Notas do Japão (IV)

Aquilo que mais impressiona no Japão é o silêncio. O silêncio das pessoas nas ruas, das pessoas nos metros, das pessoas nos museus, das pessoas nos prédios. O silêncio das ruas, dos carros, dos automóveis. E é aquilo que mais impressiona porque foi aquilo de que ninguém me avisou. Aliás, o Japão do vais adorar aquilo, é mesmo a tua cara, cidades gigantes, restaurantes, uma confusão brutal, milhões de pessoas. E disto, do que se lê, do que se sabe e se conhece, vai-se ouvindo barulho, o barulho, a campânula sonora ruidosa de cada imagem. Mas chega-se lá e a imagem bate certo, mas o som bate errado. As pessoas não falam, ou falam baixo, os carros deslizam (será do alcatrão, dos motores, de ambos?), pouca música ambiente (algum jazz bem escolhido).

Menos na Bershka, onde estivemos, claro, horas. E como aqui escrito, para não haver dúvidas de que o pai é que sabe, não era só ver, e a roupa só havia aqui, e mesmo que não seja só aqui, também nunca temos tempo de ir a lado nenhum. Ainda pensei que fosse a admissão de que era bom estarem ali numa loja comigo, mas não, era mesmo elas não terem tempo de ir a lado nenhum, porque estudam muito, coitadas, e o horário da escola, coitadas, e nunca temos fins de semana, coitadas, e o dentista, coitadas.

Lá fechámos o ciclo de templos, museus e ramen, e uma missa, na Igreja de Santo Anselmo, no bairro de Meguro. Um projeto modernista de Antonin Raymond, arquiteto checo-americano (tinha sido cônsul em Tóquio), uma linda igreja, concreto concreto, uma comunidade falante de inglês, sobretudo filipinos. Falante, orante, aqui o silêncio não imperava. Como não imperava nas izakayas, tabernas japonesas onde tudo fala alto, ou pelo menos mais alto do que o baixo das ruas.

A cristandade costuma trazer-nos a casa, mais ainda quando estamos longe dela. É assim Nagasaki, uma inesperada boa cidade, para a lista das preferidas, a luz, as pessoas, o cheiro a casa. Quem já estava mais por casa é a protagonista de Insects, de Yuichi Seirai, já com 75 anos, só, católica, mutilada pela bomba na pele e numa perna. E como se interroga sobre a vida, sobre os insetos que terão ido na Arca de Noé e de que ninguém fala. Sobre o perdão possível de ter sobrevivido à bomba ela e não os outros, os pais e os irmãos. Foi sorte ou graça? E também sobre o perdão possível, ou será a vingança inevitável, de confessar à viúva do amor da sua vida aquela paixão de uma vida e de um caso, um caso apenas, na casa dela, tantos anos antes. Yuichi Seirai é o pseudónimo de Akitoshi Nakamura, atual diretor do Museu da Bomba Atómica de Nagasaki, e trata disto tudo em Ground Zero, Nagasaki: Stories, editado em 2015 pela Columbia University Press. Disto tudo e de insetos, de insetos que quebram o silêncio e que nos lembram do pouco que somos, mesmo com o poder infinito do pecado e da virtude, mesmo com a sorte infinita da graça.

Advogado

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