Presidenciais. Como vão os candidatos fintar a pandemia?

A pandemia obrigará os candidatos às eleições presidenciais a muita imaginação na hora de pedir o voto aos portugueses. Os comícios ganham novas formas, as arruadas são esquecidas e os debates televisivos ganham outro peso num momento em que a convivência social é desaconselhada, mesmo aos políticos.

A maioria dos que vão entrar na corrida para a Presidência da República já formalizam a candidatura junto do Tribunal Constitucional, recolhidas as 7500 assinaturas obrigatórias. Arrancam depois para uma campanha muito ancorada nos debates televisivos e radiofónicos e entrevistas. Os contactos pessoais serão q.b., mas haverá comícios em formato original. Em plena pandemia, os candidatos às eleições de 24 de janeiro têm de reinventar formas de comunicar.

Marisa Matias, a candidata a Belém apoiada pelo Bloco de Esquerda, já começou o ensaio para a pré-campanha e campanha eleitoral das presidenciais. Há duas semanas, numa sexta-feira,, a poucos dias de entregar as assinaturas no Tribunal Constitucional, fez um comício. Mas um comício muito original. A sessão realizou-se às 21.00 na Escola Secundária Seomara da Costa Primo, na Amadora, com lotação limitada e distanciamento social, mas teve presenças virtuais a participar, e foi transmitido online nas redes sociais de Marisa Matias e do esquerda.net.

Esta será uma das formas de a candidata a Belém contornar as dificuldades que a pandemia de covid-19 traz à campanha para as presidenciais, a primeira a nível nacional que é realizada neste contexto. Apesar de terem decorrido as regionais dos Açores, que até servem para tirar ensinamentos aos candidatos.

Tal como Marisa Matias, todas as máquinas das outras candidaturas - à exceção da de André Ventura (que já entregou as assinaturas no TC) que não respondeu ao DN - admitem que a pandemia dificultará a campanha eleitoral, ainda que do ponto de vista legal não exista qualquer impedimento à atividade política.

Fonte da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa desabafou ao DN: "Ele é bom é na rua e agora tem de ser muito contido." O recandidato a novo mandato em Belém irá manter-se ligado aos temas que elegeu como prioridades em 2015, sobretudo os sociais, de combate à pobreza, e os de proteção geral do país, como o combate aos incêndios.

A mesma fonte admite que haverá iniciativas pontuais, que ainda não estão programadas devido àincerteza sobre a evolução da pandemia, mas frisou que a primeira semana de janeiro será dominada pelos frente-a-frente nas televisões e pelas obrigações que Marcelo tem de desempenhar ainda como Presidente da República em funções, nomeadamente a reunião no Infarmed com especialistas de saúde pública para reavaliar as medidas a adotar para o pós-período de festas.

O ainda Presidente da República decidiu não fazer a tradicional mensagem de Ano Novo, por participar nos dias seguintes em debates como candidato presidencial.

Vão ser 15 os frente-a-frente nas televisões e Marcelo abre e fecha os debates dos candidatos presidenciais. O primeiro debate da série de 15 entre candidatos a Belém será a 2 de janeiro entre Marcelo Rebelo de Sousa e Marisa Matias, na RTP1. Segue-se, seis dias depois, outro entre o atual Presidente da República e Ana Gomes. Mas também a 2 de janeiro, o candidato comunista João Ferreira e André Ventura vão encontrar-se na TVI24.

Da candidatura de Ana Gomes, socialista que corre para as presidenciais sem o apoio do PS, vem o reconhecimento de que "o programa delineado" para a fase de pré-campanha teve de ser "completamente alterado" devido ao estado de emergência. "Virou a programação do avesso", reconhece Carlos Vargas, responsável pela comunicação da candidata.

A pandemia obrigou a mudar as ações que eram na sua maioria presenciais por todo o país para ações mais pontuais, como a que decorreu na Universidade de Coimbra e que foi transmitida nas redes sociais de Ana Gomes</a>. "Estas iniciativas não presenciais têm impacto, mas não são a mesma coisa", admite Carlos Vargas.

A candidata não deixará, no entanto, de correr o país e manter de pé a campanha possível apesar de todas as dificuldades, mas muito longe dos tradicionais comícios ou arruadas que caracterizaram as anteriores eleições presidenciais.

A mesma incerteza é sentida pela candidatura de Tiago Mayan. "Com as restrições claro que não conseguimos fazer um roteiro com grande antecedência e vamos adaptar-nos ao que acontecer", admite ao DN José Maria Barcia, responsável pela comunicação do candidato do Iniciativa Liberal (IL). Apesar disso, o foco da campanha está estabelecido: jovens, pequenas e médias empresas e todos os setores de atividade que estão a atravessar sérias dificuldades por causa da pandemia, entre os quais os do turismo, restauração e agentes culturais. As visitas do candidato durante as fases de pré e de campanha eleitoral terão por base estes segmentos aos quais quer dirigir-se.

Comícios e arruadas estão fora de questão. "Seria usar as exceções dos agentes políticos, mas não as queremos usar. Seria falta de bom senso e irresponsabilidade cívica", afirma José Maria Barcia.

Reitera que a presença nas redes sociais de Tiago Mayan</a> - que também formalizou a candidatura no TC na semana passada depois de ter recolhido mais do que as 7500 assinaturas necessárias - será grande, "mas não chega". Os debates nas televisões, nas rádios e as entrevistas são peças que considera fundamentais para afirmar uma "candidatura de ideias liberais para o país". A par de alguns outdoors, irreverentes como é ADN do IL, que serão espalhados por várias cidades.

"É reconhecida a Marisa Matias uma grande capacidade de ouvir as pessoas e responder por elas. Foi assim em campanhas anteriores, não deixará de ser", assegura João Curvêlo, o responsável no Bloco de Esquerda pela comunicação da candidata. Tal como os anteriores, reconhece que "a pandemia impõe condições de distanciamento físico, que são novas face a campanhas anteriores e que evidentemente respeitamos". Mas, reforça, "isso não deve significar um distanciamento dos setores sociais mais afetados pela crise ou dos temas que determinam o futuro do país. Cumprindo as regras sanitárias, Marisa não deixará de ouvir as vítimas da crise ou a primeira linha que combate a pandemia. As duas coisas são conciliáveis".

Além dos debates que vão consumir toda a primeira semana de janeiro, e dos comícios em novo formato, a presença de Marisa Matias nas redes sociais será constante. "A principal novidade que registamos até agora nas redes sociais é a adesão de muitos jovens, alguns dos quais votarão pela primeira vez nestas eleições. Há, além disso, jovens que estão a viver a segunda crise das suas vidas e para quem a precariedade continua a ser a única perspetiva. A esta adesão de jovens não será indiferente o compromisso que Marisa tem assumido, por exemplo, com as lutas pela justiça climática ou contra a precariedade", afirma João Curvêlo. A candidata já formalizou a candidatura com a entrega das assinaturas no TC.

Da candidatura de João Ferreira, apoiado pelo PCP, vem a garantia de que "a programação da campanha eleitoral da candidatura, a que envolve o candidato e as ações que se desenvolverão em todo o país sem a sua presença, procurará contribuir para uma ampla ação de esclarecimento, assegurando as medidas de proteção sanitária, construída na participação, no contacto e no diálogo com o maior número de portugueses sobre as razões para o apoio e o voto nesta candidatura".

As iniciativas de campanha do candidato estão ainda a ser programadas, mas muitas em que já participou estão disponíveis nas redes sociais, nas contas da candidatura.

Entretanto, soube-se que Marine Le Pen vai estar presente na candidatura de André Ventura. A líder da União Nacional francesa vai estar em Lisboa no dia 10 de janeiro e participará num almoço de campanha.

"Estamos ainda a estudar o tipo de eventos, mas alguns serão em auditórios com lugares marcados e separação física, como nos espetáculos e eventos culturais autorizados pela Direção-Geral da Saúde, os quais não terão refeição incluída", disse à agência Lusa uma fonte da campanha.

Confinados, voto recolhido à porta de casa

A Direção-Geral da Saúde determinou as regras para a votação antecipada dos cidadãos infetados com covid-19. Equipas reduzidas para a recolha dos votos, que será feita à porta de casa.

Os boletins de voto nas presidenciais de 24 de janeiro dos cidadãos que estejam infetados com covid-19 deverão ser recolhidos à porta de casa por uma equipa reduzida e que não faça parte do grupo de risco. São duas das regras que a Direção-Geral da Saúde determinou para a votação antecipada nestas eleições.

Para o eleitor, a quem venha a ser decretado confinamento obrigatório por infeção do novo coronavírus em ambiente não hospitalar, pelas autoridades da saúde, pelo menos dez dias antes do ato eleitoral - como foi aprovado em regime excecional aprovado pela Assembleia da República - terá não só de votar à porta de casa, como ter máscara colocada, usar caneta própria e desinfetar as mãos antes e após a manipulação do boletim de voto.

A DGS indica também que a equipa destaca pela câmara municipal para a recolha dos boletins de voto deve ser "reduzida", embora sem detalhar o número de elementos, e os seus membros devem usar vários equipamentos de proteção individual, desde a máscara até ao uso de batas.

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