"Já esperava que isto acontecesse. Os espanhóis gostam de viver a rua"

Portugueses que vivem em Espanha encontram na cultura do país vizinho - que não abdica dos convívios e das esplanadas - uma justificação possível para o aumento de casos de covid-19.

Natacha Pessanha vive em Madrid há 11 anos e não se espanta com o facto de os casos de covid-19 estarem a subir outra vez em Espanha. "Já estávamos à espera que acontecesse. Os espanhóis não têm a cultura de ficar em casa, gostam de viver a rua. Só não esperava que fosse tão depressa e tantos casos novamente. Os especialistas diziam que com o calor o vírus não ia ter tanto impacto."

Mas não é isso que mostram os números das últimas semanas, que têm vindo a subir de tal forma que o governo espanhol proibiu que se fume na rua se não for possível manter dois metros de distância e optou pelo encerramento de discotecas. Nas últimas 24 horas, as autoridades espanholas registaram 3715 novos casos de infeção pelo novo coronavírus - este é o número mais alto desde o final de maio - e contabilizou 131 mortes numa semana.

Das infeções detetadas nas últimas 24 horas, 1535 (41%) foram registadas na região de Madrid, comunidade que também confirmou 25 novas vítimas mortais. Ao todo, os dados oficiais apontam para quase 371 mil infeções pelo novo coronavírus e 28 797 vítimas mortais.

O que a designer de Oeiras, de 33 anos, considera menos negativo é o facto de as infeções não estarem a deixar tantas pessoas em estado grave e haver menos óbitos do que no auge da crise sanitária - no dia mais negro da pandemia, a Espanha registou 961 mortes em apenas 24 horas. "Não há palavras para dizer o que se passou. Foram períodos muito duros em Madrid. Não foi nada fácil a nível psicológico. Já havia muita tensão no ar, as pessoas andavam tristes, fechadas em casa, a reinventar-se, com atividades novas, com o Zoom... Quando víamos as notícias era ainda pior."

Por isso, Natacha deixou de assistir aos noticiários. Fazia questão de acompanhar o comunicado semanal do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, para estar minimamente informada, mas evitava o que podia. "Era tão pesado e tão duro que afetava qualquer um."

Acho que o confinamento vai voltar a acontecer. Esperam que termine a época balnear e fecham-nos outra vez."

Ainda mantém muitas reservas nas saídas, tenta precaver-se o mais que pode, continua em teletrabalho. Tem saudades de se sentar a uma mesa repleta de amigos, mas procura a segurança numa cidade que nas últimas 24 horas notificou 1535 casos. O uso de máscara obrigatório até na rua e o distanciamento pareciam estar a dar bons resultados, mas os dados recentes mostram o contrário. "Continuo a achar que o problema está nos convívios, mas somos humanos, e as pessoas não querem estar fechadas, querem ver os seus."

Natacha está convicta de que está à porta um novo confinamento. "Acho que vai voltar a acontecer. Esperam que termine a época balnear e fecham-nos outra vez."

E os espanhóis parecem-lhe preocupados com uma segunda vaga? "O espanhol é de viver o dia-a-dia, não pensa muito no futuro. Agora estão mais preocupados em viver o verão do que propriamente a pensar no que aí vem."

Foi esta maneira de ser dos espanhóis que apaixonou Natacha e que a fez ficar por lá, depois de ter ido estudar. Mas agora também diz que todos temos de nos adaptar. "Não podemos ser egoístas."

O novo silêncio do bairro de Gràcia

No bairro de Gràcia, em Barcelona, agora seria época de festas. Trinta palcos nas ruas, sempre com música. Seria festa, mas por causa da pandemia do novo coronavírus não é. As montras estão enfeitadas para não perder a tradição, mas falta o resto. "Agora é o silêncio total, estamos a viver um momento muito particular. As festas são virtuais, tudo acontece na web", diz Pedro Ramos, 52 anos, sócio da Casa Portuguesa, padaria e loja gourmet onde se encontram todas as iguarias portuguesas com produção própria.

Há 17 anos que Pedro está em Espanha, 13 deles na Casa Portuguesa. Nos últimos anos vive com um pé em Barcelona e outro em Portimão, onde vivem a mulher e o filho. Nos dois meses de confinamento, valeu-lhe a documentação da empresa para atravessar a fronteira de carro e viajar de um extremo ao outro da Península Ibérica.

O estabelecimento esteve fechado mês e meio, sendo certo que uma parte deste período foi uma decisão dos proprietários, que quiseram adaptar a loja à nova realidade trazida pela pandemia de covid-19. "Antes estavam cá dentro dez ou 20 pessoas, agora são três ou quatro."

"Aqui é tudo muito mais relaxado, sendo os números maiores; as pessoas não abdicam da sua vida."

Pedro garante que a pandemia não lhe prejudicou o negócio - até tiveram de alargar o horário porque o desconfinamento em Espanha impôs horários nas saídas à rua consoante as faixas etárias. Assim, em vez de abrir às 10.30 e fechar às 20.00, passou a estar de portas abertas das 09.00 às 21.00. E o horário assim ficou. O facto de ter uma clientela fiel e de o turismo no bairro ser residual ajudarão a justificar que o movimento se mantenha como dantes.

O sócio da Casa Portuguesa diz que não notou uma maior preocupação das pessoas com aumento dos casos de infeções pelo novo coronavírus. "No início era o desconhecido. A sensação que tenho é que aqui é tudo muito mais relaxado, sendo os números maiores; as pessoas não abdicam da sua vida. A maioria tem como perspectiva proteger-se, cumprir as regras, mas consciente de que lhe pode tocar. Em Portugal, com muito menos casos, as pessoas estão mais tensas, com mais medo. Aqui não há medo, têm outra atitude."

Mas Pedro também admite que pode ser esta uma das razões que justifique haver mais casos em Espanha. "As pessoas não abdicam de uma certa normalidade da vida, de estar com os amigos, da esplanada."

"Quiseram abrir a economia o mais rapidamente possível, mas as coisas andaram muito depressa."

Quando olha para as decisões dos governos com vista ao controlo da pandemia, Pedro Ramos considera que, no início, tanto Portugal como Espanha estiveram bem. "Era tudo novo, fizeram umas coisas pior, outras melhor. Nos primeiros tempos, todos fizeram o que lhes competia e quiseram ajudar ao máximo. Na segunda fase, nota-se muito descontrolo, ambiguidade, desnorte."

"Para quê abrirem as discotecas? Agora vão ter de fechar e arranjar uma série de problemas. Quiseram abrir a economia o mais rapidamente possível, mas as coisas andaram muito depressa e agora têm de voltar para trás. Deveria ter sido mais lentamente."

Para quem vive entre Portimão e Barcelona, a pandemia trouxe muitos transtornos nas viagens. Se por um lado o facto de ser empresário lhe permitiu atravessar a fronteira terrestre quando estava encerrada, já a abertura dos aeroportos obrigou a algumas alterações e complicou-lhe um pouco a vida - Pedro tinha comprado os bilhetes de avião de janeiro até julho, mas viu tudo cancelado. Devolveram-lhe o dinheiro em vouchers, mas ainda não foram retomados os voos diretos de Barcelona para Faro, e o resultado é que tem de ir a Lisboa ou a Sevilha antes de chegar a casa.

Maiorca: subida de casos não dá hipótese ao turismo

É um daqueles casos clássicos de "ano novo, vida nova". O que Emanuel David, 42 anos, não esperava, quando se mudou de Barcelona para a ilha de Maiorca, é que logo no terceiro mês de 2020 viesse uma pandemia que trocou as voltas ao mundo inteiro, que adiou sonhos e projetos. E quando o novo coronavírus começou a ser notícia, também estava longe de pensar que a Espanha seria um dos países mais afetados do planeta - atualmente é o décimo com mais casos, desde que há cerca de uma semana os números de infetados voltaram outra vez a disparar, com cerca de duas mil notificações diárias, e nesta quarta-feira, 19, chegaram quase aos 4000.

A namorada de Emanuel, farmacêutica, arranjou trabalho em Maiorca, e ele pensou que, tratando-se de uma ilha muito turística, também encontraria emprego com facilidade no início da temporada - era encarregado num bar e esse é o tipo de oferta de trabalho, ou outro ligado ao turismo, que não costumava faltar por lá. Mas a pandemia tirou os turistas da ilha, há hotéis e restaurante encerrados, e Emanuel está agora a viver do subsídio de desemprego. Antes de deixar Barcelona, viu as bolsas de emprego e tinha 100% de certeza de que iria conseguir trabalhar.

"Estava à espera do início da temporada, que começa em março e se prolonga até setembro, outubro, mas o que aconteceu foi uma temporada em casa. Começaram as notícias da pandemia, depois veio o confinamento e poucos hotéis, bares e restaurantes abriram... só abriram cerca de 40%. Maiorca é um pouco como o Algarve, com mais de 200 dias por ano com sol", diz.

"Em janeiro e fevereiro, havia mais turistas do que agora."

"Há pouco turismo. E dos 40% que abriram, 20% vão fechar. Só para ter uma ideia, em janeiro e fevereiro, havia mais turistas do que agora. Fui a Palma de Maiorca no fim de semana e não havia ninguém, as praias também estão vazias."

Com os números de infetados a subir, e com o facto de o turismo não ter conseguido recuperar, o clima na ilha não é o melhor. "As pessoas estão desanimadas, preocupadas, porque não sabem o que é o amanhã. Estão com medo e o desespero é grande, não há outra via de escape, Maiorca vive do turismo. A construção económica assenta nesta atividade, não há indústria", acrescenta Emanuel.

A importância do turista alemão

Para agravar a situação - conta o montijense que viveu quatro anos em Barcelona -, o Governo alemão retirou Maiorca dos destinos turísticos seguros e está a pedir aos poucos que estão na ilha das baleares que regressem ao país. "Os turistas alemães são tão importantes que a primeira língua que aparece nas ementas dos restaurantes é o alemão, depois o inglês, o castelhano e em quarto lugar o maiorquino."

Depois do desconfinamento, diz, ainda se acreditou que se salvaria a época balnear com julho, agosto e setembro. "Pensava-se aproveitar estes três meses, ou até alargar a temporada para outubro ou novembro, mas afinal não chegou a um mês e o número de casos começou a subir de uma semana para a outra."

Maiorca, que estava sempre à pinha de turistas, está às moscas. "Nas principais avenidas, era impensável um lugar numa esplanada. Agora podemos ir onde um dia tentámos beber uma cerveja e não conseguimos..."

Emanuel considera que o Governo não fez bem as coisas e que em junho, depois do desconfinamento, na expectativa de receber turistas e salvar a economia, se descuidou. Dá o exemplo de uns amigos que o visitaram recentemente e a quem não foi medida a temperatura no aeroporto. Critica ainda a decisão de abrir discotecas: "Agora vão fechar todas!"

As restrições em relação ao tabaco não o incomodam, até pretende retirar algo positivo disso - senão conseguir deixar de fumar, pelo menos, pretende reduzir.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG