Loki, o vilão prisioneiro do tempo

Sem pompa mas com muita circunstância, Tom Hiddleston retoma o papel do anti-herói mais popular da Marvel. Loki está por sua conta numa série de ficção científica com variações temporais e jogo psicológico. Disponível no Disney+.

Mentiroso, fala-barato, trapaceiro, mestre da ilusão. Esta é a estirpe de Loki, o arqui-inimigo e meio-irmão de Thor, que ao longo de seis filmes da saga Vingadores - ainda que com pouco tempo de antena em cada um deles - foi conquistando a sua quota de fãs. "Algumas pessoas gostam do seu humor, da sua espontaneidade e do sentido intrínseco de travessura. Outras gostam da sua qualidade de antagonista. Outras provavelmente não o suportam, não sei... Mas sei que algumas pessoas são atraídas pela vulnerabilidade por trás de todas aquelas camadas de charme e carisma. Ser brincalhão revela um tipo de vulnerabilidade, suponho", disse Tom Hiddleston numa conferência de imprensa virtual da Disney.

O ator que veste a pele deste vilão do universo cinematográfico Marvel, e que aparece também como produtor executivo da série em estreia no Disney+, tem agora a missão de provar que o tal carisma da personagem aguenta um spin-off dedicado à aventura em nome próprio. Depois de WandaVision e O Falcão e o Soldado de Inverno, Loki é a terceira entrada da Marvel no domínio das séries, e uma aposta que surgiu de uma simples pergunta de espectador atento: o que é que aconteceu a Loki depois de se evaporar em Vingadores: Endgame? Aparentemente, aquilo que os argumentistas consideraram um evento menor a meio da jornada temporal dos Avengers (o esforço conjunto para travar a destruição de Thanos) deixou insatisfeitos os fãs da personagem. Sem uma resposta no final desse filme de 2019, era preciso atar a ponta solta. E foi isso que fez o argumentista Michael Waldron.

O primeiro dos dois episódios já disponíveis no serviço de streaming começa então com um flashback do instante em que Loki, com o Tesseract (espécie de cubo cósmico) nas mãos, escapa aos Vingadores, sendo teletransportado para o Deserto de Gobi. Aí, sem margem para brincadeiras, é logo recolhido por forças especiais que dizem trabalhar para a Autoridade da Variação Temporal. Como assim? Estamos num novo cenário que contempla Guardiões do Tempo, uma "Linha Temporal Sagrada" e outras burocracias de ficção científica dignas da mente de um Christopher Nolan. Resumindo: a ação impulsiva de Loki refletiu-se num "crime temporal" que será julgado pelas autoridades competentes dessa nova realidade. Como sublinha Hiddleston, de repente ele fica como uma criança desamparada: "É despojado de tudo o que lhe é familiar. Thor não está por perto, Asgard parece um pouco distante, os Vingadores, por enquanto, não estão à vista, e ele perde o seu status e o seu poder."

As coisas podiam correr pior não fosse Mobius, um agente interpretado por Owen Wilson (sempre ao seu jeito), manifestar interesse no destino do vilão desapossado. Quer dizer, a questão é mais prática do que isso: Loki pode ser uma ajuda preciosa para apanhar um alvo perigoso que incorreu no mesmo crime. Mas antes de se atirarem ao trabalho de campo, importa travar conhecimento e avaliar psicologicamente aquele que todos conhecem como o Deus da Mentira. E é a dinâmica dessas cenas entre Mobius e Loki que, no arranque, colocam a série num certo nível de terapia e análise, jogo e dissimulação, ou "partida de xadrez", como lhe chama Owen Wilson, cuja personagem tenta "ficar em pé de igualdade com o deus das trapaças."

O mais curioso será, porém, o conceito de "variante" no segundo episódio, que belisca ainda mais o orgulho do protagonista. Ao que parece, há uma variante superior de Loki a fazer mais estragos do que este deus pelintra (a sugestão de que Loki é como um vírus tem a sua graça...). Mas ele não desiste dos seus truques habituais, mesmo quando parece mais humano e menos "boneco", saindo-se com tiradas destas: "Ninguém mau é exclusivamente mau e ninguém bom é exclusivamente bom."

A filosofia de bolso está, assim, ao serviço de um controlado caos narrativo que pode ir da erupção do Vesúvio em Pompeia no ano 79 d.C. ao Alabama em 2050. Mas dentro dessa ginástica espacio-temporal, e de um design de produção irrepreensível, o que interessa é responder à natureza do vilão: "O que é que faz de Loki... Loki? E, se existe algo de autêntico nele, algo lá no fundo, ele é capaz de crescer? É capaz de mudar? As suas experiências dentro da Autoridade da Variação Temporal dão-lhe alguma ideia de quem ele pode ser?" Tom Hiddleston faz um inventário do que devemos ter presente ao julgar este capítulo à parte da saga Avengers, focado apenas na individualidade. O ator que já foi vampiro num filme de Jim Jarmusch, mas também senhor de uma casa de fantasmas num conto de terror de Guillermo del Toro, está com tudo neste regresso à sua personagem de uma década, que se tornou uma das mais populares do universo Marvel, apesar de não ter nada de heroico... Depois de Cruella, é muito provável que a moda dos vilões pegue.

Enquanto não chegam as mais aguardadas produções da Marvel - Viúva Negra (8 de julho) e Eternals (apontado para novembro), este último com realização da oscarizada Chloé Zhao - Loki brinca às viagens no tempo em episódios de 50 minutos, seis no total, a pingar semanalmente.

dnot@dn.pt

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