Uma ambulância pela manhã

Na emergência em que vivemos é difícil afastar o nosso espírito da urgência e do medo para o poder levar a passear lá onde a nossa liberdade nunca pode ser confinada. "Toda a felicidade do homem está na sua imaginação", dizia Sade, que foi um prisioneiro altamente criativo. Montaigne, por seu lado, fala-nos de um oficial de Alexandre, o Grande que, cercado pelos inimigos numa fortaleza, chicoteava os seus cavalos para encontrar alguma animação. A sombra da depressão, acédia dos antigos, melancolia dos modernos, paira sobre os nossos vultos isolados, deambulando entre um trabalho inseguro e um lar demasiado cheio ou demasiado vazio, olhando, já não por entre as barras de ferro atrás das janelas, mas para a televisão ou para o computador, pletóricos de imagens. A imaginação falece-nos então por excesso de imagens. Não temos cavalos que chicotear, a nossa própria desdita volta-nos para dentro e aquela pigritia que os escolásticos denunciavam como fruto da acidia enrola-nos passivos num sofá diante das fugidias imagens de consecutivas excitações.

Da sua torre, cercado de livros, Montaigne avisa-nos: é fácil tirar prazer da mais funda melancolia ("Há intenção, consentimento e complacência em alimentar-se da melancolia", diz nos seus Ensaios). Há uma complacência perigosa com esse estado, tão afim do "delicioso pungir de acerbo espinho" com que Garrett define a saudade. A saudade, tão cultivada entre nós, não será um assomo dessa paralisação dos nossos movimentos a que nos condena a impotência ou a prisão?

Duarte Nunes de Leão (Origem da Língua Portuguesa, 1606) diz que o que distingue a saudade é sinalizar não apenas a falta de alguém, "mas também das coisas inanimadas, pois temos saudades de ver a terra onde nascemos ou onde vivemos com algum prazer e prosperidade". Nós temos simplesmente saudades do tempo em que podíamos sair à rua para encontrar amigos e amores, jantar e beber pela noite fora, cruzar os nossos olhares e as nossas vozes, tocarmo-nos sem receio, saber os sabores da festa e o peso da alegria. Pois ainda que a prosperidade nem sempre abundasse, o prazer era possível. E não estávamos sós diante de uma pantalha luminosa.

Mais dura e sentida, porém, será a saudade dos que perdem o seu emprego, dos que veem cair a pique os seus magros rendimentos, dos que fecham para sempre os seus negócios, dos que não confiam no futuro e desesperam no presente.

O som de uma ambulância a passar atravessa a manhã e o barulho dos camiões do lixo vem juntar-se a ele. Os trabalhadores da obra chegaram e o seu martelar veio dar o ritmo ao nosso amanhecer. Abre a loja da fruta, o quiosque dos jornais já expõe na bancada as edições do dia. Tantos continuam a trabalhar como dantes, sem teletrabalho nem videoconferências. Assumem por nós os riscos, enfrentam, dão a cara. Ouvimo-los passar de manhã, comentar, partilhar o medo e a surpresa - e depois vão trabalhar, zelar, manter, até caírem de cansaço pela noite. Dentro da torre informática que nos construímos é afinal deles só que dependemos. E é neles que a vida se projeta e multiplica. Lembramo-nos então do Dr. Rieux, da Peste de Camus: cumprir simplesmente o seu dever é a maior grandeza em tempos de catástrofe.

Diplomata e escritor

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