Monsieur Paty, professor, 47 anos, "mártir da República" executado na via pública 

Na sexta-feira passada desejou boas férias aos alunos e iniciou a caminhada para casa. Nunca lá chegou. Chamava-se Samuel Paty e o seu assassinato, cometido por um desconhecido de 18 anos, fez a França esquecer a pandemia e envolver-se numa eloquente campanha de apoio aos seus professores.

Samuel Paty, 47 anos, casado, pai de um menino de 5 anos, "mártir da República" como lhe chamou o jornal Libération. Mudara-se recentemente para Conflans-Saint Honorine (50 quilómetros a noroeste de Paris), vindo de Créteil, para acompanhar a mudança de trabalho da mulher. Este era, pois, o seu primeiro ano letivo no colégio de Bois-D'Aulne, um bairro residencial agradável, semelhante a tantos outros. Na passada sexta-feira, antecipando a pausa letiva de duas semanas habitual em França nesta altura (as chamadas "férias de Todos-os-Santos"), pediu aos alunos (na faixa etária dos 13 e 14 anos) que se cuidassem e despediu-se até ao regresso às aulas. Ninguém esperaria que essa despedida fosse, afinal, definitiva.

Nessa última aula, testemunham agora os alunos, Samuel Paty falara-lhes das desigualdades sociais do mundo atual e estabelecera paralelismos com a época da Segunda Guerra Mundial. No tom vibrante que, reconhecem, lhe era característico. "Era uma pessoa sorridente e alegre, próxima dos alunos e orgulhoso deles. Sempre nos estimulava a fazer melhor", dizia no sábado à France Press uma aluna de 14 anos. "Era um professor que nos dava vontade de aprender", dizia outro. "Mesmo os que não gostavam da escola, com ele eram mais atentos." No Twitter, as qualidades de Monsieur Paty (como lhe chamavam os alunos) são ainda evocadas por muitos que com ele se cruzaram, como este antigo colega de faculdade: "Estou destruído. Samuel Paty foi meu colega de formatura. Era um estudante brilhante, um superprofessor, um homem de diálogo. Citarei o teu nome e o teu exemplo, camarada, a todos que queiram ainda exercer essa linda profissão." Também não faltam os testemunhos dos pais dos antigos alunos que lhe exaltam a humanidade e a simpatia: "Samuel Paty foi professor do meu filho no ano passado. Era uma pessoa muito afável e envolvida no que fazia."

Professor de História, Geografia e Educação Cívica, dava grande ênfase ao desenvolvimento do espírito crítico dos jovens. Um antigo aluno lembrou, em declarações à RTL, que, nas suas aulas, "os debates eram uma prática corrente, numa tentativa de envolver os alunos na abordagem dos temas." No princípio de outubro, o tema em discussão era a liberdade de expressão e a laicidade enquanto pilares da República Francesa, cumprindo, aliás, o estabelecido pelo programa da disciplina para aquele nível de ensino.

Como já fizera em outras ocasiões, nos últimos anos, levara para a sala de aula uma caricatura de Maomé, publicada no jornal Charlie Hebdo, permitindo, no entanto, aos alunos muçulmanos abandonarem a sala se isso, de algum modo, lhes ferisse suscetibilidades. De acordo com o que testemunhou a turma, uns saíram, outros não. Mas não tardaram a surgir reações desagradáveis: O pai de uma aluna de 13 anos convocou os restantes encarregados de educação numa ação coletiva contra o professor, acusando-o de ter mostrado na sala de aula a "imagem de um homem nu", alegando tratar-se do "profeta muçulmano". Como se não bastasse, iniciou uma campanha de ódio nas redes sociais que não tardou a ganhar adeptos, muitos dos quais totalmente alheios àquela escola e ao que nela se passa. Ao sentir-se difamado, Paty foi aconselhado pela inspeção escolar a apresentar queixa às autoridades, o que efetivamente fez, alegando que a aluna em causa nem sequer teria estado na aula em que tudo se desenrolara.

Mas o caso não ficaria por aqui. Sentindo-se ameaçado não apenas na manutenção do seu posto de trabalho, mas na sua própria segurança, Paty, que habitualmente percorria a pé o percurso entre a escola e a sua residência, passou a fazer um caminho mais frequentado do que o usado até então. De nada lhe valeu. Foi executado em pleno dia, na via pública, a 300 metros da escola onde ensinava. Ao reagir a estes acontecimentos, o ministro da Educação, Jean Michel Blanquier, não teve dúvidas em declarar que o professor fora "morto por estar ao serviço da República e por encarar o saber e o ensino como atitudes essenciais ao espírito crítico." Esta morte "é um ataque contra a República porque a escola é a coluna vertebral do regime."

O professor receberá, a título póstumo, a mais alta distinção francesa, a Legião de Honra, anunciou esta terça-feira o ministro da Educação.

O ambiente de guerrilha psicológica existente em muitas escolas francesas há muito que vinha a ser denunciado das mais diversas formas. Em 2008, o filme de Jean-Paul Lilienfeld O Dia da Saia mostrou uma professora de Francês (interpretada por Isabelle Adjani) levada ao limite pela violência e a hostilidade dos alunos e seus pais, com destaque para os muçulmanos que lhe censuram o uso de saia na sala de aula. Um dia, descobre que um dos alunos vai armado para a escola e a tragédia acontece. A atriz ganhou o César de melhor interpretação mas o filme causou um choque considerável na sociedade francesa. Sete anos antes do atentado contra o Charlie Hebdo.

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