Jesus Menino

A Natividade não é um cenário de completa pobreza em que uma criança foi lançada ao mundo como um sem-abrigo, igual aos tantos que ainda hoje temos, volvidos mais de dois milénios.

Há precisamente cinquenta e um anos, no dia 22 de Dezembro de 1968, o padre Cunha de Oliveira celebrou, como de costume, a missa do meio-dia na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Angra do Heroísmo.

A celebração litúrgica, como também era costume, foi difundida pelo Rádio Clube de Angra e, como era véspera de Natal e o Homem se preparava para ir à Lua, o padre Oliveira lembrou-se de ligar a missão da NASA às alegrias e às festividades da quadra. Falou também aos paroquianos de algumas ideias feitas, mas mal feitas, sobre o Natal e a sua tradição, tais como o nascimento de Jesus num curral, a pobreza de toda a cena envolvente, com o Menino a ter de ser aquecido pelo bafo dos animais, ou a falta de um enxoval decente para o cobrir e abrigar do frio.

Rebentou escândalo. No domingo seguinte, dia 29 de Dezembro, o director do quotidiano angrense Diário Insular, num artigo intitulado "A morte do presépio", acusava o sacerdote de desferir "o último golpe na tradição cristã do presépio". O padre respondeu à letra, publicando o texto da sua homilia, na íntegra, no diário diocesano A União. O senhor bispo de Angra, porém, não apreciou o gesto e, a 1 de Janeiro, intimou o sacerdote a esclarecer, "cientificamente", em que autores e exegetas bíblicos se baseara para afirmar tão estranha doutrina sobre o enxoval de Maria ou o bafo do burro e o mugir da vaca. Pediu-lhe mesmo que indicasse "quais os Papas, os Santos Padres e Teólogos que expuseram e seguiram" aquelas teses sobre o curral e a manjedoura que, em má hora, o padre Oliveira decidira propagar junto dos seus crédulos paroquianos. O sacerdote ainda reagiu com um douto artigo sobre tão magnos problemas, a que deu o título "A questão da gruta - um ensaio e uma resposta", vindo a lume na revista Atlântida, do Instituto Açoriano de Cultura. Por causa disso, ou não, o certo é que o Rádio Clube de Angra deixou de transmitir as missas celebradas pelo padre Oliveira na Igreja da Conceição. Foi pena.

O remate final foi dado décadas depois, e já em tempos de democracia, política e eclesial. Em 2012, na altura sacerdote dispensado do ministério e casado, A. Cunha de Oliveira deu à estampa, também pelo Instituto Açoriano de Cultura, um grosso volume intitulado Natal. Verdade, Lenda, Mito, seiscentas páginas de erudição sobre a Natividade e os seus mistérios, que Frei Bento Domingues considera a mais completa e exaustiva obra em língua portuguesa sobre o tema.

Sobre o tema da pobreza de Maria e José, por exemplo. Julgamos ainda, pois assim fomos educados de geração em geração, que Jesus veio a este mundo na maior das pobrezas, que a Virgem não tinha sequer um enxoval para o seu menino, que o envolvera nuns trapos quaisquer que tinha à mão, que não estava sequer preparada para o nascimento do seu filho, o primogénito, o prôtókos, que significa o primeiro nascido, "o que abriu a vulva", o que pode sugerir que Maria e José tiveram outros filhos, os irmãos de Jesus referidos em Lc, 8:20-21.

No Evangelho de Lucas diz-se, a dado trecho, "encontrareis um bebé envolto em panos e deitado numa manjedoura" (Lc, 2:12), e está tão enraizada a ideia de que eram uns panos quaisquer, improvisados às pressas num cenário de urgência, que nos esquecemos que, no texto original grego, esses panos se chamavam epargánôsen, que significa uma faixa usada para envolver os bebés, os panos próprios para o nascimento, o que prova, por um lado, que Maria era uma mãe cuidadosa e extremosa, que tinha preparado enxoval para o seu menino, ou seja, que o nascimento de Jesus não foi um parto de emergência à beira da estrada, e prova também que, ao contrário do que muitos ainda pensam, a Natividade não é um cenário de completa pobreza em que uma criança foi lançada ao mundo como um sem-abrigo, igual aos tantos que ainda hoje temos, volvidos mais de dois milénios. Apesar de carpinteiro, José tinha o suficiente para pagar a hospedaria e o parto só ocorreu como ocorreu por falta de oferta hoteleira em Belém e arredores.

O enxoval do Menino não é uma mera questão de trapos ou de outfit pueril. Na verdade, a imagem de Jesus-criança enfaixado em panos, propagada pela tradição dos ícones, contém uma alusão antecipada à hora da sua morte. Prefiguração fulgurante, que introduz uma noção de circularidade do tempo na narrativa evangélica e que nos leva a encarar o Calvário e tudo quanto lhe está associado - a Pietá, o Stabat mater dolorosa, etc. - a uma nova luz, impregnada de sombras: a da mãe que se reencontra com o cadáver do filho, exactamente do mesmo modo como antes o tomara nos braços, recém-nascido. Mais extraordinário ainda é pensarmos que, certamente de forma involuntária, esta ligação entre o nascimento e a morte de Cristo teve uma singular expressão artística: as primeiras grandes representações da Natividade, os presépios com figuras talhadas em retábulos feitos a partir do século XV no Norte dos Alpes, mostram claras semelhanças com os grandes Calvários do gótico tardio, realizados precisamente nessa época, e na mesma região.

É também evidente, ou assim parece pela exegese bíblica, que o Menino terá sido deitado numa manjedoura (phatnê) de um estábulo de animais, ainda que a palavra também possa indicar, o que é improvável, o sótão ou a dependência superior de uma casa, próxima do tecto. Em qualquer dos casos, irrompe a dúvida, intrigante, sobre famosa gruta, em torno da qual se construiu até uma monumental basílica, muito visitada por peregrinos e demais turistas. A gruta não é referida nos Evangelhos, mas consta de uma antiquíssima tradição, e a sua existência é assinalada pelo mártir Justino, por Orígenes ou por São Jerónimo e também mencionada em vários Evangelhos Apócrifos, como o Papiro Bodmer 37, 10 ("e ali encontrou uma gruta: levou-a para ela"), o Proto-Evangelho de Tiago 18, 1 ("encontrou lá uma gruta: levou-a para lá") ou o Evangelho do Pseudo-Mateus ("disse, depois, à bem-aventurada Maria que descesse do animal que entrasse numa gruta sob uma caverna na qual nunca entrava a luz, mas só as trevas, porque não podia receber a luz do dia").

Em Jesus de Nazaré. A Infância de Jesus, Joseph Ratzinger procurou sanar esta acalorada disputa entre a manjedoura e a gruta, afirmando que, na região em redor de Belém, desde sempre foram usadas grutas como estábulos, pelo que o facto de Jesus ter nascido num curral de bichos não significa que não possa ter nascido também numa cavidade terrestre.

O empenho do Papa Emérito em defender a gruta é prova da sua extrema importância no imaginário do Natal, desde há muitos e muitos séculos. Em Roma, na actual Igreja de Santa Maria Maggiore, venerava-se como relíquia um pedaço da gruta original onde Jesus nasceu, a partir da qual foi construída, no século VII, a primeira réplica da gruta da Natividade executada no Ocidente (foi também nessa igreja que se iniciou a tradição da missa da meia-noite). Já a manjedoura de Belém, diz a lenda, terá sido destruída no século II às ordens do imperador Adriano. Ainda assim, entre 432 e 440, o Papa Sisto III conseguiu trazer para Roma vários fragmentos do Santo Presépio, que mais tarde seriam dispersos por alguns templos da Cidade Eterna: Santa Maria Maggiore, Santa Maria no Trastevere e, naturalmente, a Basílica do Vaticano. Séculos depois, no ano de 1223, São Francisco faz erigir na floresta de Greccio aquele que é considerado o primeiro presépio do mundo, imortalizado por Giotto num fresco celebérrimo da Basílica de Assis.

Mesmo isso, no entanto, suscita interrogações e mistérios, pois alguns especialistas garantem que o presépio, tal como o conhecemos, só tomaria forma muitos anos depois. Ou, ao invés, muitos anos antes, bastando recordar que a mais antiga conhecida imagem de Nossa Senhora com o Menino se encontra em Roma, nas Catacumbas de Santa Priscilla: datando do século III, mostra a Virgem, Jesus e um profeta indicando a estrela, a estrela que, nas palavras de Teixeira de Pascoaes, é divino sorriso alumiante.

Avistei-a pintada no tecto da Cappella degli Scrovegni, em Pádua. Ali não é uma estrela, mas o cometa Halley e o seu rasto de fogo, que Giotto terá visto à sua passagem pelos céus italianos, em 1301, e teve a lembrança de o colocar no fresco da Adoração dos Magos, envolto num azul divino que, depois dele, pintor algum conseguiu repetir.

Outro pormenor de assombro: a poucos metros do fresco da Adoração dos Magos e do cometa Halley, Giotto pintou o encontro de Joaquim e Ana junto à Porta Dourada de Jerusalém, ilustrando a narrativa do casal infértil que, por intercessão de um anjo, consegue conceber e ter uma filha, Maria, Nossa Senhora. Nas representações tradicionais, os pais da Virgem encontram-se e abraçam-se, felizes com a gravidez de Ana. Em 1305, nos alvores do século XIV, Giotto di Bondone pintou-os a beijarem-se nos lábios, em instante de felicidade pura, e esse fresco é, segundo dizem, a primeira representação pictórica do beijode um casal na arte ocidental da era cristã. Está a poucos metros do cometa que, com a sua cauda de chamas, risca o irrepetível azul de Giotto.

Durante sete anos, um objecto humano vagueou por esse azul, infinito adentro. A sonda Giotto, assim chamada em homenagem ao pintor de génio, percorreu o espaço entre 1985 e 1992 e é espantoso pensar que, no seu percurso, em 1986, passou a uns seiscentos quilómetros de distância do cometa Halley, o mesmo que fora avistado por Giotto, o pintor que deu o nome à nave da Agência Espacial Europeia. Mais espantoso ainda é saber que, contra todas as previsões dos técnicos da missão, essa nave conseguiu resistir ao encontro com o cometa, e que após 32 minutos de turbulência quase fatal, com peças vitais seriamente danificadas, a sonda Giotto conseguiu estabilizar e seguir viagem.

Muito se tem escrito sobre a "ditosa strella, que os três Reys guiaste", como lhe chamou o nosso poeta quinhentista Diogo Bernardes. "Era real e não imaginada", escreveu Sophia num poema que lhe dedicou. Procurou descobrir-se o seu rasto, ou saber-se ao certo o que se passou no azul da Judeia, já que muitos duvidam da existência da estrela, dizendo ser impossível que ela se deslocasse da maneira descrita nos Evangelhos. Johannes Kepler, no que parece ser seguido por alguns astrónomos actuais, salientou a existência de uma conjunção dos planetas Júpiter, Saturno e Marte, acompanhada de uma supernova, por altura dos anos mais prováveis do nascimento de Jesus. Afirma-se também que algumas tábuas cronológicas chinesas assinalam o surgimento de uma estrela por volta do ano 4 a.C.

E, nos nossos dias, grandes divulgadores científicos como Isaac Asimov duvidam do aparecimento de uma supernova, mas reconhecem a singular aproximação entre Júpiter e Saturno ocorrida, segundo ele, no ano 7 antes de Cristo. O que se tem por mais plausível é justamente a passagem do cometa Halley pelo sistema solar interno, que se verificou em 11 a.C., o mesmo cometa que, séculos depois, seria avistado por Giotto e por ele pintado no tecto de uma capela de Pádua. Contudo, não existem, por ora, provas concludentes sobre a existência da estrela da Natividade.

Por isso, do lado da Igreja, uma personalidade eminente como Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura do Vaticano, qualifica como "patéticos" os esforços para demonstrar e documentar a existência da estrela do Natal.

De seu lado, os não cristãos, como José Saramago, procuram desvalorizar a estrela da Judeia, dizendo ser igual a todas as outras: "Brilham lumes no céu? Sempre brilharam", escreveu o nosso Nobel. Talvez tenha razão, mas o facto é que uma estrela a brilhar nos céus, a do Natal ou outra qualquer, não é coisa de somenos. Ide a Ravenna, se quiserdes saber o que são maravilhas.

No Mausoléu de Gala Placídia, uma das coisas mais deslumbrantes que meus olhos viram, a cúpula é um firmamento feito de minúsculos mosaicos, erguido há mais de mil e quinhentos anos. Cole Porter esteve lá em 1920, na sua lua-de-mel, e aquela visão celeste inspirou-o a compor Night and Day, que celebra o amor de Ana e Joaquim, de Maria e José, da Graça Martins e do Pedro Carrolo (a quem este texto é dedicado) e de todos casais que existiram e existirão à face do mundo. A estrela da Judeia pode nunca ter existido, ou pode ter sido uma estrela igual a tantas outras que nos alumiam as noites, muitas das quais já morreram. Mas é estranho pensar que, mesmo mortas há muito, o seu brilho continua a chegar até nós, à distância de milhões de anos-luz, naquele que é o mais cintilante dos mistérios da Natividade, da natividade do Universo.

No Natal há ainda sonhos e presságios, e anjos também. Em Nova Iorque, no Metropolitan Museum of Art, um quadro mostra-nos A Adoração de Cristo-Menino. Pintado circa 1515, é um óleo da escola flamenga, cujo autor se desconhece, mas que se pensa ser um discípulo de Jan Joest of Kalkar. Segundo diversos investigadores, em escritos publicados nas revistas científicas mais prestigiadas e respeitáveis, como o Journal of Medical Genetics ou o British Medical Journal, trata-se da mais antiga representação artística da síndrome de Down conhecida em todo o mundo. No rosto e nas mãos, o anjo ajoelhado à esquerda da Virgem Maria apresenta traços característicos da trissomia 21, que só seria descrita cientificamente em 1866 por John Langdon-Down. Contudo, o facto de a sua primeira representação em todo o mundo ter sido feita através da arte - e, mais ainda, ter sido feita num quadro da Natividade -, é algo tão intrigante quanto fascinante. Algo que nos deve maravilhar a todos, crentes e não crentes, pois até isso é Natal, com seus encantadores mistérios.

A todos, crentes e não crentes, um Bom Natal.

(Para a Graça e para o Pedro.)

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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