Novo romance de Nicholas Sparks com edição exclusiva para Portugal

O DN pré-publica o primeiro capítulo de O Regresso, o título do mais recente romance de Nicholas Sparks. Chega às livrarias nesta terça-feira, mas nos Estados Unidos só será lançando uma semana depois.

Uma semana antes do lançamento nos Estados Unidos, os leitores portugueses vão ter uma edição especial de O Regresso, o mais recente romance de Nicholas Sparks, com três vídeos exclusivos para Portugal.

Nicholas Sparks irá surpreender e acompanhar os seus leitores portugueses ao longo da história ao dar acesso a três momentos paralelos a partir dos QR Codes que constam nas páginas do romance.

Autor bestseller n.º 1 do The New York Times, traduzido para mais de meia centena de línguas e com mais de cem milhões de livros vendidos em todo o mundo, Nicholas Sparks regressa agora com um romance em que considera que para se seguir em frente muitas vezes é preciso voltar atrás.

Nascido em 1965 no Omaha, Nebraska, Sparks escreveu o livro que deu início à sua carreira meteórica e que atualmente está a ser adaptado para musical da Broadway - O Diário da Nossa Paixão - com apenas 28 anos. E nunca mais parou de contar histórias, somando 22 livros publicados.

Pré-publicação do primeiro capítulo

2014

Reparei pela primeira vez na rapariga que passava pela minha casa no dia a seguir a ter-me mudado. Ao longo do mês e meio seguinte, vi -a passar algumas vezes por semana, de cabeça baixa e ombros descaídos. Durante muito tempo, nenhum de nós disse uma palavra ao outro.

Suspeitava de que ela era adolescente - algo no seu porte dava a impressão de que estava a debater-se com o duplo fardo de pouca autoestima e irritação contra o mundo - mas, aos 32 anos, eu tinha chegado à idade em que era quase impossível adivinhar. Para além de reparar no seu cabelo castanho comprido e nos seus olhos afastados, a única coisa que sabia com certeza sobre ela era que vivia no parque de caravanas ao cimo da estrada e que gostava de andar a pé. Ou, o mais provável, que era obrigada a andar a pé, porque não tinha carro.

O céu de abril estava límpido, a temperatura andava pelos vinte e poucos graus e havia só uma brisa suficiente para trazer o aroma perfumado das flores. Os cornizos e as azáleas no jardim tinham florescido quase da noite para o dia, ladeando o caminho ensaibrado que contornava a casa do meu avô, à saída de New Bern, na Carolina do Norte, uma casa que eu herdara recentemente.

E eu, Trevor Benson, médico convalescente e veterano incapacitado de profissão, estava com uma caixa a deitar bolas de naftalina junto à base do alpendre da frente, a lamentar-me por não ser assim que tinha planeado passar a manhã. O problema das tarefas domésticas era nunca se saber ao certo quando terminariam, porque havia sempre mais alguma coisa a necessitar de ser feita... ou perceber até se arranjar a velha casa valeria sequer a pena.

A casa - e uso o termo na sua aceção mais abrangente - não era grande coisa em termos de aspeto, e os anos haviam feito os seus estragos. O meu avô construiu-a ele próprio depois de voltar da Segunda Guerra Mundial, e, embora fosse capaz de construir coisas duradouras, não tinha grande talento no que dizia respeito à arquitetura. O edifício era um retângulo com um alpendre na parte da frente e outro na de trás - dois quartos, cozinha, sala de estar e duas casas de banho; os painéis de cedro tinham desbotado ao longo dos anos e eram agora de um cinzento prateado, à semelhança do cabelo do meu avô. O telhado fora remendado, as janelas deixavam entrar correntes de ar e o chão da cozinha tinha uma inclinação tal que, se se derramasse um líquido ele transformar-se-ia num minúsculo rio, fluindo em direção à porta que dava para o alpendre das traseiras. Agrada-me pensar que tornava a sua limpeza mais fácil para o meu avô, que viveu sozinho nos últimos trinta anos da sua vida.

O terreno, contudo, era especial. Tinha um pouco mais de dois hectares e meio, um velho celeiro ligeiramente inclinado e um barracão do mel - onde o meu avô colhia o seu mel - e, aparentemente, havia ali todas as plantas que dão flor conhecidas pela humanidade, incluindo trevos e flores silvestres. Daquele momento até ao final do verão, a propriedade assemelhar-se-ia a um espetáculo de fogo-de-artifício rasteiro. Situava-se também na margem de Brices Creek, um riacho onde corria uma água escura e salobra, tão lentamente que muitas vezes refletia o céu como um espelho. O pôr do Sol transformava o riacho numa cacofonia de tons de bordeaux, vermelho, laranja e amarelo, ao mesmo tempo que os raios a desvanecerem-se lentamente trespassavam as cortinas de barba-de-velho drapeadas sobre os ramos das árvores. As abelhas adoravam aquele sítio, e fora essa a intenção do meu avô, já que tenho a certeza de que ele gostava mais de abelhas do que de pessoas. Havia cerca de vinte colmeias na propriedade; ele dedicara uma parte do seu tempo à apicultura ao longo de toda a sua vida, e não me escapava o facto de as colmeias se encontrarem em melhor estado do que a casa ou o celeiro. Tinha ido verificar de longe as colmeias algumas vezes desde a minha chegada e, embora ainda fosse cedo naquela altura, percebi que as colónias estavam de boa saúde.

A população de abelhas estava a crescer rapidamente, como sempre na primavera - conseguia até ouvi-las zumbir se me pusesse a escutar - e deixara-as em paz. Em vez de me ocupar delas, passara a maior parte do tempo a tornar a casa novamente habitável. Limpei os armários, pondo de lado alguns frascos de mel para guardar e deitando fora o resto - uma embalagem de bolachas de água e sal moles, frascos quase vazios de manteiga de amendoim e de geleia e um saco de maçãs ressequidas. As gavetas estavam atafulhadas com tralha - vales fora de prazo, velas meio usadas, ímanes e esferográficas que já não funcionavam, foi tudo parar ao caixote do lixo. O frigorífico estava praticamente vazio e estranhamente limpo, sem nenhuma das coisas bolorentas ou dos cheiros nojentos com que estava a contar. Tirei da casa uma tonelada de tralha - a maior parte da mobília tinha meio século, e o meu avô sofria de um pequeno problema de acumulação - e depois contratei várias equipas para fazer o trabalho mais difícil. Contratei um mestre de obras para fazer uma remodelação cosmética a uma das casas de banho; um canalizador consertou a fuga na torneira da cozinha; mandei lixar e envernizar o soalho, pintar as paredes; e por último, mas não menos importante, mandei substituir a porta das traseiras. Estava estalada junto à ombreira e tinha sido entaipada. A seguir, depois de contratar uma equipa para limpar a casa de alto a baixo, instalei uma rede wi-fi no meu portátil e escolhi algumas peças de mobiliário para a sala de estar e o quarto, assim como um novo televisor para a salinha. O aparelho que lá estava antes tinha uma antena das antigas e era do tamanho de uma arca de tesouros. Como a loja de caridade recusou o donativo das peças de mobiliário usado do meu avô, apesar de eu argumentar que poderiam ser consideradas antiguidades, acabaram no ecoponto.

Contudo, os alpendres encontravam-se em relativo bom estado, e era lá que eu passava a maior parte das minhas manhãs e fins de tarde. E foi por esse motivo que comecei com as bolas de naftalina. A primavera no sul não tem só que ver com flores e abelhas e belos pores do Sol, especialmente quando se vive ao lado de um ribeiro num terreno que parece uma selva. Como ultimamente fazia mais calor do que o costume, as cobras tinham começado a acordar do seu sono de inverno. Eu avistara uma grande no alpendre das traseiras nessa manhã ao sair com o meu café. Depois de apanhar um susto de morte e derramar metade do café pela camisa abaixo, esgueirei -me rapidamente para dentro de casa.

Não fazia ideia se a cobra era venenosa ou de que tipo seria. Não sou especialista em cobras. Mas, ao contrário de algumas pessoas - do meu avô, por exemplo -, também não a queria matar. Só queria que se mantivesse afastada da minha casa e fosse viver lá longe. Sabia que as cobras fazem coisas úteis - como matar os ratos que já ouvira passarinhar dentro das paredes à noite. Aquele som arrepiava-me; apesar de ter passado todos os verões aqui em pequeno, não estou habituado à vida no campo. Sempre me considerara mais do tipo que vive num apartamento na cidade, e fui-o até à explosão que não só fez ir pelos ares todo o meu mundo mas também a mim próprio. O motivo pelo qual estava em convalescença, mas isso fica para mais tarde. Por agora, no entanto, voltemos à questão da cobra. Depois de mudar de camisa, lembrei-me vagamente de que o meu avô usava bolas de naftalina para manter afastadas as cobras. Estava convencido de que elas tinham poderes mágicos para repelir todo o tipo de coisas - morcegos, ratos, insetos e cobras - e comprava-as às carradas. Eu tinha visto bastantes no celeiro e, calculando que alguma coisa o meu avô devia saber, peguei numa caixa e comecei a espalhá-las generosamente à volta da casa, primeiro nas traseiras e dos lados e por fim na parte da frente. Foi nessa altura que vi de novo a rapariga a passar na estrada ao lado da minha casa.

Estava de calças de ganga e T‑shirt e, quando ergui a cabeça, deve ter sentido o meu olhar pousado nela, porque olhou na minha direção. Não sorriu nem acenou; em vez disso, baixou a cabeça, como se esperasse assim poder evitar reconhecer a minha presença.

Encolhi os ombros e voltei ao trabalho, se é que espalhar bolas de naftalina pode considerar-se trabalho. Por alguma razão, no entanto, dei comigo a pensar no parque de caravanas onde ela vivia. Ficava ao fundo da estrada, a cerca de um quilómetro e meio. Por curiosidade, tinha ido até lá a pé pouco depois de chegar. Aparecera ali desde a minha última visita, e suponho que queria saber quem eram os novos vizinhos. O meu primeiro pensamento ao vê-lo foi que fazia que a casa do meu avô parecesse o Taj Mahal. Havia seis ou sete caravanas velhas e decrépitas que pareciam ter sido largadas ao acaso num espaço de terra batida; no canto mais afastado viam-se os restos de uma caravana que ardera, deixando apenas uma estrutura negra e parcialmente derretida que nunca fora retirada dali. Entre as caravanas havia cordas da roupa descaídas entre postes inclinados. Umas galinhas magricelas bicavam o solo na pista de obstáculos formada por carros pousados em blocos de cimento e eletrodomésticos enferrujados, evitando por pouco um pit bull feroz acorrentado a um para-choques velho. O cão tinha dentes enormes, e ladrou tão ferozmente quando me viu que até voava saliva da sua boca a espumar. Não é um cãozinho simpático, lembro-me de pensar. Perguntei a mim mesmo porque é que alguém escolheria viver num sítio como aquele, mas, por outro lado, já sabia a resposta. Ao voltar para casa, senti pena dos residentes e depois repreendi-me por ser um snobe, porque sabia que tivera mais sorte do que a maior parte das pessoas, pelo menos no que dizia respeito a dinheiro.

- Vive aqui? - ouvi uma voz perguntar.

Olhando para cima, vi a rapariga. Tinha voltado para trás e estava a uns metros de mim, claramente a manter as distâncias, mas suficientemente perto para me permitir reparar num salpicado de sardas claras numas faces tão pálidas que quase pareciam translúcidas. Reparei também num par de nódoas negras nos seus braços, como se tivesse esbarrado em alguma coisa. Não era particularmente bonita e havia algo de inacabado nela, o que me fez pensar de novo que ainda seria adolescente. O seu olhar desconfiado sugeria que estava disposta a fugir se eu desse o menor sinal de querer aproximar-me dela.

- Agora vivo - disse eu, sorrindo. - Mas não sei quanto tempo vou ficar.

- O velho morreu. O que vivia aqui. Chamava -se Carl.

- Eu sei. Era meu avô.

- Oh. - Enfiou a mão no bolso traseiro das calças. - Ele dava-me mel.

- Isso soa a algo que ele faria. - Não tinha a certeza se era verdade, mas pareceu-me a coisa certa a dizer.

- Ele costumava comer no Trading Post - disse ela. - Era sempre simpático.

O Trading Post do Slow Jim era uma daquelas lojas a cair aos pedaços, tão frequentes no sul, e já existia antes de eu nascer. O meu avô costumava levar -me lá sempre que eu vinha de visita. Era do tamanho de uma garagem para três carros e tinha um alpendre coberto na parte da frente, e vendia tudo, desde gasolina a leite e ovos, mas também equipamento para a pesca, isco vivo e peças de automóveis. Havia umas bombas de gasolina antiquadas na parte da frente - que não aceitavam cartões de crédito ou de débito - e um balcão onde era servida comida quente. Lembro-me de que uma vez encontrei um saco de soldadinhos de plástico enfiado entre uma embalagem de gomas e uma caixa de anzóis. Não havia um critério racional nos produtos das prateleiras ou expostos nas paredes, mas eu sempre a achara uma das lojas mais fixes que alguma vez vira.

- Trabalhas lá?

Ela assentiu com a cabeça e depois apontou para a caixa que eu tinha na mão.

- Porque é que está a pôr bolas de naftalina à volta da casa?

Olhei para a caixa, apercebendo-me de que me esquecera de que a tinha na mão.

- Apareceu uma cobra no meu alpendre hoje de manhã. Ouvi dizer que as bolas de naftalina as mantêm afastadas. Ela comprimiu os lábios antes de recuar um passo.

- OK. Só queria saber se estava a viver aqui agora.

- Sou o Trevor Benson, a propósito.

Ao ouvir o meu nome, ela fitou-me. Estava a tentar arranjar coragem para fazer a pergunta óbvia.

- O que é que aconteceu à sua cara?

Sabia que estava a referir-se à cicatriz fina que vai da raiz do meu cabelo ao maxilar, o que apenas reforçou a minha impressão quanto à sua idade. Geralmente, os adultos não aludiam a ela. Em vez disso, fingiam que não tinham reparado.

- Um ataque de morteiros no Afeganistão. Há uns anos.

- Oh. - Esfregou o nariz com as costas da mão. - Doeu?

- Sim.

- Oh - disse ela de novo. - Acho que vou indo.

- Está bem - disse eu.

Começou a dirigir-se para a estrada, mas subitamente virou-se de novo.

- Não vai resultar - disse.

- O que é que não vai resultar?

- As bolas de naftalina. As cobras estão-se nas tintas para as bolas de naftalina.

- Tens a certeza?

- Toda a gente sabe.

Diz isso ao meu avô, pensei.

- Então, o que é que eu devia fazer? Se não quiser ter cobras no meu alpendre?

Pareceu refletir antes de responder.

- Talvez devesse viver num sítio onde não haja cobras.

Ri-me. Ela era estranha, sem dúvida, mas dei me conta de que me estava a rir pela primeira vez desde que me tinha mudado para ali, talvez a minha primeira gargalhada em vários meses.

- Prazer em conhecê-lo.

Fiquei a vê-la afastar -se, surpreendido quando ela fez uma pirueta lenta.

- Sou a Callie - disse ela levantando a voz.

- Prazer em conhecer-te, Callie.

Quando finalmente desapareceu de vista, ocultada pelas azáleas, perguntei-me se deveria continuar a espalhar as bolas de naftalina. Não fazia ideia se ela estava certa ou errada, mas acabei por decidir dar o trabalho por terminado. Apetecia-me beber uma limonada e queria sentar-me no alpendre das traseiras para relaxar, quanto mais não fosse porque o meu psiquiatra me tinha recomendado que aproveitasse o tempo para descontrair enquanto podia.

Disse que isso me ajudaria a manter afastada A Escuridão.

O REGRESSO
Nicholas Sparks
ASA Edições

Mais Notícias