"Quando avisamos que não podem continuar a fazer a vida como faziam, alguns levam a mal"

As aldeias do interior estão a adaptar-se lentamente ao estado de emergência. As mercearias não têm mãos a medir. E de repente chegam da cidade e dos países estrangeiros milhares de pessoas que se passeiam "como se nada fosse". E esses são difíceis de "monitorizar", como disse ao DN a presidente da Câmara de Castanheira de Pera.

Aos primeiros sinais do covid-19 no país, Dina Silva e o marido, Rui Cavalheiro, começaram a ter cuidados redobrados. O casal vive na aldeia de Pia Furada, na freguesia de Santiago da Guarda, concelho de Ansião, interior norte do distrito de Leiria. Ali moram menos de 80 pessoas. E, à medida que começou a alertar pais, familiares e vizinhos, percebeu que esta iria ser uma luta dura.

"O problema é que, quando avisamos as pessoas de que não podem continuar a fazer a vida como faziam, algumas levam a mal", diz ao DN Dina Silva. É professora de Filosofia, mas neste ano já estava "forçosamente" em casa, por falta de colocação. Os pais fazem parte de um grupo de risco, não apenas por causa da idade, mas também por causa de outros problemas de saúde associados. De modo que é ela (ou o marido) quem faz as compras, num minimercado da sede de freguesia.

No dia em que foi decretado o estado de emergência em Portugal, Rui Cavalheiro já tinha ido às compras para os próximos dias. Ao DN, enalteceu "a forma como as pessoas das mercearias e dos pequenos minimercados estão a organizar-se, evitando que entrem mais do que duas pessoas ao mesmo tempo, por exemplo". Mas, ao contrário, ele a mulher olham com preocupação para o retrato da aldeia: no sábado, quando o país já se encontrava em estado de alerta, havia grupos com mais de dez pessoas a semear batatas e a reservar mesas nos restaurantes da região, nessa altura ainda abertos.

"As pessoas podem e devem continuar a tratar das hortas, na minha opinião. Mas têm de perceber que não podem andar em grupo, como faziam antes", sublinha Dina. O mesmo é válido para quando chega o padeiro ou o peixeiro, tradicionalmente momentos de convívio social nas aldeias.

Além desses registos, há um cenário que também preocupa os habitantes mais conscientes: o regresso de centenas de emigrantes reformados, que nestes primeiros meses do ano se deslocaram a França para fazer as habituais consultas médicas, e regressaram entretanto sem preservar qualquer quarentena. Falta ainda um outro grupo, o dos homens ainda jovens, a maioria camionistas, entretanto regressados de países como Espanha, França ou Itália, e que no fim de semana se juntaram às famílias nesses trabalhos agrícolas de grupo. De resto, não foram só esses. De outras regiões do país foram chegando centenas de pessoas às aldeias, nos últimos dias.

O interior do país tornou-se o refúgio perfeito para muitos dos que ali nasceram e possuem casa. Nos últimos dias, concelhos como Pedrógão Grande, Castanheira de Pera ou Figueiró dos Vinhos registam a presença de "inúmeros estrangeiros, que se passeiam pelas vilas como se nada fosse", contou ao DN uma comerciante de Figueiró dos Vinhos que prefere não ser identificada. "São as poucas esplanadas cheias, a maioria com ingleses, mas também muita gente que mora em Lisboa e que decidiu vir para cá estes dias. Não há mal nenhum nisso, desde que ficassem em casa", conclui.

Na aldeia do Nodeirinho - que ficou conhecida de todo o país nos incêndios de 2017 -, o pintor João Viola e a mulher, Dina Duarte, estão também em casa. Ele foi dispensado nesta quinta-feira pelos serviços da Câmara de Pedrógão Grande, onde trabalha como jardineiro, ela estava já de baixa médica. Ali moram agora "umas 35 pessoas, no máximo", mas João Viola acredita que todas perceberam a gravidade do caso. "As pessoas conversam, mas de uma casa para a outra, vão tratar das suas hortas mas sozinhas ou só acompanhadas de uma pessoa", conta ao DN este morador, que dali avista "muito menos movimento no IC8, onde praticamente só passam carros pesados, quase não há carros ligeiros".

Há, no entanto, uma preocupação: os idosos em isolamento. O pintor acredita que estão a ser acompanhados, pois que a assistente social da câmara fez já esse levantamento. E uma tristeza pessoal invade-o também: "Custou-me muito despedir-me da minha mãe no lar, na semana passada. Passei lá e só pude vê-la através de um vidro. Não sei se volto a vê-la com vida, mas também nenhum de nós sabe para o que está guardado."

A presidente da Câmara de Castanheira de Pera privilegiou a comunicação escrita, em flyers, à moda antiga, com a indicação de um número quer está disponível "24 horas, todos os dias, numa articulação de todos os serviços coordenados pela Proteção Civil". Num concelho onde habitualmente moram pouco mais de três mil habitantes, Alda Correia sabe que a maioria são idosos. E, por isso, ela própria tem passado pelas aldeias numa sensibilização "porta-a-porta". "Acho que as pessoas estão a perceber. Não temos visto aglomerados, também porque já somos um concelho muito desertificado. O que nos preocupa mesmo são as pessoas em situação de isolamento", afirma ao DN. Porém, há outra preocupação no horizonte: "Enquanto os residentes nós conseguimos monitorizar, suspendemos as consultas presenciais no centro de saúde e estão a ser feitas por telefone ou ao domicílio, começaram a chegar ao concelho muitos naturais daqui, mas que habitualmente residem em Lisboa ou no estrangeiro. E esses nós não conseguimos monitorizar."

Enfrentar um inimigo invisível

"O vírus é invisível e as pessoas não conseguem perceber o perigo", sublinha Dina. É o que pensa também Sofia Marques, enfermeira, cujos pais moram numa aldeia do litoral centro, próximo da freguesia do Carriço, entre os concelhos de Pombal e Figueira da Foz. Na quarta-feira (18 de março), foi ali conhecido o primeiro caso de covid-19 (um homem de 63 anos, internado no Hospital Distrital da Figueira da Foz), e já na quinta soube-se que a mãe, de 94 anos, entretanto falecida, também estava infetada. Foi a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, quem o confirmou na conferência de imprensa de ontem (19 de março).

Por esta altura, dezenas de pessoas estão sob vigilância das autoridades de saúde, que entretanto determinaram o encerramento de pelo menos três estabelecimentos comerciais por onde o doente passou nos últimos dias e onde conviveu com várias pessoas - dois cafés e uma pastelaria.

"Talvez desta maneira as pessoas percebam a gravidade", acrescenta Sofia, que a partir de Lisboa vai falando com os pais ao telefone, todos os dias, recomendando que se mantenham em casa e só saiam quando estritamente necessário.

Na verdade, muitos acabaram por fazê-lo compulsivamente, à medida que os cafés e bares das coletividades foram fechando, e onde habitualmente jogavam cartas todas as tardes.

Sem missa nem futebol, um "tratamento de choque"

Quando a pequena Alice nasceu, a 6 de fevereiro, o fantasma do novo coronavírus ainda não pairava sobre a aldeia da Pelariga, no concelho de Pombal. Ricardo Silva, o pai, bancário de profissão e treinador de futebol bem conhecido na região, não julgava ver-se obrigado a qualquer "plano de contingência". "Era uma coisa longínqua e, sinceramente, acho que não julgávamos que chegasse aqui", conta Ricardo ao DN, dias depois de ter imposto uma das regras que mais lhe custaram na vida - "impor aos avós que não a visitassem, nem ao resto da família, para nos protegermos uns aos outros".

A ameaça do covid-19 acabou por alterar toda a rotina deste casal na casa dos 30 anos, assim como das famílias de ambos. Todos os dias faziam as refeições em conjunto com os sogros, como de resto tantas vezes acontece nas aldeias. "Isso acabou." Os sogros são proprietários do minimercado local, que por estes dias não tem mãos a medir.

Maria Edite Moreira (avó da bebé Alice), 61 anos, ainda está a adaptar-se a este novo tempo. Durante o fim de semana decidiu aplicar o seu próprio plano de contingência naquele estabelecimento comercial, com a ajuda da família. "Montámos um balcão à entrada, à moda antiga, e começámos nós a aviar as pessoas". Mas rapidamente Edite percebeu que não seria viável. "Eu não conseguia ir buscar as coisas e fazer a conta e atender toda a gente. Então decidimos que entravam duas pessoas de cada vez, e tem corrido bem", conta ao DN. O marido, mais receoso da doença, decidiu ficar em casa. O casal montou este negócio há 37 anos e dali fez a vida. Habituada a ser ajuda múltipla para muitos habitantes, Edite diz que "não conseguia virar as costas às pessoas numa altura destas". Para mais, ganhou muitos novos clientes nos últimos dias. "São pessoas que moram nas aldeias à volta e que não querem ir à cidade enfiar-se nos grandes supermercados, e decidiram vir aqui. A minha preocupação é ter produtos para tanta gente", sublinha Edite Moreira, que nesta semana já começou a sentir a dificuldade dos fornecedores em fazer-lhe chegar mercadorias. "Eles não têm mãos a medir. Ontem teve de ser o meu marido a ir lá buscar."

Na aldeia da Pelariga mantinha-se ainda aberto um café e o talho, este último só durante a manhã. Ricardo Silva, que por estes dias goza ainda da licença parental, considera que o grande "efeito de choque" aconteceu no domingo: "Quando as pessoas perceberam que não havia missa [umas] e que não havia futebol [outras]. Numa terra tão bairrista e tão dedicada ao futebol, foi quando lhes caiu a ficha."

Mais Notícias

Outras Notícias GMG