Nova estirpe do coronavírus: o que se sabe e o que está a ser feito

Esta não é a primeira variação detetada, mas a rapidez do contágio está a preocupar as autoridades. DGS desdramatiza, mas o Governo proíbe entrada de visitantes vindos do Reino Unido que não sejam portugueses ou residentes.

A identificação de uma nova estirpe do SARS-CoV-2 no Reino Unido, que será 70% mais contagiosa do que o normal, fez soar os alarmes. Primeiro entre os britânicos, obrigados a cancelar os planos que estavam previstos para o Natal, e depois por toda a Europa, com vários países a suspender as ligações aéreas com a Grã-Bretanha e outros a estudar fazer o mesmo.

O Governo português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MAI), emitiu um comunicado proibindo a entrada em Portugal de visitantes provenientes do Reino Unido que não sejam portugueses ou residentes.

"Com base na opinião dos peritos do Reino Unido, não existem dados que sugiram a perda de eficácia das vacinas nesta nova variante."

Ao mesmo tempo, a Direção-Geral da Saúde (DGS) considerou que a nova estirpe do coronavírus detetada no sul do Reino Unido é uma ocorrência "esperada", sendo certo que "a maioria das mutações não aumenta o risco para o ser humano".

"É esperado que com a transmissão contínua de um vírus RNA ocorram processos de evolução e adaptação, como é o caso do SARS-CoV-2. A maioria das mutações não aumenta o risco para o ser humano. No entanto, algumas mutações ou combinações de mutações podem fornecer ao vírus uma vantagem seletiva, como o aumento da transmissibilidade ou uma maior capacidade de evadir a resposta imune do hospedeiro", explicou a DGS, numa resposta escrita enviada à agência Lusa.

Acrescentando ainda, quanto às vacinas: "As vacinas demonstraram ser capazes de induzir a produção de anticorpos protetores nos seres humanos contra várias regiões da espícula do vírus, pelo que, com base na opinião dos peritos do Reino Unido, não existem dados que sugiram a perda de eficácia das vacinas nesta nova variante."

A DGS refere ainda que, "de acordo com a evidência disponível, a nova variante não parece ter impacto na mortalidade por covid-19", embora a informação seja "insuficiente para que existam dados definitivos sobre a nova variante e o seu impacto na pandemia".

UE com reunião de emergência

Entretanto, a presidência alemã da União Europeia (UE) convocou um encontro com especialistas, ao abrigo do Mecanismo Europeu Integrado de Reação à Crise, que funciona como um "botão de alarme", que é acionado em situação excecionais para coordenação, entre os 27, de medidas que vão desde a partilha de informações até à tomada de decisões extraordinárias em casos de crise.

A informação foi avançada pelo porta-voz da presidência alemã da UE, Sebastian Fischer, que numa publicação na sua conta oficial da rede social Twitter indicou que a Alemanha "convidou os Estados membros para uma reunião urgente do Mecanismo Integrado da UE de Resposta Política a Situações de Crise para amanhã [segunda-feira]" de manhã. A reunião tem início às 11.00 portuguesas.

Segundo Sebastian Fischer, na ordem do dia da reunião desta segunda-feira está a "coordenação das respostas da UE à recém-identificada variante da covid-19 no Reino Unido".

A reunião de segunda-feira segue-se a uma primeira reunião de urgência mantida na tarde deste domingo, e convocada pelo presidente do Conselho Europeu, na qual estiveram em discussão a possibilidade de "suspensão das ligações aéreas e a introdução de testes serológicos" para os viajantes oriundos do Reino Unido, apurou o DN.

A reunião foi convocada com o objetivo de "partilhar informação as medidas que os Estados membros pretendem adotar nas próximas horas", depois da descoberta da nova variante mais contagiosa do coronavírus, pelas autoridades britânicas.

O Governo britânico anunciou na segunda-feira passada que tinha detetado uma nova variante do vírus SARS-CoV-2 no Sudeste de Inglaterra, que já afetava também a região de Londres. O aparecimento de novas estirpes é algo normal neste tipo de vírus e esta não é a primeira a aparecer.

Contudo, neste sábado, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, revelou que esta estirpe é 70% mais contagiosa do que o normal.

Segundo Johnson, em meados de novembro, esta estirpe, que terá sido detetada pela primeira vez em setembro, representava cerca de 28% dos novos casos nas regiões afetadas. Contudo, na semana que começou a 9 de dezembro já representava mais de 60% dos novos casos na região de Londres.

"A nova variante está a tornar-se a variante dominante", disse um dos especialistas britânicos no sábado, indicando que existem mutações em 23 pontos do vírus, incluindo na proteína e na forma como se liga às células.

Apesar de ser mais contagiosa, a nova variante não será mais letal, segundo as autoridades britânicas. Contudo, um contágio mais fácil poderá levar à existência de mais casos, que se pode traduzir em mais casos graves e, em última análise, num aumento do número de mortes.

Que impacto terá nas vacinas?

Os especialistas aguardam por mais informações, mas acreditam que não terá qualquer impacto nas vacinas que já estão a ser administradas - o Reino Unido foi o primeiro a dar luz verde à vacina da Pfizer/BioNTech - e nas que estão na calha para receber autorização.

"Temos de aguardar e estar atentos, não é expectável que tenha um impacto gigantesco", mas "é muito precoce estar a especular em relação a isso", disse à Lusa o virologista Pedro Simas, do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa.

Em relação ao facto de a nova estirpe ser 70% mais eficaz na disseminação do vírus, o especialista defendeu que "se as pessoas usarem máscara e respeitarem as regras de distanciamento, tanto faz que a estirpe seja mais transmissível ou não, porque as medidas funcionam na mesma".

"Para já, não há motivos de preocupação, mas temos de estar atentos, vigilantes, porque ainda não há dados sobre a influência e o impacto que vai ter na vacina, mas é pouco provável que aconteça de uma maneira dramática", referiu.

O mesmo defendeu o ex-diretor-geral da Saúde Constantino Sakellarides. "Pelo que se sabe, não é provável que afete a eficácia da vacina, desde que não interfira com o antigénio que está na coroa, o antigénio que estimula a reação imunitária", disse à Lusa o atual membro do Conselho Nacional de Saúde Pública.

"Tudo isto é sob reserva, porque a informação que temos é escassa, mas desde que não haja interferência com esse antigénio, não há razão para pensar que a vacina não servirá na mesma para esta nova variante", acrescentou Sakellarides.

Qual foi a resposta do Reino Unido?

Por causa da nova estirpe, que o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, disse estar "fora de controlo", o primeiro-ministro britânico tomou a decisão de intensificar as medidas de confinamento nas áreas mais afetadas - a região de Londres e o Sudeste de Inglaterra.

Assim, nas zonas agora no nível 4 de restrições (e até agora o 3 era o máximo), as pessoas não devem sair de casa, exceto em situações concretas (como ir comprar alimentos, medicamentos, prestar auxílio a pessoas necessitadas), e aquelas que podem voltar teletrabalho devem fazê-lo.

As lojas de bens não essenciais estão fechadas, tal como ginásios, sendo apenas autorizados encontros com um outro agregado familiar ao ar livre, nunca em espaços fechados. Os bares e restaurantes já tinham sido fechados, já que esta é uma medida de nível 3 de restrição.

Boris Johnson determinou ainda a proibição de as pessoas no nível de restrição 4 saírem da sua área de residência ou viajarem para o estrangeiro (exceto em casos concretos), além de que as que estão noutros níveis de restrição não devem entrar nas regiões de nível 4.

Na prática, o primeiro-ministro cancelou os planos de Natal de muitos britânicos, que anteriormente tinham sido informados de que podiam formar "bolhas" com outros três agregados familiares, no máximo, e durante cinco dias.

Mesmo no caso de zonas em nível 3 ou inferior, o Governo decidiu só permitir durante o Natal o contacto com um outro agregado familiar e só durante um dia, sem pernoitas fora de casa.

A nível interno, no Reino Unido, a Escócia anunciou a suspensão das ligações com a Inglaterra, para tentar evitar que a nova variante se espalhe ainda mais.

O que está a fazer a Europa?

Diante do alerta das autoridades britânicas, muitos governos europeus tomaram a decisão de cancelar os voos do Reino Unido. É o caso dos Países Baixos, que logo disseram que esta medida estará em vigor até dia 1 de janeiro.

Outros países seguiram o mesmo exemplo, como a Bélgica, que suspendeu os voos e as ligações ferroviárias durante pelo menos 24 horas enquanto analisa a situação. Ou a Itália, com o chefe da diplomacia, Luigi di Maio, a dizer que tem "o dever de proteger os italianos". A Irlanda também suspendeu os voos a partir da meia-noite deste domingo, bem como a Alemanha, Áustria e a França.

Espanha vai reforçar os controlos dos testes PCR e pediu uma posição conjunta da parte da União Europeia.

A Organização Mundial da Saúde, que tem recebido informação da parte do Reino Unido, apelou ao reforço dos controlos na Europa, explicando que já foi detetada a nova variante num número reduzido de casos fora deste país, nomeadamente nove na Dinamarca, assim como um na Holanda e um na Austrália.

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