Fim da quarentena do Reino Unido. O que contou foram os números

No dia em que Augusto Santos Silva celebrou 64 anos, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson deu-lhe uma prenda: acabou a quarentena obrigatória dos britânicos que regressam ao Reino Unido vindos de Portugal.

As explicações para o Reino Unido retirar Portugal da sua lista negra de destinos de viagem foram dadas pelo ministro britânico dos Transportes, Grant Shapps (que recentemente teve ele próprio de estar de quarentena durante duas semanas depois de umas férias em Espanha).

Para lá das diligências diplomáticas, o que contou decisivamente para a decisão britânica foi a evolução favorável da pandemia em Portugal.

Shapps disse que o que conta são vários critérios, como a prevalência estimada de covid-19, o nível e a taxa de mudança na incidência de casos positivos confirmados ou a capacidade dos testes num país. E já na semana passada tinha revelado que um índice a ter em conta é o valor de 20 novos casos por cem mil habitantes ao longo de sete dias. Acima deste número, os países são considerados de risco, e abaixo, seguros.

Para lá dos dados portugueses, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças confirma que Portugal tem vindo a registar um decréscimo no número de infeções - fator decisivo na decisão britânica. O facto de a progressão do número de infetados estar a descer e de o número de testes estar a subir foram dados relevantes, segundo o governante britânico.

Em Lisboa, a embaixada britânica replicou a informação proveniente de Londres dizendo que a decisão ocorreu na sequência de uma "diminuição sustentada da incidência" de covid-19 em Portugal.

"Por favor esteja ciente de que as coisas podem rapidamente mudar. Só viaje na expectativa de contar no regresso com uma inesperada quarentena de 14 dias."

Portugal juntou-se assim a um grupo reduzido de países que foram adicionadas à lista de "corredores de viagem" com o Reino Unido desde meados de julho, que incluem Estónia, Letónia, Eslováquia, Eslovénia, o arquipélago de São Vicente e Granadinas, Brunei e Malásia. Mas Grant Shapps não deixou de avisar os viajantes: "Por favor esteja ciente de que as coisas podem rapidamente mudar. Só viaje na expectativa de contar no regresso com uma inesperada quarentena de 14 dias."

Sorte inversa tiveram três países: Croácia, Áustria e Trindade e Tobago, que passaram a constar na lista negra britânica. A imprensa britânica tem especulado sobre a possível remoção da Grécia e da Suíça da lista dos "países seguros" devido ao aumento do número de infeções naqueles países, mas o anúncio de quinta-feira do Ministério dos Transportes não mencionou estes países europeus.

O governo português reagiu à decisão britânica dizendo, numa nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), que o Reino Unido se juntou assim "à Polónia, à Grécia, à República Checa, à Hungria, a Malta, à Roménia, à Bélgica, aos Países Baixos, à Dinamarca e a Chipre no levantamento de restrições à mobilidade de passageiros oriundos de Portugal".

Para o ministério de Augusto Santos Silva - governante que recebeu esta "prenda" londrina precisamente no dia em que celebrou 64 anos -, a decisão representou "o reconhecimento da evolução positiva da situação em Portugal, nomeadamente a capacidade para testar em larga escala, detetar os casos positivos, controlar a sua transmissão e tratá-los da forma mais adequada", constituindo também "a evidência da capacidade de resposta do nosso Serviço Nacional de Saúde, que em nenhum momento deixou de garantir acompanhamento às pessoas infetadas com covid-19".

O MNE não deixou, evidentemente, de puxar pelos galões da sua própria ação diplomática, dizendo que "para esta decisão muito contribuiu o intenso trabalho bilateral realizado, quer ao nível político quer ao nível técnico". "Esse trabalho permitiu que toda a informação relativa à situação e evolução epidemiológica portuguesa tenha sido tempestivamente transmitida ao Reino Unido."

O Presidente da República também se apressou a saudar a decisão, qualificando-a como uma "grande notícia" que fará uma diferença "brutal" para o turismo no Algarve.

"É obviamente uma boa notícia para o turismo, na medida em que o Reino Unido é o nosso principal destino emissor. Só peca por tardia, porque, infelizmente, os efeitos fizeram-se sentir com grande intensidade."

Ao anúncio britânico seguiram-se imediatamente várias reações de regozijo, nomeadamente dos operadores turísticos, porque o mercado do Reino Unido é o principal emissor dos turistas que visitam Portugal.

A Confederação do Turismo de Portugal (CTP) não deixou, porém, de salientar que a decisão "peca por tardia".

"É obviamente uma boa notícia para o turismo, na medida em que o Reino Unido é o nosso principal destino emissor. Só peca por tardia, porque, infelizmente, os efeitos fizeram-se sentir com grande intensidade", afirmou o presidente da CTP, Francisco Calheiros, citado num comunicado.

A mesma confederação destacou que "Portugal tem demonstrado capacidade para lidar com a pandemia desde o seu início e tem vindo a descer em vários indicadores - menos internamentos, menos óbitos diários, menos casos ativos desde o início da pandemia -, com uma boa resposta dos serviços de saúde".

No que diz respeito ao setor do turismo, o líder do organismo recordou o lançamento do "selo Clean & Safe, que identifica estabelecimentos turísticos que cumprem com várias condições sanitárias decretadas pelas autoridades de saúde, projeto pioneiro na Europa que visa garantir a confiança de todos os visitantes".

"E fomos o primeiro país na Europa a ser distinguido com o selo de Travel Safe por parte do WTTC [World Travel & Tourism Counci]", rematou Francisco Calheiros.

O Reino Unido registou até agora 41 403 mortes, o número mais alto na Europa e o terceiro maior no mundo, só atrás dos EUA e do Brasil.

Em Portugal, morreram 1788 pessoas das 54 992 confirmadas como infetadas, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

Mais Notícias