Frio favorece contágios? Não se sabe, mas os espaços fechados sim

O inverno está a chegar e com o mau tempo as pessoas tendem a ficar dentro de portas. E é um facto comprovado que os espaços confinados ajudam aos contágios.

A tempestade Bárbara trouxe consigo a chuva, o vento forte e uma descida da temperatura que vão prolongar-se, embora talvez com menos severidade, pelo resto da semana, a lembrar que o inverno está à porta. Desta vez, porém, a chegada dos meses com a meteorologia mais severa trazem consigo uma nova incerteza. Será que o tempo frio e chuvoso vai favorecer de alguma forma os contágios e agravar a pandemia de covid-19? A resposta não é linear. Desde logo porque sendo este um novo vírus, que nem há um ano surgiu, há muito que se desconhece ainda sobre ele e sobre o seu comportamento.

Por isso, António Morais, professor e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e atual presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, não tem dúvidas: neste momento "é impossível responder a essa questão". O especialista não descarta, no entanto, que essa seja uma possibilidade bem real.

"Em relação a outros vírus, como o da gripe, sabemos que há mais contágios no inverno, embora não se saiba exatamente porque é assim", afirma António Morais, sublinhando que existem "várias hipóteses para o explicar isso".

Entre elas estão o facto de nos meses de inverno as pessoas estarem mais próximas entre si em espaços fechados, o que favorece os contágios, a possibilidade de o frio constituir uma agressão ao sistema respiratório, criando as condições favoráveis a infeções, ou ainda de contribuir para uma maior fragilidade do sistema imunitário. Ou tudo isso junto. Mas se o mesmo vai acontecer em relação ao coronavírus é ainda uma incerteza.

"Não sabemos", resume António Morais. "Não há estudos, que eu conheça, que mostrem de forma definitiva uma influência das condições climatéricas na propagação do coronavírus." No entanto, admite, essa é uma possibilidade muito concreta, e por isso não pode ser descartada.

"Os condicionalismos que parecem favorecer os outros vírus no inverno, como acontece com o da gripe, também poderão facilitar a propagação do SARS-CoV-2", nota António Morais. Ou seja, todo o cuidado é pouco. "É mais um motivo para reforçar as medidas para prevenir os contágios, com o uso de máscaras, o distanciamento social e a lavagem frequente das mãos", enfatiza.

A mesma preocupação tem Pedro Simas, investigador do Instituto de Medicina Molecular- João Lobo Antunes (IMM) da Universidade de Lisboa (UL). O virologista estima que os próximos meses de inverno podem favorecer os contágios de covid-19 - mas não tanto por causa das condições climatéricas em si mesmas.

"Claro que há menos raios ultravioletas e mais humidade no ar, que favorecem a disseminação do vírus, mas não é isso que é dominante para os contágios", explica Pedro Simas. "O que é dominante", sublinha, "é que durante os meses mais frios e chuvosos as pessoas estão em maior número, e durante mais tempo, em espaços fechados, e isso favorece os contágios."

Por outro lado, nota, "como estamos numa situação pandémica e há muitas pessoas suscetíveis, há naturalmente mais contágios entre as pessoas se elas estiverem mais próximas umas das outras".

O principal fator nesta situação "são, portanto, as pessoas", resume o especialista, alertando para a necessidade do cumprimento das medidas já conhecidas de todos, que ajudam a prevenir o contágio: usar máscara, manter o distanciamento recomendado em relação aos outros e lavar as mãos com frequência.

"Nesta fase, em que os contágios estão a aumentar, isso é ainda mais importante, para conseguirmos atingir uma situação de planalto, com um número médio de novos casos que permita ao Serviço Nacional de Saúde aguentar a pressão sem entrar em rutura", alerta o virologista. "Espero que não cheguemos a números da ordem dos três mil novos casos por dia."

E mais a gripe

De resto, esta é também a época em que anualmente chegam as gripes, e essa é mais uma preocupação a somar à situação já de si difícil, sobretudo se as duas epidemias se conjugarem com números altos de doentes."Se tivermos uma época de gripe intensa, complica-se tudo", antecipa António Morais.

"O principal risco", estima, "é que o Serviço Nacional de Saúde não consiga dar resposta à situação."

As contas da covid-19, só por si, são já uma preocupação. "Neste momento já estamos com mais de mil internados, dos quais 165 em cuidados intensivos, e estamos em fase de crescimento do número de infetados. Os recursos em situação de crise poderão ser aumentados, mas não são ilimitados, por isso poderemos chegar a uma situação de rutura, se as coisas se complicarem ainda mais", antecipa António Morais.

O inverno que agora findou no hemisfério sul deixa no entanto alguma esperança sobre o que poderá passar-se agora com a gripe nos países do hemisfério norte.

"A época de gripe, que acontece sempre primeiro no hemisfério sul, foi pouco intensa, o que ficou provavelmente a dever-se às medidas para travar a propagação da covid-19, já que elas previnem igualmente os contágios na gripe", estima o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

Poderá ser um bom prenúncio para o que aí vem, nomeadamente na Europa, se as populações cumprirem as medidas necessárias.

"É muito importante que as pessoas percebam que esta é uma altura exigente e que temos de travar os contágios de covid-19", alerta António Morais. Se isso não acontecer, diz, "será preciso tomar medidas mais drásticas de confinamento, que serão muito complicadas, tanto do ponto de vista económico, como social e até emocional", conclui.

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