Como deve ser bom mentir 

O ficcionista tem permissão para fazer aquilo ue não é permitido aos biógrafos e historiadores: mentir à vontade, sem culpa.

Biógrafos e historiadores, profissionais da palavra que se dedicam religiosamente aos factos, têm uma secreta fascinação pelos ficcionistas. E por um motivo simples. Os ficcionistas têm o direito de fazer o que a eles é terminantemente proibido - inventar histórias, imaginar diálogos, presumir que isto ou aquilo tenha acontecido desta ou daquela forma, mesmo que sem base nenhuma nos factos. Em uma palavra: mentir.

Os ficcionistas não têm apenas o direito de mentir ao escrever. Têm a obrigação de mentir - ou não seriam ficcionistas. Afinal, o que é a ficção senão uma deliciosa mentira em que mergulhamos por trezentas ou quatrocentas páginas, levados pela arte e pelo talento do ficcionista? Alguém pode acreditar na trama delirante de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift? Ou na de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll? Ou mesmo na de Moby Dick, de Herman Melville? Isso para ficarmos apenas na literatura de língua inglesa. E, no entanto, viajamos encantados por essas narrativas como se elas fossem plausíveis e nos esquecemos de que nunca poderiam ter acontecido.

Quando me referi à fascinação dos biógrafos e historiadores pelos ficcionistas, talvez estivesse a lembrar-me do meu próprio caso. Um de meus melhores amigos na vida foi o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony (1926-2018), autor de romances definitivos da literatura brasileira, como Pessach: A Travessia (1966), Pilatos (1974) e seu maior sucesso, Quase Memória (1995), que tive a honra de ser o primeiro a ler, ainda em manuscrito. Cony era um ficcionista - logo, um mentiroso. Ou vice-versa. Muitas vezes, durante uma amizade que se prolongou por 49 anos, ele zombou da minha preocupação com o rigor histórico, a busca quase fanática da verdade, a obsessão de só escrever depois de apurados e estabelecidos os factos.

Cony não acreditava que fosse possível estabelecer esses factos. Dizia que, se chegamos a esses factos através de documentos históricos ou depoimentos pessoais, sempre haverá a possibilidade de que eles sejam falhos - daí falsos. Cony não acreditava nem nas testemunhas oculares de qualquer facto - achava que podiam ter enxergado errado. E provava isto citando histórias que ele próprio presenciara e não tinha certeza sobre como realmente se haviam passado.

Conversar com Cony era sempre uma aventura, porque nunca se sabia quem estava falando, se o homem ou o ficcionista. O ficcionista é aquele que põe suas mentiras no papel, mas, por trás dele, há o homem que inventa essas mentiras. Isso faz-me crer que o mentiroso vem antes do ficcionista e, no caso de Cony, não havia dúvida. Certa vez, ele falou-me de um cruzeiro marítimo que acabara de fazer pela Europa e de como, na costa da Itália, seu navio encalhara em cima de uma baleia. Ora, um transatlântico encalhar em cima de uma baleia equivale a derramar o oceano Atlântico dentro de uma piscina. Mas Cony, não satisfeito, acrescentou que só foi possível desencalhar o navio porque dezenas de mergulhadores caíram na água e cortaram a baleia com serras elétricas. E, como tudo isso acontecera de madrugada, quando os passageiros estavam dormindo, poucos no navio perceberam o que se passava. Essa baleia era a Moby Dick de Cony, ainda mais absurda do que a de Melville.

Outra de suas fixações era a suspeita, vastamente desmentida, de que três importantes políticos brasileiros, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, todos mortos mais ou menos na mesma época, em 1976/77, tinham sido assassinados secretamente pela ditadura militar, de que eram adversários. A ditadura podia ter feito isto, sem dúvida. Só não se sabe como. As circunstâncias da morte de Juscelino, por exemplo - um acidente na estrada envolvendo vários veículos, um deles um camião que atravessou uma pista e chocou com outro que, finalmente, teria acertado no carro de J.K. -, parecem quase impossíveis de ser planeadas. Para completar, Cony adorava também contar como o caixão com Juscelino fora trocado por outro no necrotério e que um desconhecido foi enterrado no túmulo onde hoje se pensa estar o ex-presidente. E, se foi assim, onde Juscelino terá sido enterrado? Cony ria ao contar tudo isto, não porque ele próprio duvidasse, mas por se julgar detentor de informações secretas, a que só ele tivera acesso. Tudo teatro, naturalmente.

Falo dessas coisas porque um amigo, o editor José Mário Pereira, me consultou outro dia sobre algo que leu no romance recém-lançado do peruano Mario Vargas Llosa, Tempos Difíceis. A trama do livro passa-se em 1954, na Guatemala, quando o presidente Jácobo Árbenz foi deposto por uma conspiração da companhia bananeira americana United Fruit - Árbenz expropriara as suas terras ociosas na Guatemala e queria obrigá-la a pagar impostos, o que ela nunca fizera. No livro, Vargas Llosa escreveu que a nossa Carmen Miranda, através de uma personagem baseada nela, a Chiquita Banana, símbolo da United Fruit, teria sido contratada para difundir o consumo de banana nos Estados Unidos - como se isto fizesse dela cúmplice do golpe contra Árbenz.

Bem, tive o prazer de dizer a Zé Mário que Carmen Miranda nunca foi contratada pela United Fruit para vender bananas, que a Chiquita Banana fora criada à sua revelia e que a ideia de ligar Carmen a uma revolução de bananas era uma ideia barata, baseada num cliché - e que eu esperava mais de imaginação de Vargas Llosa, que admiro. O ficcionista pode e deve mentir, mas, em minha opinião, há um limite. Eu não poderia, por exemplo, escrever um romance que mostrasse Vargas Llosa coberto com um poncho ensebado, tocando flauta e vendendo artesanato peruano nas ruas de Copacabana.
Ou poderia? Hei, até que não é má ideia! O dever do ficcionista não é mentir?

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Bilac Vê Estrelas (Tinta-da-China)

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