Bailarinos: voltar aos ensaios, mantendo a distância

A Companhia Nacional de Bailado retoma, lentamente, a sua atividade. No Teatro Camões ensaia-se de porta aberta e com o mínimo de contacto. Apesar disso, com alegria por voltar, depois de dois meses em casa.

Entram todos de máscara, desinfetam os sapatos no tapete, lavam as mãos com álcool-gel enquanto o segurança lhes mede a temperatura. Os bailarinos da Companhia Nacional de Bailado (CNB) regressaram aos ensaios depois de mais dois meses em confinamento e estão lentamente a aprender as novas rotinas. Ainda não podem tomar duche no teatro, têm aulas em grupos mais pequenos e em vez de deixarem as mochilas e as camisolas espalhadas pelos cantos como sempre fizeram têm que colocar todos os seus pertences nos charriots. Mas quando lhes perguntamos o que está a ser mais complicado neste regresso todos concordam que o maior desafio é mesmo o tal do distanciamento social: evitar tocar no outro.

"Algumas pessoas consideram o nosso trabalho um pouco promíscuo e, de facto, é porque estamos habituados a muito contacto, a muita intimidade uns com os outros", diz Frederico Gameiro, 38 anos. "Conhecemo-nos todos há muito tempo e estamos habituados a estar juntos, despimo-nos e vestimo-nos juntos, e tocamo-nos muito, faz parte do nosso trabalho. E, de repente, tivemos que nos contrair."

"Nós estamos muito à vontade uns com os outros e foi estranho chegar e não nos podermos tocar", concorda Inês Ferrer, que tem 29 anos. "Mesmo ao passar nos corredores, as pessoas afastam-se, não se cumprimentam como antes", acrescenta Maria Santos, bailarina de 32 anos.

As aulas recomeçaram em regime voluntário a 18 de maio e, depois, já a sério, a 1 de junho, e têm evitado o trabalho no chão e privilegiado o trabalho individual. Só nesta semana, com os ensaios para as primeiras apresentações, é que começou o trabalho em pares e mesmo assim tentando que eles sejam compostos por bailarinos que são também casais. Para já, vai haver menos gente em palco e menos contacto físico.

"É uma situação nova mas vamos ter de a encarar e adaptar o nosso trabalho a esta circunstância", afirma, determinado, Frederico. "Que impacto é que isto tem em nós até como artistas? Não sabemos como vai ser daqui para a frente mas temos que assumir que esta é a nossa nova realidade."

A vida interrompida

A 11 de março a Companhia Nacional de Bailado estreou Dançar em Tempo de Guerra, um programa que reunia duas obras de dois coreógrafos de referência do século XX: Chronicle, de Martha Graham, e A Mesa Verde, de Kurt Jooss. Era a primeira vez que a CNB dançava Martha Graham. "Era um programa muito exigente e icónico, todos tinham trabalhado muito", conta Sofia Campos, diretora artística da companhia. No dia seguinte, a apresentação foi cancelada como medida preventiva. E no outro dia o Governo decretou o encerramento de todas as salas espetáculos. "E fomos todos para casa."

"Acho que na altura não nos apercebemos imediatamente da dimensão do problema", recorda Frederico Gameiro. "Eu deixei roupa minha, suada, no camarim, ali em cima de uma cadeira. Deixámos todos." Não lhes passou pela cabeça que iriam passar mais de dois meses sem voltar ao Teatro Camões, em Lisboa.

"Tínhamos acabado de estrear um espetáculo, tínhamos ensaiado muito, estávamos mesmo com uma energia muito boa e, de repente, foi como se tivéssemos ficado de férias mas fechados em casa, um pouco sem saber o que fazer", conta Inês Ferrer. "Foi uma quebra - emocional e física. Demos muito e depois parámos. Demorou um pouco até nos habituarmos a esta situação." Aqueles primeiros dias de incerteza foram os piores. "Ter que lidar com o desconhecido, pensar que a minha atividade depende de condições de espaço, de tempo, de contacto, foi um bocadinho angustiante", recorda Frederico.

"E agora? Como é que vamos gerir isto?", perguntou-se Sofia Campos. "Nos dias imediatamente a seguir desenhámos o programa "Ficar em casa na nossa companhia" que tinha duas preocupações: uma mais externa, na relação com o nosso público, e outra vertente interna, para manter a forma física dos nossos bailarinos."

"Na última temporada fizemos um grande trabalho de aproximação ao público, tivemos as salas sempre esgotadas, tivemos muitas atividades, estávamos a fazer um caminho e não queríamos interromper esse caminho", explica a diretora artística que entrou em funções em 2018 e que foi apanhada pela covid-19 a meio daquela que seria a sua primeira temporada à frente da CNB. Mantendo a atividade nas redes sociais, a CNB disponibilizou vários materiais, entre os quais vídeos dos espetáculos - "o que levantou uma enorme reflexão sobre o que é isto de ver espetáculos online, mas foi um recurso de momento e só foi possível com a colaboração de todos os artistas que cederam os seus direitos", explica a diretora - e pequenos vídeos dos bailarinos feitos durante o confinamento.

Dançar com a tábua de passar a ferro

Os vídeos dos bailarinos foram um pequeno sucesso online . "Havia essa curiosidade por parte do público: como é que eles fazem isto em casa? Na sala, no quarto, com a cadeira, com a janela, na bancada da cozinha...", explica a diretora da CNB. Mas os vídeos mostram também quão difícil foi para os bailarinos manterem a sua atividade enquanto estiveram confinados.

"Não é só a amplitude do espaço mas também a sua qualidade que é importante. Para os bailarinos um chão de cozinha ou de madeira não é a mesma coisa do que o chão que nós temos aqui no palco e nos estúdios, que tem uma caixa-de-ar e amortece as quedas, prevenindo uma série de lesões de coluna ou joelhos", explica Sofia Campos. Além disso, os bailarinos "são pessoas com um grau de exigência física muito grande. De repente, vamos estar confinados a um espaço muito mais pequeno, não vamos estar juntos e não sabemos quanto tempo isto vai durar, o que gerou alguma ansiedade".

"Eu tenho espaço em casa e portanto transformei a minha sala num estúdio", conta Maria Santos. "Empurrei o sofá, fui comprar uns metros quadrados de linóleo e depois vim ao teatro buscar algumas coisas que tinha deixado para trás e material como elásticos, bola de pilates, um colchão - levei a artilharia para casa e até um bocadinho de resina para poder fazer pontas. Consegui fazer muita coisa e nesse aspeto não me posso queixar. Mas a nível psicológico o impacto foi grande porque ninguém sabia o que é que ia acontecer, quanto tempo íamos ficar assim, como é que isto nos ia afetar."

Frederico Gameiro vive na baixa pombalina, numa casa que, além das divisões pequenas, tem chão de madeira, com pregos. "Para mim foi muito difícil arranjar uma rotina que funcionasse e que não me magoasse, porque não tinha o equipamento", conta. Improvisou uma barra (não muito segura) com a sua tábua de passar a ferro. E tinha sempre um espectador muito atento: o seu cão. "Às vezes era frustrante mas foi importante manter aquela atividade, quer para a saúde mental quer para a saúde biológica. Eu estava habituado a ter uma atividade física muito intensa e, de repente, não foi só parar a atividade, foi também o confinamento, não podemos sair de casa, não caminhamos, toda a musculatura é afetada."

Para os ajudar, os professores e ensaiadores da companhia começaram a gravar uma série de aulas em vídeo para eles fazerem ao longo da quarentena. "Eram aulas diferentes todos os dias, com professores diferentes, e também havia alguns vídeos com exercícios mais específicos. Foi um trabalho incrível de todo o staff artístico", explica Sofia Campos. A CNB disponibilizou também o acesso a todos o arquivo de vídeo da companhia, para que os bailarinos pudessem ver os espetáculos que quisessem, mais recentes ou mais antigos.

"Quase todos os bailarinos conseguiram encontrar alguma espécie de rotina, diferente em cada um porque cada um tem um corpo diferente, mas conseguir manter a atividade e a sanidade mental, fazendo outros tipos de dança ou de trabalho que não exigissem tanto espaço", confirma Inês Ferrer. "Com a internet e as redes sociais foi possível ter acesso não só a trabalho da companhia mas também às aulas. Tivemos de dar largas à imaginação e arranjar um compromisso e continuar a trabalhar."

Regressar devagar

Quando a companhia anunciou que a partir de 18 de maio quem quisesse poderia voltar a ter aulas no Teatro Camões foram poucos os que permaneceram em casa. Havia uma grande ansiedade. "Quando ouvi o piano ao vivo quase chorei, já não podia ouvir aquele som metálico da gravação", conta Maria Santos, referindo-se à pianista Ana Paula Ferreira, que acompanha uma parte das aulas e ensaios e que faz, na verdade, toda a diferença.

"Vinha com algum receio mas no primeiro dia senti segurança. Foi bom voltar sentindo que estava tudo muito bem organizado. Tínhamos o dispensador do álcool, as aulas foram divididas. Sentimo-nos confortáveis com o trabalho", conta Inês.

A diretora da CNB confirma que antes de reiniciarem as aulas foi preciso "analisar todos os aspetos desde a entrada aos camarins. Tivemos que aprender a trabalhar de outra forma". Além dos dispensadores de gel desinfetante espalhados por todo o teatro e dos muitos avisos lembrando as medidas de prevenção necessárias, houve necessidade de dividir os bailarinos em grupos para que as aulas (que agora decorrem de portas abertas) não estivessem tão lotadas.

Além dos dois estúdios, também o palco passou a ser usado para aulas. Com as portas abertas, deixando entrar a luz do dia, e com muito distanciamento, um grupo de alunos tem agora o privilégio de ensaiar na magnífica sala do Teatro Camões. Os bailarinos não precisam de usar máscara durante as aulas, embora alguns usem em alguns momentos, mas têm de usá-la nos corredores. Todos os estúdios são desinfetados sempre que uma aula termina. Não há máquinas de café e os bebedouros estão desativados.

E é assim com todos estes constrangimentos que, aos poucos, o trabalho retoma o seu ritmo. "A primeira preocupação era que eles recuperassem a forma mas na maior segurança e tranquilidade. Não temos pressa", diz a diretora. "Estamos todos muito contentes por voltar, mas com tempo." E continua: "O regresso de um bailarino tem muitas implicações e é muito exigente, o corpo habitua-se muito rapidamente a um ritmo menos exigente. Para eles é muito violento. Um interregno destes na carreira de um bailarino é muito significativo porque a carreira é muito curta, e depende muito da fase da carreira em que cada um está. Isso inquieta-me sobretudo por aqueles que são mais velhos. Vamos fazer com que eles recuperem a forma e a condição física, sem atropelos, para que seja saudável."

Ao mesmo tempo, foi preciso reagendar e reprogramar os espetáculos (com todas as incertezas que existem em relação ao futuro), mantendo os compromissos com os artistas e com os parceiros nacionais e internacionais. "No nosso caso houve quase uma transferência de programação de uma temporada para outra", assegura Sofia Campos que, sem querer adiantar muito, revela que o espetáculo Dançar em Tempo de Guerra vai voltar a ser apresentado. "Acho que o público merece ver este espetáculo. E os bailarinos também merecem apresentá-lo."

O regresso está a fazer-se sob o lema "Devolver a confiança" . Em breve, e aproveitando o facto de os bailarinos estarem a trabalhar no palco, será possível convidar o público a assistir a algumas aulas (26 de junho e 10 de julho) e ensaios (30 de junho), assim como retomar as visitas guiadas (25 de junho, 2 e 9 de julho). "Vamos voltar devagar, abrir portas ao público e mostrar o que está por trás e como estamos a descobrir novas rotinas. Porque estamos a voltar mas não estamos a voltar ao mesmo, estamos a voltar de maneira diferente."

A primeira apresentação ao público vai acontecer nos últimos dia do Festival ao Largo, que se realiza entre 10 e 25 de julho, este ano no pátio do Palácio da Ajuda. A companhia vai estrear duas novas criações dos bailarinos da CNB, Miguel Ramalho e Xavier Carmo/Henriett Ventura e apresentar excertos do 1.º ato do bailado Dom Quixote um dos legados de Marius Petipa. Só depois do verão haverá programação no Teatro Camões.

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