com fundamentalismo religioso, seja um dos eixos do populismo e do autoritarismo de direita que começam a crescer pelo mundo inteiro.

Jornalista e escritor angolano, diretor da revista África 21

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