Uma ceia de Natal diferente com comida caseira encomendada

Hipermercados e restaurantes têm estado a trabalhar para ajudar os portugueses a ter os pratos típicos da época à mesa desta consoada limitada pela covid-19. Os mais aventureiros podem ainda optar por ter aulas de culinária à distância e experimentar os seus talentos na cozinha.

Marcelo Rebelo de Sousa deixou o aviso: neste Natal "é preciso prevenir contágios familiares generalizados para evitar terceira vaga em janeiro". Ou seja, a tradicional ceia de Natal dos portugueses será com menos pessoas à mesa, e basta ouvir conversas no café ou desabafos nas redes sociais para perceber que muita gente neste ano não vai poder contar com aquela tia que habitualmente cozinha o bacalhau ou a avó que delicia todos com os seus doces. A solução para muitos será recorrer às ceias de Natal confecionadas por restaurantes ou hipermercados, que dizem estar preparados para esta época festiva atípica.

"O Natal é um momento de família, um momento de calor humano e que neste ano não vamos ter. E nós vamos ter um menu tão completo que certamente cada uma das pessoas em casa vai saber qual é o prato que o vai fazer recordar melhor os familiares que não vão estar presentes nesses dias e vai trazer-lhes essas memórias e esse conforto numa noite tão especial." Este é o sentimento de Gonçalo Costa, o chef executivo do Pingo Doce, onde as ceias de Natal começam a ser desenvolvidas logo em março. Na época de Natal de 2019 produziram à volta de 150 toneladas de comida nas duas cozinhas centrais do Pingo Doce, onde trabalham cerca de 250 pessoas. A região Norte destacou-se na procura.

Em ano de pandemia, a cadeia de supermercados adaptou-se à nova realidade de festejos em escala reduzida e ambiente de confinamento. "Temos neste ano um menu com formatos ligeiramente mais pequenos, para menos pessoas, temos vários pratos para três pessoas, temos acompanhamentos que no ano passado eram de 800 gramas a um quilo e que neste ano reduzimos para 600, por exemplo", explica João Freitas, diretor de Meal Solutions do Pingo Doce. "E demos um passo, em que nós acreditamos muito, que é a entrega da comida nas casas das pessoas", acrescenta o mesmo responsável. As encomendas podem ser feitas nas lojas, por telefone ou através do site do Pingo Doce.

Bacalhau com natas e arroz de pato são os dois grandes sucessos de vendas na cadeia de supermercados do Grupo Jerónimo Martins, incluindo nesta altura do ano, a que se juntam pratos tradicionais como o cabrito, o polvo e variedades de bacalhau. Neste ano, também há uma aposta nas refeições vegetarianas. "Eu gosto mais de inovação e tento também, em momentos em família, levar-lhes algo diferente. E nós temos o roti recheado com farinheira, temos um caril de tamboril com gambas, temos uma terrina de aves com geleia de vinho do Porto, uma tarte de pernil com frutos secos, legumes salteados com batata doce, feijão verde e amêndoa torrada. Temos muitas coisas e muitas opções para podermos surpreender em casa", desvenda o chef Gonçalo Costa.

As refeições vegetarianas são também uma das novidades na ementa de Natal preparada pelo Continente. E, tal como no Pingo Doce, as encomendas podem ser feitas nas lojas, via telefone ou online e levantadas nas lojas, no caso de terem sido feitas pelas duas primeiras vias, ou entregues em casa na Grande Lisboa e no Grande Porto se tiverem sido compradas através do site.

Os pratos com mais saída são os considerados tradicionais, como os de bacalhau, leitão ou peru. Entre as novidades deste ano estão iguarias como empada de caça, quiche de camarão, perna de borrego sem osso com batata assada e grelos salteados, bolo-rainha ou rabanadas. "O takeaway tem estado consecutivamente ao longo dos últimos anos a crescer a dois dígitos e este subsegmento não é indiferente a esse crescimento, tendo atingido em dezembro de 2019 cerca de mais 25% face à média dos restantes meses", explica Paulo Aleluia, category leader takeaway do Continente, adiantando ainda que preveem para este Natal "um incremento forte face a 2019, mas impossível de prever dadas as possíveis medidas de contingência".

No El Corte Inglés, as entregas ao domicílio já não são novidade e vão manter-se na campanha de refeições de Natal deste ano. Anualmente têm "várias centenas de encomendas de refeições para a consoada, o dia de Natal e a passagem de ano", e estão "confiantes de que as encomendas deste ano não serão muito diferentes das de anos anteriores".

Não fugindo à regra, nas duas lojas em Portugal da cadeia espanhola "os pratos intemporais e tradicionais são sempre os mais procurados, como o peru assado, com ou sem recheio, e o bacalhau assado". Neste ano, apostaram também em "pratos mais contemporâneos, como o lombo de salmão com molho cítrico e crosta de amêndoa, lombo Wellington, pato desossado recheado com alperce e frutos secos e ainda bolo-rainha de Nutella".

O bolo-rei de caramelo salgado com maçã é uma das novidades deste Natal da Auchan, que todos anos aposta em apresentar uma versão diferente desta iguaria. A ementa desta cadeia de hipermercados começa a ser pensada quatro a cinco meses antes, apesar de "não diferir muito de ano para ano", pois a grande vertente de negócio são as refeições pré-preparadas, que precisam apenas de 30 minutos no forno antes de seguirem para a mesa. "Em relação às refeições de Natal já prontas para comer vendemos cerca de 20 mil refeições. O nosso objetivo é continuar a crescer neste ano", explica Filipa Rebelo Pinto, diretora de Produto da Auchan.

Num Natal marcado pela covid-19 aqui também houve uma adaptação da oferta, já a pensar em consoadas com uma média de quatro pessoas à mesa. "Por exemplo, temos peru mais pequeno, temos mais partes de peru, seja recheado, seja simples... Temos uma oferta mais pequena, não só em termos de quantidade, como temos refeições novas. Desenvolvemos quatro pratos com o nosso chef e que estão praticamente prontos a comer. Estamos a falar do roti de peru, do roti de vitela, do bacalhau à lagareiro e do polvo também à lagareiro", prossegue a mesma responsável.

As encomendas podem ser feitas nas lojas e através do site da Auchan e levantadas na loja "ou pode ser no drive, pois temos pontos de recolha onde o cliente pode fazer o levantamento", explica Filipa Rebelo Pinto. A Auchan tem também um serviço de entregas em casa.

Para os que se querem aventurar na cozinha, a cadeia de hipermercados tem feito todos os sábados workshops em versão digital, por causa da covid-19, onde ensinam a confecionar vários pratos, incluindo iguarias desta época. "É uma forma diferente e mais conveniente de o cliente poder, à distância, preparar alguns pratos aos quais já não está tão habituado ou mesmo experimentar algumas abordagens diferentes", afirma a diretora de Produto da Auchan.

Para quem prefere ter à mesa de Natal as comidas dos seus restaurantes de eleição, empresas de entregas como a Glovo e o Uber Eats também delinearam uma estratégia para esta época especial.

O Uber Eats decidiu neste ano criar uma categoria "Especial Natal" com alguns restaurantes aderentes que tenham disponíveis artigos ligados à quadra e irá oferecer a taxa de entrega a essa categoria, em pedidos a partir de 12 euros. Este serviço de entregas trabalha com cerca de seis mil restaurantes e milhares de estafetas em mais de 60 cidades portuguesas.

"Vamos ter várias promoções que decorrem durante o ano inteiro e vamos ter algumas particulares no Natal e Ano Novo e vamos ter também obviamente pratos especiais com certos parceiros, e trabalhados com certos parceiros, para ajudar um pouco a população que vai estar em casa nestes tempos", afirma Ricardo Batista, diretor-geral da Glovo Portugal, que trabalha com um universo de cerca de quatro mil restaurantes e de dois mil estafetas espalhados por 90 localidades nacionais. Além de Lisboa e Porto, novas cidades como São João da Madeira e Santo Tirso têm registado um aumento da procura deste serviço de entregas. "Tipicamente, o Natal é um tempo de estagnação. Não é de acréscimo, é de estagnação, portanto não há crescimento natural associado ao setor. Neste Natal prevemos precisamente o contrário, que haja picos de procura, precisamente porque as pessoas não se vão deslocar entre concelhos muito possivelmente e, portanto, vão permanecer nas suas residências habituais. Tenho falado com alguns colegas e muitos de nós não sabemos cozinhar os verdadeiros pratos de Natal e acabamos por, se calhar, utilizar a Glovo para satisfazer esse desejo ", confessa Ricardo Batista.

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