Biden, o unificador

Ouvi o discurso unificador de Biden e pensei no nome do país que preside desde ontem: Estados Unidos... da América. Um nome que é em si uma proclamação, que precedeu em alguns meses a Declaração de Independência de 4 de julho de 1776 e foi oficializado nesse mesmo ano, ainda a luta das 13 colónias contra a Coroa Britânica era de sucesso incerto. Uma luta que juntava rebeldes de sociedades que, tirando o colonizador (e alguma proximidade geográfica), pouco tinham em comum. Olhemos para Massachusetts e Virgínia, por exemplo, o primeiro virado para o comércio atlântico, o segundo baseado na economia de plantação; o primeiro abolicionista precoce, no século XVIII, o segundo férreo esclavagista, com Richmond a servir de capital à Confederação na Guerra Civil.

Washington, o primeiro presidente, era um virginiano, e só libertou os seus escravos no momento da morte, via testamento. Já Adams, o seu vice, era do Massachusetts e orgulhava-se de nunca ter sido dono de ninguém. E, no entanto, Washington e Adams trabalharam para consolidar a primeira república moderna. Fizeram compromissos em nome dessa União que foi salva pela determinação de Lincoln quando a Confederação a pôs em causa.

Os Estados Unidos, US ou United States como se diz em inglês, passaram nestes quase 250 anos de 13 para 50, e se Massachusetts e Virgínia continuam diferentes, imaginam o que separa Maine e Florida, Nova Iorque e Texas ou, falando dos dois mais recentes, Alasca e Havai? Não se trata só de geografia, mas também de cultura. Quem já viu Fargo, passado no Minnesota, poderia pensar que foi filmado na Escandinávia, pela neve e pelos apelidos das personagens; Nova Iorque tem mais judeus do que Telavive ou Jerusalém, metade dos habitantes do Novo México são hispânicos e em San Diego há um bairro português, onde vivem os filhos e netos dos atuneiros. Posso testemunhar, sobre estes últimos, que mesmo aqueles que vestem a camisola 7 da seleção portuguesa de futebol se emocionam a ouvir o Star-Spangled Banner e agradecem viver na terra das oportunidades. Não são caso único.

Descendente de irlandeses, segundo presidente católico dos Estados Unidos, Biden conhece bem a pluralidade que constitui a América. Oriundo de uma família operária da Pensilvânia, conhece também as desigualdades que marcam o país e o fazem mais injusto do que a Europa ou o vizinho Canadá. Tendo sido vice de Barack Obama, o primeiro negro presidente, e tendo como vice Kamala Harris, filha de jamaicano e indiana, conhece igualmente as tensões raciais. E, apesar de septuagenário, tem netos entre os 7 meses e os 26 anos, o que o obriga a conhecer os anseios dos jovens, que tendem - e isto antes ainda da era Trump - a duvidar que o sonho americano existe.

A vida, de sucesso mas trágica, e a carreira, recheada de cargos, preparou Biden para esta dura missão de tentar unir os americanos. Esperemos que o consiga: há muito que nos habituámos a olhar para os Estados Unidos como modelo. Se eles conseguirem ser bem-sucedidos como sociedade, apesar de tantas divisões, o que nos servirá de desculpa se não conseguirmos também?

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