Lisboa de portas abertas. Do luxo do Braço de Prata à Pantera Cor-de-Rosa de Marvila

A 7.ª edição do Open House Lisboa abre as portas de 84 espaços da cidade, mas criou também percursos pelos principais bairros. Acontece neste fim de semana, nos dias 22 e 23 de setembro.

Do corredor do 6.º andar para a passagem que dá acesso ao pátio entre os edifícios do Pantera Cor-de-Rosa, uma moradora cumprimenta Marta Cardoso e Sara Vaz, da Associação Tempo de Mudar, que se abrigam do calor sob a pala do edifício para falar sobre um dos mais emblemáticos conjuntos de Chelas. A residente é uma das pessoas que aceitou mostrar por dentro estes apartamentos. E este é um dos 38 novos espaços que a Open House abre ao público neste fim de semana, nos dias 22 e 23 de setembro. Ao todo são 84, do início do século XX aos dias de hoje.

É a sétima vez que a Trienal de Arquitetura traz o evento a Lisboa, uma das 42 por todo o mundo onde se tem realizado. Há um ano, 44 mil pessoas passaram pelos edifícios escolhidos, disse José Mateus, presidente da Trienal de Arquitetura, a associação que organiza o evento em Lisboa, durante a apresentação no Espaço Ulisseia, um armazém que está a ser convertido em alojamento local pelo Atelier JQTS (João Quintela e Tim Simon).

O aperitivo do que será esta edição do Open House foi servido neste bairro a que sempre se associa agora a palavra mudança. Os curadores são Luís Santiago Baptista e Maria Rita Pais. O que pensaram para esta edição resume-se numa pergunta. "O que é habitar uma Lisboa em transformação?" Uma cidade "estruturada em torno de edifícios específicos", diz Santiago Baptista.

"Selecionámos nove áreas com características próprias", diz o curador. Não só Marvila, mas também o Parque das Nações ou o Restelo... "O conjunto dos espaços procura dar uma leitura de conjunto dessa área." Acrescenta Maria Rita Pais: como se fôssemos médicos e tirássemos um raio-x da cidade. Dito de outra forma, olhar as problemáticas de hoje que herdámos das infraestruturas do período moderno. Como a Cidade Universitária ou o Hospital Júlio de Matos.

"Aqui havia ovelhas"

Na paisagem de Chelas, o Pantera Cor-de-Rosa, da autoria de Gonçalo Byrne e de António Reis Cabrita, impõe-se. Pela cor e pela dimensão. É uma "megaestrutura", como lhe chama Santiago Baptista, de 382 apartamentos, inaugurada em 1971.

Os últimos anos têm trazido muitos arquitetos e estudantes da disciplina a esta zona. Lê-se nele o espírito da época. É uma estrutura italiana, inspirada em Aldo Rossi, mas Marta Cardoso, que conheceu este lugar há 35 anos, pede outro olhar: para a história deste lugar, onde não existiam arruamentos até há pouco mais de uma década. Nem passeios ou saneamento. "Não foi possível acompanhar a construção do edifício da construção do espaço público. Mesmo em termos de mobilidade, não era prático", refere. "Aqui havia ovelhas", diz. E ainda hoje "há um largo que continua sem nome".

Lisboa de portas abertas. Do luxo do Braço de Prata à Pantera cor de rosa de Marvila

Ao contrário do tempo em que a associação de que faz parte parte foi fundada, hoje há menos mobilização, apesar dos sinais de degradação - na pintura, no mobiliário urbano. "A Câmara de Lisboa devia ter outro cuidado", considera Marta Cardoso.

Quando começou a ser habitado, "muitas pessoas não estavam preparadas para viver em prédios. Para elas, era horrível viver num 6.º andar", explica Marta Cardoso, na visita de imprensa. Algumas casas foram entregues em tijolo e cimento e "foram as próprias pessoas que as terminaram". As alterações ao projeto de Byrne e de Reis Cabrita são evidentes. Janelas de diferentes tamanhos, grades, portas onde devia existir corredores... "Criou-se a ideia de que isto foi construído para ser um hospital, logo as pessoas acham que nem foi pensado para ser habitação."

"Para estas pessoas, não existe a valorização da obra arquitetónica, ao contrário do que acontece com os apartamento do Braço de Prata", refere Marta Cardoso.

O extremo oposto: Dois milhões por um T6 e o trânsito alterado

Antes do Pantera Cor-de-Rosa, o ponto de paragem tinha sido o condomínio de luxo que está a nascer no que foi a fábrica de material de guerra do Braço de Prata, do arquiteto Renzo Piano, autor do Centro Pompidou, em Paris, entre outros edifícios. Para já, só estão de pé dois edifícios dos 12 que estão previstos (e loteados). E o trânsito já foi mudado. Em frente ao rio só podem circular peões e bicicletas. E a Praça 25 de Abril, a rotunda com a escultura de José de Guimarães, é agora um jardim.

Para o Open House, estarão abertos dois apartamentos. "A ideia é que todos tenham visibilidade para o rio", diz a responsável da CPU, o gabinete que em Portugal acompanha a obra.

A biblioteca que é mais do que isso

Entre os 38 espaços novos, e para lá dos apartamentos de Renzo Piano ou do Pantera Cor-de-Rosa, estão as torres dos Olivais, uma casa unifamiliar no Restelo, os bairros do Prodac ou o bairro das Fonsecas e Calçada do projeto SAAL de Raul Hestnes Ferreira.

"É também uma forma de homenagem", diz Luís Santiago Baptista sobre o arquiteto, falecido em fevereiro deste ano. Estamos numa sala ampla da biblioteca de Marvila e o curador explica o que é evidente para quem percorre os corredores: esta biblioteca é mais do que isso, como diz o seu diretor, Paulo José da Silva. Tem uma cozinha comunitária, recebe companhias de teatro...

O arquiteto, filho de José Gomes Ferreira, tomou uma ideia do pai para ele no desenho deste projeto: fazer aqui a Casa do Escritor. Na verdade, o edifício são dois. Um corpo novo e um mais antigo, uma ruína na Quinta das Fontes, onde, nesta sala grande, se reúne o coro infantil da freguesia, onde estão a escrivaninha e a pianola que pertenceu ao escritor. Para chegar ao novo edifício é preciso passar por aquele espaço que domina as atenções: o antigo lagar de azeite, de onde tudo parte.

Percursos pela cidade

É uma novidade de 2018: percursos urbanos por bairros da cidade orientados por especialistas "com as suas escolhas, que podem ser diferentes das nossas", segundo Luís Santiago Baptista.

- Cidade Universitária, por Paulo Tormenta Pinto. Domingo, às 10.00, começando na Reitoria da Universidade de Lisboa.

- Restelo, por Patrícia Bento d'Almeida. Sábado, às 10.00, junto à Embaixada da Noruega.

- Olivais, por Tiago Oliveira, no domingo, às 15.00

- Baixa-Chiado, com Ricardo Carvalho, às 16.00, no Museu do Dinheiro.

- Santos, Príncipe Real e Campo de Ourique, no domingo, às 10.30, com Ana Vaz Milheiro. Ponto de encontro, Imprensa Nacional.

- Avenidas Novas, com José Manuel Fernandes, a partir da Casa da Moeda. Sábado, às 11.30.

- Parque das Nações, orientado por Michel Toussaint, domingo, às 12.00, no Pavilhão do Conhecimento.

- Marvila, por Tiago Mota Saraiva. Sábado, às 14.00, incluindo uma visita aos bairros do Prodac.

O percurso pelo Intendente, que devia ser conduzido pela arquiteta Inês Lobo, foi cancelado "por motivos de força maior", segundo o Open House Lisboa.

O que é a Open House?

Ao mesmo tempo que acontece em Lisboa, a Open House decorre também em Londres, a cidade onde tudo começou em 1992. Hoje, passa por 42 cidades. No Porto, para falar de Portugal; e, para falar só das mais recentes entradas, Basileia, Rosário (Argentina), Cidade do México e Macau. Tallinn, Valência e Nápoles incorporam-se em 2019.

O que também está diferente nesta edição é o site Open House (onde se pode encontrar toda a programação), frisou o presidente da Trienal de Arquitetura. A pensar em que usa smartphone e como guia para quem queira descobrir a cidade de Lisboa nos seus edifícios, "com várias camadas históricas sobre a cidade". "Um arquivo fundamental que estamos a construir sobre Lisboa", diz José Mateus.

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