Crédito fácil fez mais vítimas em 2018

O número de famílias sobre-endividadas está a aumentar. Em 2018, chegaram à Deco 29 350 pedidos de ajuda, um aumento de 350 casos face ao ano anterior. Crédito pessoal e cartões de crédito estão por detrás da subida das dívidas.

Há mais famílias que não conseguem pagar todas as suas despesas: em 2018, 29 350 portugueses pediram ajuda ao Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado (GAS) da Deco. É um ligeiro aumento face aos 29 mil pedidos de apoio que foram feitos em 2017. O maior recurso ao crédito pessoal e cartões de crédito explica a tendência e a Deco prevê que o número de sobre-endividados continue a aumentar em Portugal. "Em 2019, vemos as pessoas a pedirem-nos ajuda relativamente a créditos contratados em 2018, sobretudo cartões de crédito", disse Natália Nunes, responsável do GAS ao DV.

Ao todo, a Deco interveio na renegociação de 2737 processos em 2018, acima dos 2422 processos renegociados em 2017.

Para a associação, este aumento de pedidos de ajuda não surpreende. "Já estávamos à espera, porque o recurso ao crédito continua a aumentar, mas os rendimentos das famílias não acompanham esse aumento", frisou a mesma responsável.

O montante médio de crédito pessoal das famílias que pediram ajuda à Deco disparou de 9500 euros em 2017 para 16 111 euros em 2018. O mesmo sucedeu no caso dos cartões de crédito que em 2017 se situava nos 4400 euros e em 2018 subiu para 7580 euros.

O crédito ao consumo está em níveis recorde e subiu 10% em 2018. Os portugueses pediram emprestado 7354 milhões de euros para consumo no ano passado. São 20 milhões de euros por dia de novo crédito ao consumo.

Segundo o Banco de Portugal, 5502 intermediários de crédito pediram autorização para operar no mercado português entre janeiro de 2018 e o dia 9 de fevereiro. Desses, 1710 foram autorizados.

"Espero um aumento na concessão de crédito, mas também é um sinal de que este mercado poderá estar prestes a saturar porque já é preciso "perseguir" os potenciais clientes", disse Filipe Garcia, economista da IMF-Informação de Mercados Financeiros. "A entrada de novos intermediários reforça esse ângulo. Os particulares sentem esta facilidade de obtenção de crédito, têm a noção de que a janela pode não ficar aberta para sempre e acabam por procurar mais crédito."

Limites aos bancos

A Deco defende que a recomendação do Banco de Portugal que sugere limites na concessão de crédito pelos bancos, devia passar a ser vinculativa.

"É preocupante termos pedidos de ajuda de pessoas com créditos contratados em 2018, incluindo crédito para a compra de casa", disse Natália Nunes.

O desemprego continua a ser a principal causa para o sobre-endividamento mas está em queda. A segunda causa é a deterioração das condições de trabalho, que mais do que duplicou em 2018. "Há emprego mas os salários são muito baixos. Agora não é o desemprego mas a precariedade que leva ao sobre-endividamento", apontou Natália Nunes.

Penhoras e divórcio são fatores que também contribuem. Também há novas causas para o excesso de contas a pagar, incluindo encargos com saúde, despesas com lares dos pais e a reforma antecipada.

"Se o desemprego começa a subir, vai ser o fim da picada", alertou o economista João Duque.

O aumento de pedidos de ajuda choca com dados do Banco de Portugal que apontam para uma descida do nível de incumprimento por parte das famílias. O rácio de crédito vencido no consumo era de 7,6% no final de dezembro, face a 8,4% em novembro. Na habitação, o mesmo rácio era de 2,2%, abaixo dos 2,6% no mês anterior.

Segundo o Banco de Portugal a explicação é simples: os bancos têm estado a vender carteiras de crédito malparado e, por isso, esses empréstimos vencidos já não constam dos números divulgados. "Os dados de incumprimento do Banco de Portugal não refletem a realidade. Podem esses créditos já não estar nos balanços dos bancos mas ainda estão nas famílias", afirmou Natália Nunes. "E há um problema. Quando os créditos estão nos bancos, há uma maior proteção legal para as famílias endividadas. Mas esses créditos foram vendidos a entidades que estão fora do sistema bancário. É muito mais difícil renegociar a dívida e não há o mesmo tipo de proteção legal para as famílias", alertou.

Pedir ajuda: como, quando e a quem

Existe uma rede de apoio ao consumidor endividado que inclui entidades como o Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado da Deco. Prestam informações sobre os direitos dos clientes em caso de incumprimento e como atuar perante casos de procedimento extrajudicial e de regularização de dívidas. Também prestam assistência, analisando as propostas apresentadas pelas entidades credoras. A lista de entidades está disponível na página da internet da Direção-Geral do Consumidor (www.consumidor.gov.pt).

Se já não se consegue pagar algum crédito, está na altura de recorrer a ajuda. Mas o ideal é prevenir. A começar por ter um orçamento mensal definido e apurar a taxa de esforço da família, somando as prestações dos créditos e dividindo o valor pelo rendimento disponível. Depois, multiplica o resultado por cem para saber qual a taxa de esforço, em termos percentuais. Se for superior a 35% é uma taxa elevada e precisa fazer mudanças no orçamento mensal.

Perfil do sobre-endividado

- Casado ou em união de facto

- Com idade entre os 40 e os 54 anos

- Trabalhador do setor privado

- Rendimento mensal de 1150 euros

- Prestações de 924 euros com créditos

- Taxa de esforço de 80% (70,8% em 2017)

- Cinco créditos contratados

Fonte: Gabinete da Apoio ao Sobre-endividado da Deco

ENTREVISTA

"A banca tem de ter critérios mais rigorosos para a concessão de crédito"

Natália Nunes, responsável do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado da Deco, fala ao Dinheiro Vivo

O que explica o aumento do número de sobre-endividados?

Os portugueses têm emprego, mas com menores rendimentos e maior precariedade. Há causas novas, como os encargos com saúde, negócios mal- sucedidos e apoio aos ascendentes, com os custos dos lares. A reforma antecipada também é uma causa pois nessas situações regista-se uma forte diminuição do rendimento. Temos mais famílias com mais sobre-endividamento.

Há perspetivas de uma inversão da tendência em 2019?

Pelo contrário. Vemos as pessoas a pedirem-nos ajuda relativamente a créditos contratados em 2018. Há sobretudo muitos cartões de crédito.

O que pode ser feito para mudar a situação?

Tem de haver da parte das famílias um maior critério, um maior controlo das suas finanças pessoais e da forma como estão a contratar créditos. E a banca tem de ter critérios mais rigorosos para a concessão de crédito. A recomendação do Banco de Portugal sobre concessão de crédito devia passar a ser vinculativa.

Mas as estatísticas não revelam um aumento do incumprimento.

Não porque esses créditos vencidos estão a ser vendidos pelos bancos a entidades de fora do sistema bancário. As famílias ficam menos protegidas em caso de sobre-endividamento e é mais difícil negociar os créditos com essas entidades.

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