Da fábrica de caixões para o jogo com o FC Porto

Em Vila Real há uma equipa de amadores à espera do campeão nacional. Como Gil, funcionário de uma empresa de urnas funerárias. Todos esperam que o jogo grande da Taça desta sexta-feira fortaleça a ligação entre o clube e a cidade.

Com o "jogo de uma vida" no horizonte próximo, Gil Pinto passa o dia a lixar e a dar cor a dezenas de caixões que lhe passam pelas mãos na Industrial de Gatão, perto de Amarante, onde começou a trabalhar há meio ano enquanto não arranja emprego ligado à informática, a sua área de formação. Das 08.00 às 17.00, as urnas funerárias são o seu mundo, um trabalho a que se foi "habituando" e que o pai também exerce há já 25 anos.

Ao fim do dia, o jovem lateral, de 20 anos, entrega-se ao seu outro mundo, aquele que lhe projeta os maiores sonhos, e sobe o Marão, uns 40 quilómetros, para ir treinar com a equipa do Vila Real, que o acolheu após a saída do Amarante. Nesta semana, a motivação é redobrada: prepara-se a receção ao campeão nacional, FC Porto, a sorte grande que saiu à equipa transmontana no sorteio desta terceira eliminatória da Taça de Portugal. O jogo é nesta sexta-feira (20.15, SportTV1) e, ao contrário do que acontece com outras equipas que recebem clubes grandes, disputa-se no próprio estádio do "Bila" (como é carinhosamente tratado o Vila Real pelos seus adeptos), o Monte da Forca.

Gil Pinto habituou-se às piadas durante a semana. Já teve adeptos a pedirem-lhe para fazer o caixão do FC Porto na Taça, no plantel perguntaram-lhe se ia dar entrevistas televisivas dentro das urnas, entre outras alusões fúnebres à atividade que lhe ocupa o dia. Isso e pedidos de bilhetes, camisolas ou outras recordações possíveis de um jogo que trouxe os holofotes mediáticos para futebolistas habituados ao anonimato.

Patrão de Gil é portista e já o aconselhou a fugir de Marega se apanhar o maliano pela frente

Na fábrica, o patrão de Gil é um adepto portista que já o aconselhou a "fugir de Marega" se apanhar o possante maliano do FC Porto pela frente, não vá um choque deixar o jovem funcionário lesionado, diz ao DN José Teixeira Carvalho, "há 31 anos" a construir urnas na Industrial de Gatão - atualmente com 32 funcionários, aos quais se orgulha de "pagar religiosamente ao fim de cada mês". Como a Gil, que vai ganhando aqui o que ainda não consegue ganhar no futebol. Mas José Carvalho diz que até não se "importava nada" de perder o funcionário depois deste jogo, "se for sinal de que tem sucesso no futebol". "Aí, passo a empresário dele", remata.

O lateral esquerdo do Vila Real ainda não sabe se vai ser titular nesta sexta-feira (20.15) contra os campeões nacionais, nem se Marega e os principais craques da equipa de Sérgio Conceição vão estar no relvado do Monte da Forca. "Talvez seja o Corona, se voltar a tempo da seleção", vai tentando antecipar sobre quem lhe poderá calhar marcar, admitindo que há um que gostaria de evitar, se possível. "Só não queria o Brahimi, que esse pode empenar-me todo", confessa, bem-disposto, o lateral que admira um jogador portista em especial: Alex Telles, o lateral brasileiro com quem Gil gostava de trocar camisolas no final da partida.

Lateral do Vila Real é fã de Alex Telles e gostava de trocar camisolas com o brasileiro do FC Porto

Para Gil Pinto, o mais importante será mesmo o realizar de "um sonho de vida", o de poder jogar contra um grande como o FC Porto. E um alento mais para perseguir outros sonhos no futebol. Para já, ainda vai tendo de dividir o futebol com as urnas que lhe permitem "ir ganhando uns fundos" para o futuro. "É complicado, para quem trabalha, depois ainda fazer 80 km [ida e volta] à noite para treinar. Às vezes é cansativo", admite o jogador, que na sexta-feira vai tentar superar essas adversidades contra nomes de topo do futebol português.

Do Marão para o Evereste

O jovem amarantino não é caso único entre os futebolistas do plantel do Vila Real, equipa que atua nos escalões distritais. Pelo contrário. Todos os jogadores da formação transmontana são amadores e têm de dividir o futebol com outras profissões. O capitão Fred Coelho é empregado de mesa, o defesa Solas é picheleiro, o avançado Rodrigo corta barbas e cabelos, há enfermeiros, engenheiros, veterinários, alguns estudantes e uns quantos outros desempregados. Todos treinados por Patrick Canto, um professor de Educação Física que dá aulas em Moimenta da Beira, a 70 km de Vila Real.

O jogo com o FC Porto não alterou o plano de treinos. Só o local, devido a um compromisso com o FC Porto para poupar o relvado do Monte da Forca, mas a isso já lá vamos. De resto, o plantel do Vila Real treinou, como sempre, quatro vezes na semana. Sempre à noite, claro, após os empregos dos jogadores e treinador. E é assim, com a preparação habitual, que a equipa transmontana, "habituada a subir o Marão, vai tentar escalar o Evereste", como já definiu Patrick Canto sobre o grau de dificuldade deste desafio que opõe uma formação do futebol distrital de Vila Real ao campeão nacional em título.

Treinador, jogadores e dirigentes do Vila Real esperam sobretudo que este jogo contra o FC Porto sirva para aproximar o clube e a cidade, numa relação que não tem sido muito fácil ao longo dos últimos anos. Entre uma população de cerca de 50 mil habitantes no concelho, o Sport Clube de Vila Real só consegue atrair 800 sócios, um número que o presidente Francisco Carvalho garante ter "aumentado significativamente" desde que assumiu os destinos dos Lobos do Marão, há poucos meses.

Devolver o clube à cidade

Empresário local com carreira feita na construção civil, o dirigente definiu como lema do seu mandato "devolver o clube à cidade". Eesse foi o principal motivo por que se bateu para que o jogo com o FC Porto pudesse ser realizado no Monte da Forca, o estádio que, paradoxalmente, simboliza o relativo afastamento entre clube e cidade. Porquê? Porque a mudança para aquele recinto afastado da malha urbana - situado num monte que, até ao século XVIII, era palco de alguns enforcamentos públicos -, na transição das décadas de 1980 para 1990, cortou a proximidade que muitos vila-realenses sentiam com os jogos no velhinho Campo dos Calvários, dentro da cidade, onde o Vila Real preparou nesta semana a receção aos dragões e onde voltou mesmo a fazer alguns jogos nesta temporada (como o da eliminatória anterior da Taça, frente à Sanjoanense).

Relvado do Monte da Forca foi poupado aos treinos esta semana para estar em condições

"O jogo só vai ser aqui para prestigiar a cidade de Vila Real e por respeito aos sócios. Não podia ser de outra forma para quem quer reaproximar o clube das gentes da cidade", diz ao DN Francisco Carvalho, garantindo que, apesar de o FC Porto ter manifestado disponibilidade para ceder a receita total da partida, os encargos para possibilitar a realização e transmissão televisiva do jogo no Monte da Forca são "elevados". "Só de torres de iluminação são 50 mil euros. A GNR quer outros cinco mil pelo policiamento, e isto se não houver prolongamento", exemplifica.

O clube teve ainda de assegurar um gerador e dar uns retoques na pintura do recinto, acrescenta, negando no entanto que o FC Porto tenha colocado uma equipa a cuidar do tratamento e manutenção do relvado, que os jogadores do Vila Real pouparam ao longo da semana por acordo feito com os campeões nacionais. "A única coisa que fizeram foi vir vê-lo e disseram que estava tudo bem. Não mexeram em nada", garante o líder do Vila Real.

Corrida aos bilhetes

Para já, a aposta parece ganha. Conforme o DN testemunhou na tarde de quarta-feira, quando os bilhetes para o jogo foram colocados à venda para sócios do Vila Real, o entusiasmo pela visita do FC Porto fez mexer a cidade. As pessoas fizeram longa fila para adquirir um dos 800 ingressos destinados aos associados da casa. Com uma capacidade máxima de 4000 lugares autorizada pela FPF, 1300 bilhetes foram cedidos aos dragões, sobrando quase 2000 para o público em geral. A lotação esgotada está praticamente garantida.

José Alberto Costa, Nóbrega e Samuel Fraguito são as principais referências históricas do Vila Real

Natural da Régua, Rómulo Félix foi o primeiro a comprar um bilhete para o encontro entre os seus dois clubes. Com 38 anos, é sócio do FC Porto desde que nasceu e também do Vila Real há alguns anos, depois de se ter mudado para a capital transmontana há cerca de 20 anos. Esteve mais de duas horas no início da fila, à espera de que arrancasse a venda montada no Parque do Município, em frente ao edifício da câmara. "O meu clube do coração é o FC Porto, mas aqui vou ver o jogo tranquilo. Ganhe quem ganhar, vou ficar satisfeito", disse ao DN, depois de ter dado 60 euros por bilhetes para a família e amigos - sócios pagaram 7,5 euros e acompanhantes 15 euros.

Atrás de Rómulo, comprou Paula Fonseca. Sócia há pouco mais de um ano, é esposa de um diretor do clube, mas nem por isso teve direito a borlas. "Temos de dar o exemplo, não é?", explica, esperando que o Vila Real possa fazer história contra o FC Porto. A cidade já recebeu os dragões no início dos anos 1990, também para a Taça, e já neste século teve a visita do Sporting, em 2002, mas rareiam as grandes histórias futebolísticas nas memórias das gentes locais - fundado em 1920, o máximo que o clube atingiu foi a segunda divisão nacional.

"Isto aqui é gente pouco bairrista pelo futebol. São mais aficionados das corridas de automóveis", aponta Paulo Rocha, reformado da antiga PT que passou pelas camadas jovens do Vila Real, onde ainda foi colega "do Costa e do Fraguito", nos anos de 1960. José Alberto Costa, internacional que jogou no FC Porto, e Samuel Fraguito, avançado que foi campeão nacional pelo Sporting, são duas referências da história do "Bila". Como Nóbrega, internacional português que se notabilizou no clube portista. Por Vila Real passaram ainda nomes como Toninho Metralha, nos anos 80, um brasileiro que chegara a Portugal, vindo do Corinthians, contratado pelo FC Porto, ou o guineense Reinaldo, que começou no velhinho Campo dos Calvários o trajeto que o levaria mais tarde à fama no Benfica.

Aposta nos jogadores da região

Agora, o plantel faz-se com jovens jogadores da região. E é com eles que o clube quer "subir e voltar aos campeonatos nacionais". Uma política da nova direção, que cortou com a ligação a uma agência de jogadores que, nos últimos anos, fazia do Vila Real uma montra para muitos futebolistas africanos tentarem a sua sorte no futebol português. "Foi uma aposta e uma necessidade", diz Francisco Carvalho, garantindo que "os portugueses ficam a um terço do preço". "Se aos estrangeiros que aqui tinha o Vila Real pagava 700 euros, a estes jogadores não paga mais do que 250", explica ao DN o líder do clube transmontano, que já conseguiu cortar "93 mil euros de dívida" nos primeiros tempos de mandato: "Tivemos de acabar com muitos maus hábitos, contas por pagar... olhe, ainda nesta segunda-feira recebi a notificação de mais uma dívida de seis mil euros ao Feirense."

Apesar de todas as dificuldades, Francisco Carvalho garante que os jogadores terão direito a um bom prémio extra caso consigam a proeza de eliminar o campeão nacional na Taça de Portugal. "Diria que temos aí um por cento de hipóteses, ou nem isso, que até parece que estou a ser demasiado otimista. Mas se ganharem vão ter um prémio bom." E o que é então um prémio bom? "Digamos que dá para irem jantar fora com a família... e num bom restaurante da cidade." Fica registada a promessa.

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