Arrefecimento da economia mundial ameaça 30 mil milhões em exportações portuguesas

Travagem das economias dos nossos principais parceiros comerciais, prevista pelo FMI, ameaça 30 mil milhões de exportações portuguesas e outro tanto em investimentos: Espanha compra mais de 20% das exportações portuguesas e a Alemanha fica com 11%. Espanhóis têm cá investidos mais de 25 mil milhões de euros e os alemães cinco mil milhões.

A zona euro deverá crescer apenas 1,3% neste ano, menos uma décima do que esperava em outubro último, arrastada pelos desempenhos mais pobres de Espanha e Alemanha, revelou nesta segunda-feira o Fundo Monetário Internacional (FMI), nas suas projeções intercalares para as principais economias do mundo.

Portugal não é observado nesta atualização, mas os sinais parecem ser bastante desfavoráveis, uma vez que a economia portuguesa depende muito das exportações e do investimento estrangeiro para se manter à tona.

Espanha e Alemanha são as duas únicas grandes economias da zona euro cujo crescimento acabou por ser cortado nesta edição do Outlook intercalar.

Problema: Portugal exporta, por ano, mais de 18 mil milhões de euros em bens e serviços para Espanha (20,4% do total).

E a Alemanha compra a Portugal mais de 10 mil milhões de euros (11% do total de exportações). Os dados de base são da AICEP; os cálculos do DN/Dinheiro Vivo.

Juntos, estes dois mercados absorvem quase dois terços das exportações nacionais, só para se ter uma ideia da escala e do grau de exposição. No investimento direto estrangeiro a situação é parecida.

As ligações não se ficam pelo comércio. Espanha é só o maior investidor direto estrangeiro (IDE) na economia portuguesa, com uma posição (stock) avaliada em mais de 25 mil milhões de euros em capital e outros ativos, segundo os dados oficiais da AICEP e do Banco de Portugal.

A Alemanha é responsável por quase cinco mil milhões de euros em termos de IDE.

Em outubro, a instituição, agora liderada pela búlgara Kristalina Georgieva, previa que Portugal crescesse 1,6% em 2020. Este valor fica bem abaixo dos 1,9% em que Mário Centeno, ministro das Finanças, baseou a proposta de Orçamento do Estado para este ano.

Como vai o resto do mundo

A economia dos Estados Unidos também foi afetada, devendo avançar apenas 1,7% em 2020.

A par disso, a economia mundial soma mais 3,3% neste ano, menos uma décima face há três meses, "sobretudo por causa da Índia", que levou um corte de 1,2 pontos percentuais na taxa de crescimento. A economia indiana avança ainda assim 6,5%.

O ritmo da economia chinesa foi revisto em alta (mais duas décimas, para 5,8% em 2020), "reflexo do acordo comercial assinado com os EUA" na semana passada, mas isso não chega para contrariar o desaire geral.

Como referido, segundo o FMI, a zona euro não deve crescer mais do que 1,3% neste ano (1,4% no próximo), um dos ritmos mais fracos desde a grande crise, estando a economia do euro a ser travada pela Alemanha, que cresce uns modestos 1,1% em 2020.

Espanha, o maior parceiro da economia portuguesa (em exportações, investimentos, etc.) e quarto maior mercado da zona euro, deverá crescer 1,6%, mantendo esse ritmo no ano que vem. O corte em 2020 foi de duas décimas face a outubro.

O crescimento da segunda maior economia da área do euro, França, não vai além de 1,3%. Itália, o terceiro maior mercado do euro, mantém-se quase estagnada, devendo crescer uns magros 0,5%, diz o Fundo.

Menos pressão com acordo EUA-China e Brexit ordenado

Gita Gopinath, a economista chefe do FMI, diz que "no World Economic Outlook de outubro referimos que a economia global estava em desaceleração sincronizada, com riscos negativos crescentes que poderiam prejudicar ainda mais o crescimento. Desde então, alguns riscos retrocederam parcialmente com o anúncio da primeira fase de um acordo comercial EUA-China e com a menor probabilidade de um Brexit sem acordo".

Por exemplo, o FMI espera que "um acordo entre EUA e China Fase I, se for duradouro, reduza o impacto negativo acumulado das tensões comerciais no PIB global até o final de 2020 - de 0,8% a 0,5%.

Para Gopinath, a política monetária (taxas de juro muito baixas do BCE, da Fed e de outros grandes bancos centrais do mundo) "continuou a apoiar o crescimento e as condições financeiras dinâmicas". Sem os estímulos dos bancos centrais, as previsões para o PIB mundial ficariam 0,5 pontos percentuais abaixo do nível atual.

Devido a isto, "existem agora sinais preliminares de que o crescimento global pode estar a estabilizar, embora em níveis moderados".

"Nesta atualização do World Economic Outlook, projetamos que o crescimento global aumente modestamente de 2,9% em 2019 para 3,3% em 2020 e 3,4% em 2021. A ligeira revisão para baixo é de 0,1 pontos percentuais em 2019 e 2020 e de 0,2 pontos em 2021." Segundo a economista, isto acontece "sobretudo por causa das revisões em baixa da Índia".

Mesmo com esses sinais de estabilização, "a recuperação projetada para o crescimento global permanece incerta". A retoma das economias emergentes continua "sob stress e com fraco desempenho"; o crescimento nas economias avançadas está um pouco mais estável face a outubro.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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