90 anos de Sean Connery. Muito mais do que Bond, James Bond

Um dos maiores sex symbols masculinos do cinema, senhor de um carisma que conquistou gerações, Sir Sean Connery celebra 90 anos.

Quem é o melhor James Bond de sempre? Volta e meia a pergunta é colocada aos fãs das aventuras de Ian Fleming para averiguar o impacto dos atores que vão prolongando o reinado de 007. Assim, um inquérito recente promovido pela Radio Times colocou de novo Sean Connery no primeiro lugar do pódio. E se é verdade que há surpresas nos nomes que ficaram em segundo e terceiro lugares - Timothy Dalton e Pierce Brosnan -, a escolha de topo não traz qualquer novidade. O consenso geral dita que Connery é a definitiva personificação do charme de Bond, entre um jeito de sobrancelha e o toque fácil do humor. Terence Young, o realizador do primeiro filme da série, disse-o da forma mais direta: "Se me perguntarem quais foram os três ingredientes para James Bond, foi Sean Connery, Sean Connery e Sean Connery."

A completar 90 anos (a 25 de agosto), o ator escocês tem-se mantido longe dos holofotes. Retirou-se do grande ecrã em 2003, desapontado com a experiência do último filme, Liga de Cavalheiros Extraordinários, e atualmente vive nas Bahamas com a mulher, Micheline Roquebrune Connery, a aproveitar a reforma enquanto se dedica à velha paixão do golfe. No ano passado, soube-se que a sua casa tinha sido atingida pelo furacão Dorian, mas sem danos de maior. Nada para o qual não estivesse preparado, desde logo, com a ajuda de uma equipa especializada em furacões... Ossos do ofício de gente do cinema.

Em 2008 lançou uma espécie de autobiografia, Being A Scot, que, como o título sugere, é um conjunto de notas pessoais sobre a essência de ser escocês, naturalmente algo que define as coordenadas íntimas de Sir Sean Connery. Em 2000 a rainha Isabel II nomeou-o Cavaleiro do Império Britânico, sendo ele uma das vozes mais destemidas a favor da independência da Escócia - de tal maneira que a cerimónia teve lugar em terras escocesas e Connery compareceu trajado com kilt, para não perder o simbolismo das suas convicções nacionalistas. Entre as honras que acumula destacam-se também os prémios máximos do American Film Institute e dos Globos de Ouro (o Cecil B. DeMille Award), e, noutro departamento, a eleição de homem mais sexy do século pela revista People. Mas vale a pena lembrar que o brilho das distinções nunca ofuscou as suas origens humildes.

De polidor de caixões a 007

Nascido em Fountainbridge, Edimburgo, numa família da classe média-baixa, filho de um camionista e de uma lavadeira, Thomas Sean Connery (chamavam-lhe "Tommy") começou a trabalhar muito cedo como leiteiro, ganhando uma libra por semana para ajudar nas contas da casa. Aos 13 anos já tinha largado a escola para se dedicar a tempo inteiro ao ganha-pão, e aos 16 alistava-se na Marinha Real, onde acabou por cumprir apenas três anos de serviço devido a uma úlcera no estômago. O regresso a casa traduziu-se numa acumulação de empregos, desde polidor de caixões a modelo nas aulas de desenho da Edinburgh College of Art, qual Adónis que enchia a sala de raparigas, e em 1953 concorreu a Mr. Universo. Aí ficou em terceiro lugar. Outros pódios se adivinhavam.

Esse concurso que o levou a Londres foi, na verdade, a génese de tudo. Um diretor de casting reparou nele e convidou-o a juntar-se ao coro do musical South Pacific, de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II. Connery admitiu que "não tinha voz nem sabia dançar, mas podia ficar bem ali parado." E, após o primeiro ensaio, teve a certeza de que ator era a carreira que queria abraçar. Com um pequeno grande senão: a sua frágil literacia.

Aquela elegância que se tornou imagem de marca, e que sugere uma educação privilegiada, não era um dado adquirido; foi fruto de uma enorme vontade individual de colmatar a escolaridade interrompida no início da adolescência. Sentindo a falta desses requisitos, Connery lançou-se numa corrida às livrarias e devorou clássicos da literatura, de Proust a Shakespeare, passando por Tolstoi, Joyce e Bernard Shaw. Concluída a maratona literária, estava preparado.

Seguiram-se vários filmes e produções televisivas, incluindo-se nestas uma elogiada performance de pugilista em Requiem for a Heavyweight (1957), da BBC, e não demorou muito a ser escolhido para assumir a papel de James Bond no primeiro filme da saga, Dr. No (1962). À partida, Cary Grant era o nome que os produtores e o próprio autor, Ian Fleming, tinham em mente, mas a idade avançada do galã não permitia garantir uma produção seguinte. Assim, embora a United Artists receasse apostar num ator quase desconhecido, quando se reuniram com Connery aperceberam-se do fator atrativo que estava na maneira como ele se movia... Qualidade exímia para o futuro agente secreto 007. O resto seria esculpido pelo realizador Terence Young.

Com efeito, o maior mérito de Young foi a elaboração do conceito da personagem e as lições que deu a Sean Connery - ainda um diamante em bruto - sobre o estilo de James Bond. Entre essas lições, conta-se que pediu ao ator para dormir de fato, a fim de se habituar à indumentária; desafio que correu lindamente, ou não tivesse Connery revelado que se sentiu muito confortável depois de uma boa noite de sono no seu novo vestuário de serviço.

O tremendo sucesso de Dr. No levou à produção imediata, e a um ritmo anual, das sequelas From Russia with Love (em português, 007 - Ordem para Matar, o favorito do próprio ator), 007 - Contra Goldfinger e 007 - Operação Relâmpago. Êxitos internacionais consecutivos que cimentaram o fenómeno e estabeleceram o glamour da estrela escocesa como estampa original da personagem. Nenhum outro soube como ele pronunciar o célebre "Bond, James Bond".

Mas a saga foi um pau de dois bicos, porque Connery fartou-se do modelo e não queria ficar exclusivamente associado à ação de espionagem e alta-costura de Bond. Ainda fez 007 - Só Se Vive Duas Vezes (1967) e, já muito reticente, aceitou uma derradeira aventura em 007 - Os Diamantes São Eternos (1971). Ou assim queria que fosse. Mais de uma década depois foi persuadido por milhões de dólares a retomar o lugar do antigo herói em - título espirituoso - Nunca Mais Digas Nunca (1983). E, apesar de bem pago, não deixou de confessar em entrevistas que sentia as possibilidades do seu talento sufocadas pela imagem de Bond. Um dilema partilhado pelo mais recente sucessor no cargo, Daniel Craig.

O ator que queria ser rei

De fininho, Sean Connery conseguiu ir construindo um perfil paralelo à saga em filmes como Marnie (1964), de Hitchcock, A Colina Maldita (1965), de Sidney Lumet, ou A Flecha e a Rosa (1976), de Richard Lester, aqui interpretando um Robin Hood entradote, ao lado da madura Audrey Hepburn. Mais tarde chegaria O Nome da Rosa (1986), essa adaptação do romance homónimo de Umberto Eco, assinada por Jean-Jacques Annaud, que beneficiou da postura sagaz do ator na pele de um monge franciscano que investiga uma série de mortes enigmáticas numa abadia; a seguir Os Intocáveis (1987), de Brian De Palma, o filme que lhe valeu o seu único Óscar, no papel secundário de Jim Malone, o polícia veterano que é a figura carismática do grupo Untouchables, empenhado na captura do chefe da máfia Al Capone; e ainda seria o pai de Harrison Ford em Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), de Steven Spielberg, entre vários filmes de ação bem-sucedidos, como Caça ao Outubro Vermelho (1990), de John McTiernan.

Pelo meio, vestiu quatro vezes a pose de soberano. A primeira em O Homem Que Queria Ser Rei (1975), baseado num conto de Rudyard Kipling, projeto de longa data de John Huston e título notável da carreira de Connery, ao lado do amigo Michael Caine; depois foi o rei Agamemnon em Os Ladrões do Tempo (1981), de Terry Gilliam; voltou ao universo de Robin Hood em O Príncipe dos Ladrões (1991), desta vez como Ricardo Coração de Leão; e em O Primeiro Cavaleiro (1995), de Jerry Zucker, deu rosto ao rei Artur. O facto é que as coroas assentavam-lhe bem e a personagem de Daniel Dravot, de O Homem Que Queria Ser Rei, foi mesmo o seu papel predileto de toda a filmografia.

Quando optou pela reforma já estava muito desiludido e frustrado com a indústria cinematográfica no seu todo, não se revendo na lógica dos produtores. Nomeadamente, a falta de identidade dos projetos era a maior crítica que fazia a Hollywood. E deu-o a entender, por outras palavras, durante o discurso de aceitação do prémio Cecil B. DeMille. Do palanque contou que no início da carreira tentaram convencê-lo a frequentar umas aulas para eliminar o seu tão singular sotaque escocês, "de modo a interpretar papéis sem parecer que estou a usar um kilt. Só assim o público americano poderia perceber o que raio estava eu a dizer". É óbvio que Connery não seguiu o conselho... O scottish accent permanece como um detalhe importante da figura, agora nonagenária.

Por isso, quando em Os Intocáveis o ouvimos dizer ao capanga que o vem matar a famosa tirada - "Típico de um esparguete... Trazer uma faca para uma luta de pistolas" - é a voz com o sotaque no seu estado mais puro que fica a ecoar depois do banho de sangue. É na grandeza daquele velho polícia que está toda a majestade de Sean Connery.

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