O corpo político

Alguns pedaços do cérebro de Mussolini foram transportados para a América, para análise, com vista a demonstrar que padecia de sífilis.

Deve ter sido bonito, deve. De um lado do hemiciclo, um antigo contabilista que começara a vida a fazer chapéus Borsalino e que, como membro da Resistência, chefiara a brigada que matou Mussolini. Do outro, um neofascista que se iniciara na política a rasgar cartazes do filme Roma, Cidade Aberta, e que fora o líder da quadrilha que furtou o cadáver do Duce e o levou para parte incerta. Sentavam-se agora os dois na Câmara dos Deputados, eleitos pelo povo em sufrágio livre, muito democraticamente.

Poucos anos antes, em Abril de 1945, no estertor da II Guerra, um grupo de partisans conseguira localizar Benito Mussolini e a sua amante, Claretta Petacci, quando ambos tentavam escapar rumo à Suíça. Detidos numa vilória das margens do lago Como, foram sumariamente executados às ordens de Walter Audisio, nome de guerra "coronel Valerio", o antigo contabilista dos Borsalinos, que acabou deputado à câmara. Dizem uns que Mussolini se portou com bravura, rasgando a camisa e dando o peito às balas, aos gritos: "Aqui, no coração!" Dizem outros que o Duce perdera o fulgor de outrora, que estava pálido e sombrio, vestido ridiculamente com um blusão nazi e um boné da Luftwaffe. Alguns, mais maldosos, chegaram a afirmar que o Duce virara travesti, e estava vestido de mulher, o que não é verdade, como não é verdade que envergava uma barba postiça, em jeito circense.

Mortos os corpos, levaram-nos para a Piazzale Loreto, em Milão, um local simbolicamente escolhido: cerca de um ano antes, tinham sido aí fuzilados 15 membros da Resistência em retaliação por um ataque aéreo dos Aliados. Na praça, a turba rodeou os cadáveres, pontapeou-os furiosamente, os rostos ficaram desfeitos, reduzidos a uma pasta acinzentada, disforme. Uma mulher disparou sobre o casal, outras lançaram-lhe para cima hortaliças e pedaços de pão preto, em sinal de desprezo pelo racionamento e pela fome a que o ditador as votara. Depois, colocaram a cabeça de Benito junto ao peito de Claretta, numa atitude íntima, assinalando o pecaminoso facto de serem amantes, não casados.

Para impedir a continuação daquilo tudo, os partisans decidiram pendurar ao alto os corpos de Benito Mussolini, de Claretta Petacci e de outros companheiros de infortúnio, que ficaram expostos publicamente durante várias horas, presos pelos pés e de cabeça para baixo, o que desde a Idade Média constituía a forma mais aviltante de exibir um cadáver. Cá em baixo, a multidão continuou a insultá-los e a fazer comentários sarcásticos sobre as meias de Claretta; nos anos vindouros, houve dezenas de histórias sobre a lubricidade refinada da roupa interior da amante do Duce, com muitos a garantirem que a lingerie da Petacci era adornada de jóias e demais pedras preciosas. Quando removeram os cadáveres, os bombeiros tiveram de limpar o sangue das muitas feridas que tinham, e a urina e o cuspo com que o povo os cobrira. Durante a autópsia, transformada em espectáculo por onde iam passando partisans, jornalistas e populares curiosos, duas enfermeiras jogaram pingue-pongue com os órgãos vitais de Benito Amilcare Andrea Mussolini, atirando uma à outra os seus rins, um pulmão, uma mão-cheia de intestinos, o coração inerte. No relatório clínico, atestou-se que o rosto estava irreconhecível, que uma parte da massa encefálica escorrera do crânio esmagado, que um dos olhos estava arrancado, com o vítreo a derramar, gelatinoso, que a mandíbula superior tinha fracturas múltiplas, mas não se referiram os tiros, os pontapés ou os murros infligidos ao cadáver. Um fotógrafo do exército americano retratou o Duce e a amante lado a lado, de braço dado, numa pose grotesca e macabra. Alguns pedaços do cérebro de Mussolini foram transportados para a América, para análise, com vista a demonstrar, sem sucesso, que padecia de sífilis e que era essa a causa dos seus gestos loucos (disse-se que essa doença era fruto da sua hiperactividade sexual ou que a sua loucura decorria de ser viciado em afrodisíacos, e até não faltou quem asseverasse que Mussolini tinha uma "arrogância fálica" e que era um homossexual reprimido...). Claretta não foi autopsiada.

Entretanto, Edda Mussolini soube da morte do pai de uma forma brutal: na manhã de 29 de Abril de 1945, ao regressar a Itália vinda do convento suíço onde se refugiara após a execução do seu marido, o conde Galeazzo Ciano, sintonizou a rádio na estação Milão Livre, que a essa hora transmitia a notícia de que, na Piazzale Loreto, uma multidão em fúria profanava os cadáveres de Mussolini e da sua amante. Longe dali, num campo de internamento em Atlanta, Estados Unidos, os prisioneiros italianos baptizaram a ração de carne de porco que lhes davam com um nome singular, "pés de Mussolini".

Enterraram-nos num local não identificado da secção 16 do cemitério de Musocco, Milão, mas tratava-se de um segredo de Polichinelo, e todos sabiam onde ficava a sepultura de Benito Mussolini. Não muito depois, um grupo de antifascistas fez lá uma festa animada, com gracejos e música de acordeão. Na ocasião, uma mulher abriu as pernas e, para aplauso de todos, urinou em cima das campas. Também não foi difícil a Domenico Leccisi, jovem fascista e futuro deputado à Câmara, localizar a sepultura do seu amado líder. Na noite de 23 de Abril de 1946, enquanto as autoridades e as polícias de Milão estavam ocupadas com um motim na prisão de San Vittore, Domenico e dois cúmplices iludiram facilmente a vigilância dos dois guardas sonolentos, abriram a campa, retiraram o cadáver, levaram-no pela porta principal do cemitério, com a solenidade própria de um cortejo fúnebre (na operação, porém, perderam-se os dedos das mãos do ditador, e Leccisi levou um pedaço das suas calças como recordação). Depois, emitiram um comunicado triunfante, a reclamar a proeza em nome de uma força política com um nome paradoxal, o Partido Democrático Fascista. Os comunistas, irados, não perderam a oportunidade de malhar na direita e um editorial do L'Unità relacionou o desaparecimento do cadáver de Mussolini com as negociações de paz que, naquele tempo, o democrata-cristão De Gasperi empreendia em Paris. Leccisi acabou por ser capturado sem grandes dificuldades, mas o corpo de Mussolini, uma vez mais, levara sumiço. Com a cumplicidade de um grupo de senhoras da alta sociedade milanesa, dois sacerdotes de simpatias fascistas transportaram-no para Certosa de Pavia, um famoso mosteiro do século XV situado nas imediações de Pavia. Interrogado pela polícia, o padre Piero Parini acedeu a revelar a localização do cadáver com a condição de os restos mortais do Duce repousarem em paz, em solo cristão (ao tempo, correu o conveniente boato segundo o qual, nos últimos instantes de vida, Mussolini se convertera ao catolicismo). E assim foi: o corpo, a que já faltavam uma perna e os dedos das mãos, permaneceu quase dez anos na capela de um mosteiro capuchinho em Cerro Maiore, a vinte quilómetros de Milão. Em 1957, e graças a um acordo entre o recém-eleito primeiro-ministro Adone Zoli e Ildefonso Schuster, o arcebispo de Milão, o cadáver de Benito Mussolini, descrito como "um amontoado de ossos a cair aos bocados", foi trasladado para Predappio, a terra natal do ditador. Tratou-se de uma decisão política: Zoli não quis praticar um gesto piedoso mas conquistar o apoio parlamentar dos neofascistas, entre os quais Domenico Leccisi, que agora se sentava na Câmara dos Deputados, lado a lado com o comunista Audisio. Para esse efeito, Zoli, primeiro-ministro de Itália, chegou a deslocar-se a Predappio, onde se avistou com Rachele Mussolini, a viúva do ditador, que chegara a participar em sessões de espiritismo para conversar com o marido e saber onde parava o seu corpo.

A 31 de Agosto de 1957, o cadáver de Mussolini foi finalmente levado para o cemitério de San Casciano, em Predappio, e depositado no sarcófago onde ainda hoje se encontra, rodeado de símbolos fascistas. Na cerimónia de trasladação, um mar de gente acompanhou a viúva, fazendo a saudação romana e dando vivas ao ditador. Os veteranos da Resistência e outros antifascistas apedrejaram os autocarros que se dirigiram a Predappio, agora convertido num local de romaria para os saudosos do Duce, e o ministro do Interior chegou a pedir ao seu colega dos Transportes que proibisse as companhias rodoviárias de organizar excursões e viagens a preços especiais até ao túmulo de Mussolini. Desde então, e variando naturalmente consoante as épocas (nos anos 1960, por exemplo, houve um declínio abrupto), Predappio tem atraído milhares de visitantes, a maioria dos quais de simpatias fascistas ou de extrema-direita, que se curvam respeitosamente perante o sarcófago do seu herói e compram centenas de objectos kitsch nas lojas de souvenirs.

Num brilhante ensaio sobre o corpo de Benito (Il Corpo del Duce. Un Cadavere tra Immaginazione, Storia e Memoria, 1998), o historiador Sergio Luzzatto faz a pergunta crucial, mas irrespondível: o povo que profanou e pontapeou o cadáver de Mussolini seria o mesmo que, pouco antes, o aclamara como salvador de Itália? Os corpos dos ditadores têm muitas vezes um destino cruel, e nem todos são sepultados com honras de Estado, como há dias sucedeu inacreditavelmente com Robert Mugabe. O cadáver de Khadafi, por exemplo, foi profanado com requintes de barbárie, chegaram a empalar-lhe o ânus, como se fosse necessário exorcizar - e escamotear - a vassalagem que antes lhe prestaram, durante anos de subserviência ao "Rei dos Reis", ao "Irmão Líder e Chefe da Revolução". Mussolini, um chefe que ousava exibir-se em tronco nu e adorava expor a sua forma viril, que se fazia fotografar, como Vladimir Putin, nas mais variadas poses e vestes (aviador, cavaleiro, marinheiro, etc.), um homem que se orgulhava de "viver perigosamente", morreu também perigosamente, e só muitos anos volvidos teve descanso eterno, ou nem isso. À retórica fascista do "viver perigosamente" Salazar opôs o mais pacato e lusitano "viver habitualmente", e, como todos nós, teve o péssimo hábito de morrer em vida, crê-se que sem sobressaltos. Vem isto a propósito da intenção de fazer um museu com o seu nome na sua terra natal. Fazer um museu a alguém na sua antiga casa constitui geralmente um acto de homenagem, pelo que se compreende a reacção instintiva de indignação e ultraje perante essa iniciativa da Câmara Municipal de Santa Comba Dão. Mas não é forçoso que assim seja. O que será, bem ou mal, o museu de Salazar dependerá muito do que nele se mostrar, e da forma como for mostrado. Uma coisa é certa: de pouco adianta darem-lhe o nome comprido "centro interpretativo do Estado Novo", pois, para todos efeitos, o local está e será sempre crismado como "museu Salazar", o que, em si mesmo, não é grave. Dificilmente ele será ponto de atracção para muita gente estrangeira, e talvez aí a autarquia de Santa Comba esteja enganada nos seus cálculos turísticos. À excepção de alguns idiotas de extrema-direita, que se não estivessem ali estariam a chatear o Camões no largo com o seu nome, não parece ser muito credível o risco de Santa Comba se tornar na Predappio portuguesa. E, com bom senso e bom gosto, um museu pode ser uma forma interessante - e pedagógica - de mostrar aos alunos das escolas e aos muitos ignorantes ou esquecidos o que foi o Estado Novo e o seu ditador supremo. Tudo depende, portanto, do que no museu se mostrar, e à partida não devemos ter motivos para questionar a sensatez da edilidade santa-combense, que conta com a assessoria de um centro académico reputado e de historiadores respeitados, insuspeitos de salazarismo. Que o nosso parlamento, ao reprovar o projecto, tenha manifestado tão grave desconfiança perante as credenciais democráticas do poder autárquico - uma das maiores conquistas do 25 de Abril - isso, sim, é que nos deve preocupar. Pelos vistos, Salazar está mais vivo do que parece - e mora nas cabeças de quem menos suspeitávamos.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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