A saga de THX 1138

A estreia do episódio final da saga Star Wars é um bom pretexto para revisitarmos a primeira longa-metragem de George Lucas: em regime de produção independente, ele começou também pela ficção científica.

É para mim um mistério a alegria mediática com que, face a cada novo filme da saga Star Wars, as ações dos respetivos fãs adquirem tão especial peso público. É verdade que não sinto qualquer entusiasmo pelo episódio IX, A Ascensão de Skywalker, agora lançado nas salas de todo o planeta. Mas não é esse o motivo da minha perplexidade, quanto mais não seja porque há décadas, com argumentações certamente discutíveis, me mantenho fiel a uma linha básica de pensamento crítico: a ação desse pensamento não é normativa, quer dizer, não procura qualquer confirmação ou gratificação nos pontos de vista de outros.

O que está em causa é a própria globalização do fenómeno. Assim, por exemplo, no mesmo dia em que o planeta se agitava com a estreia de A Ascensão de Skywalker, chegou às salas portuguesas a versão final (final cut) de Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, um dos títulos mais lendários de toda a história do cinema, além do mais em cópia primorosamente restaurada... Mas não houve espetáculo de fãs... Para quê, aliás?

Se o leitor teve a bondade de me acompanhar até aqui, peço que compreenda que nada disto pretende suscitar a aplicação dessa frase feita - "de quem é a culpa?" - que, hoje em dia, tende a enquadrar quase todos os debates, sejam eles sobre as complexidades das políticas sociais ou os golos sofridos pela instável defesa do Sporting... Não se trata de procurar "culpados", mas de tentar perceber o que ganhamos e, sobretudo, perdemos com a visão clubista dos objetos cinematográficos.

No nosso país, Star Wars já se chamou A Guerra das Estrelas (título com que, em 1977, foi lançado o primeiro filme da saga). Era um tempo em que a violência normativa do marketing global ainda não tinha o poder de obliterar as singularidades da língua de um país. Mas era também um tempo em que, apesar de tudo, a pluralidade interior do cinema era objeto de conhecimento da maioria dos espectadores. Isso tinha um nome: cinefilia. Agora, dir-se-ia que ser fã de um filme, ou conjunto de filmes, implica a ignorância festiva dessa pluralidade. Não é uma questão que tenha que ver com a inteligência das pessoas - a sua agressiva formatação começa nos valores dominantes do mercado.

Seria interessante lembrar que as transformações introduzidas na saga pelos estúdios Disney, atuais proprietários da Lucasfilm (produtora de Star Wars), começaram no seu criador: George Lucas. O que, entenda-se, não exclui o reconhecimento de alguma fraqueza das razões de Lucas, já que as limitações dramáticas e dramatúrgicas de A Ascensão de Skywalker não podem ser separadas de um sistema de narrativa e produção que ele próprio colocou em movimento.

Ainda assim, é desconcertante que, com o passar das décadas, o triunfo económico e simbólico da franchise Star Wars não tenha gerado qualquer movimento de redescoberta de THX 1138 (1971), a primeira longa-metragem de Lucas produzida em regime rigorosamente independente. Porquê? Desde logo, porque se trata de um exemplar exercício narrativo, filiado na mais nobre tradição da ficção científica (literária, antes do mais), figurando um futuro distópico em que a "normalização" das relações humanas acontece através da proibição de tudo o que possa ser carnal, das emoções ao sexo.

Na sociedade hipervigiada de THX 1138, cada humano deixou de ter nome, sendo designado por um código imposto pelo estado: THX 1138 é a personagem de Robert Duvall, precisamente um trabalhador de uma fábrica de polícias-androides. São esses "bonecos" que vigiam todas as atividades quotidianas, obedecendo apenas (e este "apenas" é terrível) a uma interpretação literal de um sistema fechado de leis. É certo que a ação do filme tem lugar no século XXV, mas a inquietação da frase promocional do seu cartaz persiste: "O futuro está aqui".

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