Pandemia põe em xeque 20% do investimento estrangeiro em Portugal

Dos 158 projetos de investimento anunciados em Portugal, cerca de 32 irão ser adiados ou nem sequer irão sair do papel devido à crise pandémica de covid-19.

Cerca de 20% dos projetos de investimento direto estrangeiro (IDE) anunciados em Portugal vão ser afetados pelos efeitos provocados pela epidemia. A estimativa é de um estudo da consultora EY que antecipa que dos 158 projetos anunciados, 32 "podem estar em risco de serem adiados, fortemente ajustados ou cancelados". Ainda assim, "em Portugal, o impacto esperado deverá ser menos severo" do que a média europeia que aponta para o adiamento ou cancelamento de 35% dos projetos de IDE anunciados. Os setores mais afetados são os que já sofrem um maior impacto da crise, incluindo o do Turismo, Imobiliário, Construção e Automóvel.

Ao todo, foram anunciados 158 de IDE em Portugal em 2019, que representam 12.549 novos postos de trabalho, número que mais do que duplicou em relação ao ano anterior, de 6.100 empregos. Em 2018, o número de projetos atingiu os 74.

O ano de 2019 foi um ano recorde para Portugal em matéria de anúncios de IDE. O país foi a oitava economia da União Europeia mais atrativa para os investidores estrangeiros. "A sua performance recorde traduziu-se numa fatia de 2,5% do volume total de IDE em toda a Europa (1,2% no ano anterior), permitindo a Portugal escalar seis posições no ranking das economias europeias mais atrativas (17.º lugar para o 11.º posto)", segundo o estudo "EY Attractiveness Survey Portugal 2020". Este estudo avalia anualmente a perceção dos investidores estrangeiros relativamente à atratividade do País enquanto destino de IDE.

"Trata-se de uma performance muito positiva que, como acontece a nível global, deverá ser afetada pelos efeitos da Covid-19. Na verdade, por toda a Europa, já se sente o impacto imediato da pandemia nos projetos de IDE - apesar de em menor grau do que o esperado para os novos projetos planeados para 2020", alertou.

Em 2019, Portugal foi a oitava economia da União Europeia mais atrativa para os investidores estrangeiros

A EY avisou que "não obstante a resiliência de curto-prazo do IDE, importa ter em consideração que o país enfrenta um período excecional de grande incerteza, estando ainda por perceber qual será o efetivo impacto que a crise terá assim como o nível de recessão que o país virá a atravessar". "Esta realidade naturalmente terá um impacto negativo no IDE que se estenderá para além do curto-prazo", alertou.

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, destacou, num artigo publicado no estudo da EY, que a análise "reflete a desagregação atual de 68% dos projetos de IDE em Portugal originários da Europa e 32% no resto do mundo, comparado a 80% e 20%, respectivamente, em 2018".

Garantiu que "o governo continuará a investir em educação e formação, tecnologia e inovação, na simplificação do ambiente de negócios e no exposição internacional da economia, seja através de exportações ou através da atração de investimentos". Mas não endereçou o tema de uma possível baixa de impostos, pedida pelos investidores.

Frisou que, "em 2019, novos recordes foram alcançados com mais de 1.100 milhões de euros de investimento contratados pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, correspondente à criação de mais de 7.200 empregos". Acrescentou que "o governo tem vindo a trabalhar na diversificação da origem geográfica dos investidores, os setores em que eles investir e as regiões onde eles optam por localizar" para "promover um crescimento económico equilibrado, baseado sobre a criação de empregos qualificados, o valor agregado nacional e maior coesão territorial".

Miguel Farinha, partner da EY Portugal e responsável pela área de Srategy and Transactions considera que "a economia portuguesa também beneficia de ativos sólidos, incluindo a robusta e sólida infraestrutura digital ou uma força de trabalho qualificada e adaptável, o que tenderá a promover a resiliência destes setores de atividade mesmo em cenário de crise".

Para manter em alta a capacidade de atrair investidores estrangeiros Florbela Lima, partner da EY Portugal, frisou, citada num comunicado sobre o estudo, que "há que manter o investimento na inovação e na indústria tecnológica, apostando no desenvolvimento da educação e das competências e, simultaneamente, oferecendo um enquadramento tributário mais amigo do investimento".

2019 foi "marco histórico"

"Num ano marcado pela incerteza e pela escalada de tensão nas trocas comerciais mundiais, Portugal conseguiu diversificar a origem do IDE e atrair geografias altamente qualificadas", destacou a EY no estudo. Frisa que o número de projetos de IDE provenientes de outros países europeus subiu de 59 para 108, "mas a proporção do investimento europeu caiu de 80% para 68%, uma vez que a economia nacional conseguiu atrair o triplo do número de projetos com origem em geografias não europeias (de 15 para 50 projetos)".

Os Estados Unidos tornaram-se, em 2019, no maior investidor em território português, com 26 projetos anunciados, seguido pela Alemanha, com 22 projetos, e França, com 21. "Uma nota também para o Reino Unido que mais do que duplicou o número de projetos de investimento em Portugal, de seis, em 2018, para 15, no ano seguinte", disse a EY.

O ano foi marcado por um crescimento generalizado, em que nenhum setor de atividade observou uma quebra nas intenções de investimento estrangeiro. Mas a área do Digital reforçou a sua posição de liderança em termos de atratividade, praticamente triplicando os projetos, de 15 para 42, tendo aumentado significativamente o número de empregos criados, que passaram de 1.610 para 3.766. Segundo o estudo, "o setor da Fabricação e Fornecimento de Equipamento de Transporte também cimentou o investimento estrangeiro (31 projetos e 4.148 postos de trabalho), com os Serviços Empresariais a ultrapassarem o setor Agroalimentar e passando a ocupar a terceira posição no ranking dos setores de atividade que mais projetos de IDE atraíram em 2019".

"Combinados, estes três setores representam mais de metade dos projetos anunciados (59%) e 73% dos empregos criados", destacou.

Por regiões, Lisboa foi a que mais IDE atraiu no ano passado, num total de 62 projetos, face a 32 na edição anterior, correspondendo a 4.090 novos postos de trabalho, sobretudo nos setores do Digital e dos Serviços Empresariais. O Norte do País destacou-se pelo número de empregos criados: 5.722 novos postos de trabalho em 51 projetos de investimento angariados para a região, que compara com 27 em 2018, sobretudo nos setores de Fabricação e Fornecimento de Equipamento de Transporte e Digital. A região Centro ocupou o terceiro lugar, atraindo 26 projetos, contra 21, no ano anterior, responsáveis por 1.518 empregos.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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