Beto aplaude suspensão da liga turca. "Estivemos demasiado expostos. A preocupação era grande"

O campeonato da Turquia só foi suspenso nesta quinta-feira. O guarda-redes português e capitão do Goztepe conta como foram estas duas últimas semanas de angústia e como os capitães de equipa ajudaram a sensibilizar a federação para o futebol no país para os riscos do covid-19.

A Turquia demorou a tomar uma decisão e só nesta quinta-feira a federação e o governo ordenaram a suspensão dos campeonatos profissionais de futebol, cujos jogos até aqui estavam a ser realizados à porta fechada. Mas nas últimas semanas, quando a modalidade já estava parada em praticamente toda a Europa, os futebolistas andaram a treinar e a jogar, contrariados e preocupados com a saúde, numa altura em que as notícias da propagação do covid-19 eram cada vez mais alarmantes. Só na I liga turca alinham 13 jogadores portugueses e todos eles respiram agora de alívio por finalmente a suspensão ter sido decretada.

Beto, guarda-redes internacional português do Goztepe, foi voz ativa nas reuniões que se desenrolavam há mais de uma semana entre os capitães de equipa de todos os clubes. Foi criado um grupo de WhatsApp entre todos os capitães em que eram debatidas as preocupações generalizadas de todos, que posteriormente eram passadas à federação turca, que nesta quinta-feira tomou finalmente a decisão

"Foram duas semanas de muita preocupação, obviamente que as conversas no balneário e em casa iam dar todas ao mesmo, todos preocupados com o covid-19 e com o aumento brutal de casos em toda a Europa. Com angústia e preocupação, independentemente de não existirem muitos casos no país. Mas estávamos todos angustiados com as notícias que recebíamos de outros países, inclusivamente de Portugal. Depois era todo o risco que nós jogadores de futebol estávamos a correr cada vez que entrávamos nas instalações do clube, num campo, quando fazíamos uma viagem de avião ou íamos para um hotel. Todos estes riscos eram preocupantes. Mas eram as ordens que tínhamos e tivemos de aguentar, sob pena de termos consequências e represálias. Estivemos demasiado expostos e a preocupação era grande", contou ao DN.

Beto garante que nas conversas via WhatsApp com os colegas de outras equipas, neste caso os capitães, "este receio era um sentimento generalizado". "O que nós capitães de equipa tentámos fazer foi sensibilizar a federação e transmitir à FIFPro a situação que estávamos a viver. Finalmente nesta quinta-feira a federação aceitou e compreendeu a nossa preocupação, apesar de a decisão de suspender o campeonato ter pecado por tardia", aponta. O guarda-redes português acrescentou que nas conversas de WhatsApp com os outros capitães "todos expressaram vontade de parar o campeonato devido à imensa exposição e ao perigo de contágio".

O guarda-redes do Goztepe garante que, apesar de toda a preocupação, "nunca foram discutidas medidas radicais ou drásticas por parte dos jogadores". "Há dois dias, por exemplo, quando ainda não havia indicações de que o futebol ia parar, houve uma maior insistência da nossa parte para pararem os campeonatos, com o intuito de sensibilizar ainda mais todas as instituições competentes e com poder de decisão. Foi isso que tentámos fazer, sensibilizar a federação, o ministro do Desporto, da Saúde, porque foi realmente uma exposição muito grande a que estivemos sujeitos. Felizmente, apesar de tardia, a federação ouviu-nos e decidiu nesta quinta-feira suspender o campeonato. Era a única decisão possível", contou.

Apesar de a Turquia registar números ainda longe de alguns países europeus (até ao momento duas mortes e cerca de 200 casos de infetados), Beto diz que já há várias semanas tomou medidas de precaução dentro das suas limitações: "A minha vida baseava-se em confinamento. Tinha de sair para ir treinar e depois voltava para casa. A minha família desde que esta situação tomou estas proporções, mesmo antes de soarem os alarmes e serem decretados estados de emergência, tanto em Portugal como no país da minha mulher, em Espanha, resolvemos estar isolados, porque isto é quase protolocar. Sair o menos possível foi o que fizemos durante estas duas últimas semanas."

Beto diz que nesta quinta-feira sentiu o povo turco mais consciente do real problema da covid-19. "Como os casos dispararam de 49 para 200, as pessoas começaram a abrir os olhos para esta triste realidade. Erdogan [presidente da Turquia] falou ao país e, apesar de não ter sido decretada quarentena, as pessoas foram aconselhadas a ficar em casa, fecharam bares e restaurantes. E depois, a partir do momento que param o futebol, então é porque de facto algo de muito grave se passa. Aqui a paixão pelo futebol é uma loucura. Fechar um restaurante ou um cabeleireiro até podem entender, agora o futebol é porque de facto algo de grave se passa."

Do apelo de Terim à rescisão de Obi Mikel

A revolta e a preocupação eram tão grandes pelo facto de o campeonato não ser suspenso, que Fatih Terim, treinador do Galatasaray e uma das maiores figuras do futebol turco, chegou mesmo a fazer um apelo desesperado. "Que declarem campeã a equipa que quiserem, mas nós não podemos continuar a jogar", atirou, anunciando ao mesmo tempo que tinha dado ordens aos seus jogadores para não saírem de casa para treinar. Também Radamel Falcao, figura do Galatasaray e ex-jogador do FC Porto, defendeu em várias ocasiões que a liga devia ser suspensa.

O caso mais radical foi protagonizado por Obi Mikel, jogador nigeriano do Trabzonspor, líder do campeonato e colega de equipa do português João Pereira, que decidiu rescindir o seu contrato. "A vida antes do futebol. Não estou tranquilo e não quero continuar a jogar nesta situação. Todos deveriam estar nas suas casas com as suas famílias num momento tão crítico como este. A época deveria ser cancelada, já que o mundo enfrenta uma situação muito turbulenta", referiu o jogador de 32 anos.

Durante este período, o presidente do Trabzonspor fez uma das declarações mais surpreendentes, chegando mesmo a brincar com a situação. "Se suspenderem o campeonato, num mês não vai haver advogados em toda a Turquia por causa dos divórcios que vão existir", atirou, deixando ainda a sua opinião relativamente à possibilidade de o campeonato ser cancelado: "Bem, nós somos líderes do campeonato. Se parar de vez, então devemos ser declarados campeões."

Nsta quinta-feira, ao início da tarde, finalmente o futebol parou na Turquia, quando várias equipas já estavam a preparar-se para entrar em campo nesta sexta-feira. "Analisámos a situação com os presidentes das várias federações desportivas e foi decidido adiar todas as ligas", anunciou Mehmet Kasapoglu, ministro da Juventude e do Desporto na Turquia, em conferência de imprensa. A data para que as competições sejam retomadas será conhecida "assim que a situação estiver controlada", anunciou por seu turno o presidente da Federação Turca de Futebol, Nihat Özdemir.

João Pereira (Trabzonspor), Pedro Rebocho (Besiktas), Marafona (Alanyaspor), Beto e Castro (Goztepe), André Sousa (Gazisehir), Tiago Lopes (Denizlispor), Ricardo Quaresma e Jorge Fernandes (Kasimpasa) Ivanildo Fernandes (Rizespor) Tiago Pinto (Ankaragücü), Candeias (Gençlerbirligi) e Miguel Lopes (Kayserispor) são os jogadores portugueses que alinham no escalão máximo do futebol turco. Na II Liga há também mais de uma dezena de jogadores portugueses espalhados por vários clubes.

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