As muitas ilhas de Helena

O título é emprestado de uma entrevista que deu a Ana Marques Gastão, no Diário de Notícias, em 1994, dois anos depois de ter deixado o jornal onde trabalhou durante 15 anos e de que foi a primeira mulher subchefe de redação e depois diretora adjunta e ter zarpado para a aventura da escrita literária. Helena Marques morreu nesta segunda-feira, aos 85 anos, mas as suas palavras não.

Não nasceu na Madeira, ilha dos seus pais, mas foi lá que viveu os primeiros 36 anos de vida, se fez jornalista, casou-se com o também jornalista Rui Camacho e teve quatro filhos [Paulo, Pedro, Francisco e Joana. Os rapazes tornar-se-iam também jornalistas].

Em 1971, rumou a Lisboa com o marido e os filhos. A participação de ambos na campanha da oposição nas eleições de 1969 precipitou uma saída que talvez fosse inevitável.

"Não aguentei viver na Madeira, mas nunca me libertei dela", disse Helena Marques numa entrevista ao Diário de Notícias. Os seus livros, sobretudo o primeiro, Último Cais, publicado em 1992 e logo aclamado, são testemunho disso.

Aos 56 anos, a primeira mulher jornalista da Madeira - começou em 1956 no Diário de Notícias do Funchal - reformou-se do jornalismo e entregou-se à literatura. O romance de estreia valeu-lhe o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Revista Ler/Círculo de Leitores, o Prémio Máxima de Revelação, o Prémio Procópio de Literatura e o Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, distinções que a honraram e elevaram a fasquia, mas não a bloquearam, até porque como disse em várias entrevistas não dava muita importância à crítica. Queria era chegar a todas as pessoas e saber que era lida.

Foi. Os romances Deusa Sentada (1994), Terceiras Pessoas (1998), Os Íbis Vermelhos da Guiana (2002) e O Bazar Alemão (2010) e o livro de contos Ilhas Contadas (2007) foram as obras que se seguiram a Último Cais.

"A serenidade é uma maravilha que se ganha com a idade, assim como uma certa indiferença [às reações negativas]", disse a Maria Teresa Horta, no Diário de Notícias, algum tempo depois de ter confessado ao Público a sensação estranha de começar uma carreira aos 56 anos. "Sinto que passei uma prova, numa altura em que tinha decidido reformar-me."

Para trás ficavam 36 anos de jornalismo. Quando chegou ao continente, foi trabalhar para A Capital, a que se seguiu o jornal República, nos anos conturbados do PREC, e A Luta, que fundou com mais uma vintena de jornalistas.

Em 1978, entraria para o Diário de Notícias, onde se tornou a primeira mulher subchefe de redação e depois diretora adjunta, com Mário Bettencourt Resendes, também como diretor adjunto, e Dinis de Abreu como diretor. Madeira, Açores e Portugal continental na direção de um jornal.

Dinis de Abreu destaca a sua sensibilidade nos momentos de maior turbulência e lembra um episódio invulgar: "um dia o então presidente do conselho de administração decidiu demitir a direção do jornal pela sua intransigência relativamente à interferência daquela nos conteúdos editoriais. Essa demissão provocou um inesperado impacto mediático e o desfecho foi inédito: o presidente do conselho de administração foi demitido pela tutela - na altura o DN estava estatizado - e o novo presidente nomeado reconduziu-me como diretor. Fiz questão que a Helena Marques me acompanhasse nesse novo fôlego e não me arrependi. Pela sua imensa generosidade, competência e lealdade. Presto-lhe essa homenagem".

"Tínhamos uma relação forte de equipa", disse Helena Marques, sobre Dinis de Abreu e Mário Bettencourt Resendes, numa entrevista, em que confessou que fazer parte da direção do DN ajudou-a a encontrar o tempo e o desejo de se fazer escritora.

No processo, teve de se libertar da escrita jornalística, que para Helena Marques era rigor e ausência de floreados e adjetivação, e encontrar a sua voz literária, que precisava de tempo, silêncio e dedicação exclusiva. Foi, no entanto, o jornalismo, reconhecia, que a ensinou a "olhar, a não ter preconceitos e a tentar entender os outros".

Feminista, insubmissa, intransigente com injustiças e preconceitos, nunca cedeu a pressões no jornalismo - "como nunca tive excessivo apego aos lugares onde estive, não me foi difícil lutar" - valorizava acima de tudo a liberdade e os afetos.

Mulher e mãe e avó e bisavó feliz, concedeu reconhecer-se em algumas das suas personagens. "Serei transgressora como Tess, uma mulher de sentimentos como Laura, inquieta como Matilde e otimista e com a vocação da felicidade como Raquel."

Alice Vieira recorda-a como "a melhor diretora" que teve. "Tinha muita confiança em nós. Propunhamos-lhe um trabalho e ela aceitava logo. Estava sempre disponível, sempre ali para nós e sempre bem disposta", diz, lembrando o dia em que ambas assistiram à chegada de um fax à redação. "Nem imaginas o nosso ar de felicidade".

"E era uma grande escritora, uma grande escritora".

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