25 de Abril! Como se passou? Quem lá esteve? (Espero)

Porque raio havemos de celebrar o 25 de Abril no Parlamento? Pelo raio de luz que ele é. Por um instante apeteceu-me usar uma bela expressão da nossa língua, o "porque sim", que tão bem assenta no que é óbvio. Mas preferi não, por duas razões. Primeiro, o "porque sim" não é entendido pelos cágados e pelos telhudos, e, segundo, porque uma das grandezas do 25 de Abril é sentir-se obrigado a dar explicações mesmo à manha e à estupidez.

Deixem-me lembrar um discurso de político, nestes dias trágicos, mas também bravos e de esperança. Disse o político: "É bom estarmos fisicamente aqui. Em dias de peste, o Parlamento não pode fechar nem transformar-se numa instituição remota. Tal como os supermercados e os bombeiros, o parlamento é um serviço essencial durante a pandemia. E em tempos de poderes extraordinários para os governos, o parlamento é o hospital da democracia." Foi dito há dias, noutro parlamento, o Europeu, e pelo eurodeputado Esteban González Pons, do PP, da direita espanhola.

Um parlamento a funcionar é condição necessária, não só portuguesa, nem de direita ou de esquerda - é da democracia. O nosso Parlamento, durante estas semanas de quarentena, nunca deixou de trabalhar. Reduziu o seu quórum para metade, 116 deputados, mas as razões sanitárias que levaram a isso não são a única alusão à saúde. É que, como disse González Pons, em tempos de poderes extraordinários, o Parlamento é o hospital da democracia. Quer dizer, tinha de estar aberto, então, foi. A partir da exigência, garantiram-se as condições para funcionar e funcionou-se. Eis o que temos de reconhecer como conseguido pelos nossos deputados e partidos.

Destes dias, pode-se gostar do primeiro-ministro António Costa a governar ou do líder da oposição Rui Rio a opor-se, gostar de ambos ou de nenhum. Mas o facto político maior é estarmos a viver a prova de que não, os políticos portugueses não são uma cambada (como tão soberbamente Costa e Rio têm mostrado não serem). Os manhosos, incluindo um ou outro político, têm ficado sem argumentos. E chegamos aqui à polémica da semana: porque raio havemos de celebrar o 25 de Abril no Parlamento?

A resposta: porque o Parlamento emana da democracia e serve-a. Se em tempos de perigos extraordinários ele não pode deixar de funcionar, pois é o hospital da democracia, então, nas mesmas condições de perigo, ele não pode deixar de celebrar a democracia. Os símbolos e os jogos cénicos são tão mais importantes nas sociedades quanto mais elas estão fragilizadas. É de agora, com o Papa Francisco na solidão da Praça de São Pedro. É de ontem, na Londres do Blitz, os bombardeamentos nazis, Segunda Guerra Mundial, com uma loja de montra partida e um anúncio: "Mais abertos do que nunca!" O Parlamento deve dizer no próximo sábado: "Mais democratas que nunca."

Desde logo, os equívocos deviam ser varridos. O Parlamento cheio de gente, quando Portugal inteiro foi mandado isolar-se? Esta questão tem relativas boas respostas, mas tem legitimidade para ser posta. Para trabalhar sem riscos desnecessários, Parlamento ficou com metade dos deputados. Então, quem organiza a comemoração de sábado (a presidência do Parlamento e a Presidência da República) cortou mais.

Passou só para um terço dos deputados, 77 - o que faria com os convidados, um total de 130 pessoas. Um quinto de um ano normal dos 25 de Abril anteriores, mas ainda assim a imagem de casa demasiado cheia... Pessoas avisadas aconselharam mais cortes e já se desceu para só uma centena de pessoas, entre deputados e convidados. Fica a sensação de os equívocos terem sido só aparados. Os mabecos, não os críticos avisados, toparam a hesitação e à cerimónia passaram a chamar sempre "festa". E já se pode adivinhar o deputado André Ventura relatar para a CMTV, sábado: "Um forrobodó!..."

Ora o próprio da força dos símbolos é a sua pureza. Escreveu Sophia do 25 de Abril: "O dia inicial inteiro e limpo", e nenhuma das palavras carrega contas de mercearia. O número certo? O mínimo. Dilema matemático que poderia ser resolvido com a inteligência da intenção: nada nem ninguém deveria entrar na Sala das Sessões sem trazer consigo uma carga simbólica. E como símbolo não vale só a força do protocolo...

Reparem como a própria intenção se pauta pela musa da cerimónia, a democracia: tudo devia ser programado para que todos (enfim, descontem-se os manhosos) entendam. Depois de se garantir o simbólico (todos os partidos representados), o plenário seria escolhido de forma a que um mínimo de deputados garantisse a máxima imagem do que se pretende dizer. Isto é, que a Sala das Sessões representava o confinamento a que os portugueses em geral foram obrigados.

Na tribuna do Governo, porquê mais do que o primeiro-ministro? Que melhor imagem de distância social que a solidão de um homem, apesar de poderoso e agora admirado? Na tribuna presidencial parece estar decidido só Rebelo de Sousa (PR) e Ferro Rodrigues (presidente da AR). Bem. Mas sublinhem o afastamento, hoje uma virtude.

Contas feitas, insista-se nos símbolos. Para representar os militares bastaria Regina Mateus, a primeira mulher general, um direito conquistado. Ainda por cima, diretora do Hospital da Forças Armadas, uma frente de batalha atual. Outro símbolo, na tribuna dos jornalistas: uma folha de papel e um lápis pousados, a ilustrar a miséria das empresas, e no meio, a presença austera de Adelino Gomes, homem da Rádio e da escrita - honestidade, qualidade, exemplo.

Nas galerias de visitantes, só uma pessoa: um nepalês, daqueles imigrantes por cá apanhados pela pandemia e que Portugal regularizou. Talvez ele se levantasse e fizesse o melhor discurso da manhã: "Obrigado." A palavra em nepalês passa a querer dizer decência, que é o melhor sinónimo da democracia, a tal ali celebrada.

A tribuna presidencial seria engalanada com um só cravo. Mais um símbolo. O 25 de Abril sem sangue, não que a Pide tivesse sido submersa por coroas enormes de flores, mas porque um cravo meteu o caule no cano de uma G-3 e deu a ideia da revolução. Em dois painéis gigantes, ladeando a estátua da República, seriam projetados testemunhos e até discursos.

Por falar em discursos, e por insistirmos em símbolos: porque haveria Ferro Rodrigues de discursar? Num vídeo, apareceria um paciente português do coronavírus já curado e ele diria: "Espero que não se importem se eu mencionar, em particular, alguém que esteve ao meu lado todas as horas quando as coisas poderiam ter dado para o torto: o SNS, filho do 25 de Abril, perto de Portugal inteiro."

Nos painéis apareceriam imagens sempre simbólicas. Depois das palavras anteriores, surgiria o enfermeiro Luís Pitarma, emigrante em Londres, a ir de metro para hospital. O metro razoavelmente cheio, o risco razoavelmente agudo. Repararam no símbolo da ironia que é dizer-se que isto da epidemia ser igual para todos?... Outro vídeo: em Campo Maior, uma operária faz um desvio para deixar um aceno a um velho de bigode, quase 90 anos, sentado num banco da praça. Ela e a família trabalharam sempre na torrefação de café de Rui Nabeiro. A operária e o velho trocaram dois sorrisos e um olhar entre iguais.

Do norte podia vir o testemunho de um homem de cara castigada: "Nunca devia ter roubado aquela Famel, fui julgado e condenado, e merecia. Quando apareceu o tal vírus, na cela até medo de respirar eu tinha... Mas o meu País abriu-me a porta. Não esperava, não esquecerei." Outro testemunho só em imagens e uma legenda no final. Em Esch-sur-Alzette, Luxemburgo, uma emigrante portuguesa, ainda jovem, é funcionária num lar da terceira idade. Com as suas companheiras, ela organiza protestos por falta luvas e máscaras. Nos grandes painéis, ela olha-nos e a legenda diz: "Catarina Salgueiro Maia."

É isto ou parecido que espero na celebração do 25 de Abril, sábado. Quarenta pessoas? Sei lá, logo que sublinhe escolha responsável de combatermos a tragédia que Portugal vive. Logo que reforce a nossa vontade para as responsabilidades seguintes. Logo que os Passos Perdidos sejam uma ironia, daquelas com que os portugueses aprendem a ir em frente.

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