Bebiana Cunha: "Os bombeiros aconselharam que se retirassem os animais, mas a GNR considerou que não havia perigo"

Incêndio que deflagrou na sexta-feira em Sobrado, Valongo, e alastrou-se no sábado a Agrela, em Santo Tirso, atingiu um abrigo de animais. A proprietária não autorizou a entrada de quem se juntou no local para resgatar os animais e a GNR impediu o acesso. Resultado: 54 animais morreram, nas contas da Câmara Municipal de Santo Tirso (mais de 100 segundo o PAN). Um que fosse, evitável, e teria sido de mais.

As imagens divulgadas nas redes sociais e nas televisões são chocantes. Corpos carbonizados de animais. Mais chocante é pensar que aquelas mortes poderiam ter sido evitadas. Mas impossível mesmo é entender o que poderá estar por detrás da decisão, de uma pessoa que aparentemente dedica a vida a acolher animais abandonados, de impedir que estes sejam salvos quando o fogo ameaça as suas vidas e há tanta gente disponível para ajudar.

Bebiana Cunha, deputada do PAN, que desde cerca das 21h00 deste sábado esteve junto do abrigo de animais palco desta tragédia, partilha a estranheza e incompreensão.

"Foi muito estranho estar um conjunto substancial de pessoas disponíveis para prestar cuidados médico-veterinários, para retirar e resgatar os animais e até associações disponíveis para os levar para um abrigo e o entendimento ser que aquelas pessoas queriam invadir propriedade privada. De um lado os que queriam salvar os animais e do outro uma barreira da GNR a proteger o acesso, porque a proprietária não o autorizava. Foi mesmo uma imagem muito estranha, quando lá dentro estavam animais a morrer, a sofrer devido às feridas por pisarem terreno queimado, em agonia por inalarem o fumo. Estranho e incompreensível como este tipo de decisões é tomado de forma tão leviana e sem ter em conta aquela que é a nossa responsabilidade para com os animais, que são seres sencientes e sensíveis", diz a deputada ao DN, domingo à tarde, após a tragédia.

Sobre a decisão da proprietária, a quem várias pessoas tentaram chamar à razão, segundo Bebiana Cunha, a deputada atribui-a a problemas de saúde mental e emocional: "A questão prende-se com a acumulação, neste caso de animais. Estamos a falar de alguém que também precisa de acompanhamento psicológico urgente, são pessoas que, tendo uma boa intenção, de facto chegaram a um momento em que ultrapassaram completamente o limite e desenvolvem a ideia de posse e de que só elas cuidam bem daqueles de quem são proprietárias".

Mas isto, de acordo com a deputada do PAN não desresponsabiliza nem a GNR -- que perante a recusa das proprietárias "deveria ter procurado obter um mandado judicial por via do magistrado de turno que permitisse a entrada dos próprios ou de qualquer uma das associações que se deslocaram ao local" -- nem a autarquia -- que, "tendo conhecimento destes abrigos na Serra da Agrela e sabendo que aquele era um lugar onde muita gente ia abandonar animais, nunca fez nada para evitar ou reverter isso e, perante esta situação de perigo para a vida dos animais, o médico veterinário municipal e os responsáveis políticos, no nosso entendimento, demitiram-se das suas funções de os salvar", afirma ao DN a eleita pelo Partido-Animais-Natureza.

Direito dos animais à vida ou direito de propriedade?

Para quem estava do lado de fora do abrigo, com o objetivo de regatar os animais, era óbvio que o direito dos animais à vida se sobrepunha ao direito de propriedade, mas não foi esse o entendimento da GNR, de acordo com Bebiana Cunha.

"Estivemos no local a conversar com o comandante nesse sentido, mas a interpretação dele era que, como a autoridade concelhia veterinária, o médico veterinário municipal, terá dito, segundo ele nos transmitiu, que não havia risco para os animais, ele levou isso à letra e foi mais importante salvaguardar o direito de propriedade do que salvar a vida de um animal. Estivemos a contra-argumentar durante bastante tempo, mas não o conseguimos demover", conta a deputada.

Num comunicado emitido ontem, dia 19 de julho, a Guarda Nacional Republicana diz, pelo contrário, que
enquanto o incêndio deflagrava, ainda durante a tarde de sábado, a ação da GNR foi essencial para permitir que tivessem sido resgatados, com vida, a maior parte dos cães, lamentando, no entanto, que a dimensão do fogo e a grande concentração de animais no local tivessem impedido o resgate de todos os animais com vida.

Esclarece depois que "os bombeiros combateram o incêndio, conseguindo evitar que o espaço ardesse todo, havendo condições para que os restantes animais permanecessem no local até que se resolvesse a situação, sendo retirados apenas os animais feridos, por indicação do veterinário municipal". Fica no entanto pouco claro como é que tendo sido durante a tarde resgatados a maior parte dos cães com vida, só os feridos tenham sido retirados e os restantes tenham permanecido no local.

Ainda de acordo com o comunicado da GNR, e ao contrário do que conta Bebiana Cunha e todos quantos com ela estiveram no local, o impedimento de acesso ao terreno por parte de populares deu-se de madrugada, quando "a Guarda foi alertada [da tentativa de acesso] pela proprietária do terreno".

"Pelo facto de, àquela hora, já não existir urgência, uma vez que a situação estava já a ser tratada pelas entidades competentes e por se tratar de propriedade privada, os militares da Guarda impediram os populares de aceder ao espaço. Assim, é importante salientar que as consequências trágicas deste fogo não tiveram qualquer correspondência com o facto de a Guarda ter impedido o acesso ao local por parte dos populares. A essa hora, já tinham sido salvos os animais que foi possível salvar". lê-se no comunicado.

Deputada desmente GNR

Sobre este comunicado, a deputada do PAN não hesita: "há nele factos invocados que são falsos e vamos questioná-los através do ministro da Administração Interna, nomeadamente o número de animais salvo antes do incêndio e levados não se sabe para onde. Não percebemos qual é a ideia de estar a tentar alterar a realidade a que tanta gente assistiu", diz Bebiana Cunha, que acrescenta que, na noite de sábado, perante o argumento de que o incêndio estava controlado e os animais não estavam em risco, pediram uma avaliação aos bombeiros, depois de terem alertado para a probabilidade de um reacendimento do incêndio.

"Os bombeiros aconselharam que se retirassem os animais, estiveram sempre do nosso lado, cumprindo o seu lema de salvar vidas, mas infelizmente a GNR considerou que não havia perigo. Podemos dizer que estava errada porque horas depois houve um reacendimento dentro do próprio abrigo, que matou mais animais".

Na opinião da deputada, o infeliz desfecho do incêndio no abrigo de animais "Cantinho 4 Patas" deve-se a uma falha coletiva.

"O processo foi cheio de más decisões que levaram a mais de uma centena de animais que ficaram a agonizar e morreram carbonizados". Ter-se-ão salvo 60 a 80 animais, entre os 15 que foram retirados ao final da manhã para o canil municipal de Santo Tirso e os restantes que, da parte da tarde, graças à enorme pressão popular e das associações de defesa dos animais, acabou por ser permitido que saíssem".

A Câmara Municipal de Santo Tirso, em comunicado, avança números diferentes: 54 animais mortos, 110 resgatados com vida. Bebiana Cunha diz ter provas de que estes números não são verdadeiros e espera que desta tragédia resultem mudanças significativas nas políticas de proteção animal.

"Para nós era bastante claro que a lei que existe já permitia resolver estas questões, mas estes acontecimentos mostraram que é preciso aprofundá-la e o PAN dará entrada de uma proposta nesse sentido: o de que o direito de propriedade não pode sobrepor-se quando há necessidade de prestar auxílio a um animal. Esperamos que os outros partidos estejam disponíveis para nos acompanhar".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG