O valente demente

Bolsonaro declarou guerra aos Estados Unidos. Os americanos fizeram as contas e concluíram que ela levaria cinco segundos, talvez menos.

Não sei se sabem, mas há duas semanas o Brasil declarou guerra aos Estados Unidos. E, se não sabem, isso não constitui desdouro, porque nós, brasileiros, também só ficámos sabendo pela televisão.

Na verdade, foi só uma declaração individual de guerra por nosso demente presidente Jair Bolsonaro. Inconformado com a vitória de Joe Biden sobre seu herói e fixação sexual Donald Trump nas eleições à presidência do país até então amigo, ele ressuscitou uma frase de Biden sobre a Amazónia para mostrar que, com ele, Bolsonaro, os americanos que pensassem duas vezes antes de vir se meter nos nossos negócios.

Biden dissera que, se o Brasil não parasse de incendiar a Amazónia, sofreria sanções económicas. Bolsonaro esbravejou que ameaças verbais como aquela eram simples gasto de saliva - o que ele queria ver era a pólvora.

Ao ouvir isto pelo noticiário, nós, paisanos, perfilamo-nos imediatamente, batemos os calcanhares e nos preparamos para marchar assim que viesse a convocação. Como desde a Segunda Guerra, há 80 anos o Brasil não vive um conflito internacional, nossos arcabuzes, bestas e mosquetões devem estar meio enferrujados, mas o que se há de fazer se a pátria exige? Veja os nossos próprios generais. Apesar de desfilarem nas datas cívicas com o peito ornado de fitas e chapinhas, nenhum deles comandou nada mais importante que uma mesa. E, se eles estavam dispostos a ir para a frente de batalha - afinal, seu comandante supremo Jair Bolsonaro assim ordenara -, o que nos restava fazer senão encher nossos cantis e segui-los?

Bolsonaro é assim mesmo, impulsivo. Diz as coisas mais absurdas sabendo que, no Brasil, nada tem consequência. Nossos amigos portugueses, que têm mais a fazer do que acompanhar a comédia brasileira, ignoram que não se passa um dia em que Bolsonaro não agrida a gramática, o bom senso, as instituições, a educação, a cultura, a saúde, os direitos humanos e a própria vida. E, por incrível que pareça, isso não é tudo - sua principal vítima é a verdade. Bolsonaro está promovendo a mentira à condição de arte, e essa declaração de guerra foi das mais elaboradas.

Para não se dizer que o brasileiro aceita tibiamente tudo que ele ejacula pela boca, saiba-se que, até a última contagem, havia 51 pedidos de abertura do processo de impeachment apresentados contra Bolsonaro por parlamentares e instituições junto à Câmara dos Representantes. É o órgão competente para receber tais pedidos e, para que tenham andamento, basta que o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, aceite um único deles. Mas Rodrigo Maia prefere mantê-los adormecidos na gaveta, como se não existissem.

Alguns observadores acreditam que, com sua tendência à obesidade, Maia está sentado sobre os pedidos e sua conformação glútea não lhe permite levantar-se para despachá-los. E, com isso, ficamos na dependência de o chefe de um dos poderes nacionais fazer uma dieta para que o país saia dessa situação em que se atolou. Mas se o Brasil não leva a sério as cafajestices de Bolsonaro, os Estados Unidos levam. Assim que ouviram a declaração de que, esgotada a saliva, chegaria a hora da pólvora, o Ministério da Defesa americano, o Pentágono e o próprio presidente eleito, Joe Biden, resolveram investigar o potencial bélico brasileiro, para sentir o poderio do inimigo que teriam pela frente comparado com o seu próprio. E o que apuraram foi o seguinte - são números oficiais, não ria.

O orçamento militar americano é de 750 bilhões de dólares; o do Brasil, de 27 bilhões. Eles contam com 1,4 milhões de militares no ativo; nós, com 334 mil (a maioria, sofrendo de pés chatos). Em matéria de tanques, eles dispõem de 5884; nós, de 469. Com os blindados, a mesma coisa: 38.822 para eles, 1707 para nós. Lançadores de foguetes: 1197 contra 180. Aviões de ataque: 2830 contra 125.

E, para que não se diga que, com essa diferença, o combate aéreo seria uma covardia, suponhamos que fosse uma guerra só de helicópteros - os Estados Unidos têm 973 helicópteros de ataque; o Brasil, 12. E helicópteros em geral? Os Estados Unidos, 5758, e o Brasil, meros 255, quase todos ocupados conduzindo milionários que não gostam de perder tempo no trânsito das nossas grandes cidades. Se a guerra fosse no fundo do mar, o resultado contra nós seria pior ainda: eles têm 66 submarinos e nós, cinco, alguns fazendo água.

O pior, no entanto, não é debaixo de água, mas na superfície, mesmo. Os Estados Unidos têm 20 porta-aviões, o Brasil zero. Eles têm 91 destroyers; nós, também zero. E, se isso não for suficiente, os Estados Unidos têm 6800 armas nucleares; o Brasil, igualmente zero. Daí, Biden concluiu que uma guerra entre os Estados Unidos e o Brasil duraria 30 segundos, talvez menos - a seu favor. Era melhor o Brasil não se meter a valente.

Mas Bolsonaro tem suas razões para se meter a valente. Antes de ser o pior presidente dos 131 anos da República brasileira, ele passou 30 anos como um deputado de quem nunca se ouviu um pio na Câmara dos Representantes, exceto para engordar seu património imobiliário e o de sua família. E, antes disso, Bolsonaro teve uma medíocre carreira militar, da qual foi exonerado a bem do serviço como tenente e, ao devolver a farda, promovido burocraticamente a capitão.

Ou seja, embora se diga ex-capitão, não foi capitão nem por um minuto. E como no ativo deve ter levado inúmeros carões por alguma corneta que tocou errado ou cavalo que deixou de lavar, vinga-se dos atuais generais nomeando-os ministros e, em seguida, desautorizando-os, demitindo-os, humilhando-os, reduzindo-os a recrutas e obrigando-os a engolir as ofensas que ele lhes dispara.

Os analistas já estão atentos a isso. Temos na presidência um cabeça-de-papel que declara guerras e dá ordens de marcha-soldado a homens que trocaram o mandar por obedecer - e logo a quem.

Jornalista e escritor brasileiro

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