"É importante selecionar os bens alimentares"

Henrique Soares, diretor do Serviço de Neonatologia do Centro Hospitalar Universitário do São João, no Porto, fala sobre os cuidados a ter com as crianças e jovens durante a pandemia.

A pandemia tem tido efeitos na saúde de crianças e jovens?
A pandemia tem efeitos potencialmente negativos na saúde física e mental das crianças. Os efeitos do isolamento social, como o sedentarismo, a maior tendência para a prática dos videojogos, a sobre e má alimentação e os comportamentos fóbicos relacionados com a fase são comuns e devem ser objeto de prevenção primária nas consultas de saúde infantil .

Houve alterações nos hábitos alimentares?
A permanência em casa trouxe hábitos alimentares diferentes e errados, quer porque os pais passaram a comprar bens desnecessários e pouco saudáveis quer porque as crianças tiveram e têm mais tempo disponível para aceder a alimentos em períodos diferentes dos habituais. É muito importante selecionar corretamente os bens alimentares que são levados para casa pois as crianças só comem o que lá existe. Aliado ao escasso exercício físico, reuniram-se condições para que o peso das crianças aumentasse mais.

Há aspetos positivos no isolamento das crianças?
Difícil questão, os pais referem o facto de as crianças ficarem menos vezes doentes pelo facto de estarem mais protegidas em casa e porque a população em geral utiliza máscara. Na realidade, é notória uma diminuição, até ao momento, de outras infeções. Outro aspeto relatado como positivo é o aumento da interação entre as crianças e os seus pais embora, neste caso, a interpretação possa ser diversa.

No caso dos recém-nascidos, que aspetos são de salientar?
No caso dos recém-nascidos, a pandemia resultou numa evolução positiva da gestão da díade mãe-filho. Apesar de os protocolos de parto se manterem, é hoje seguro dizer-se que a mãe covid-positiva assintomática ou pouco sintomática pode cuidar e amamentar o seu bebé desde que cumpra as regras e a etiqueta exigida. O número de recém-nascidos afetados foi pequeno, mas sabemos que a probabilidade de doença grave também é pequena.

Quais são as maiores preocupações dos pais?
Os pais preocupam-se com a possibilidade de os seus filhos se infetarem e das respetivas consequências. Em geral, atualmente os pais parecem ter uma boa perceção dos riscos reais da infeção nas crianças e evoluíram no sentido de equilibrarem o peso desse relativo baixo risco na gestão do dia-a-dia. Conseguiram aceitar a escola, algumas atividades, a ida ao centro de saúde fazer as vacinas por exemplo... gestos simples, mas importantes, desbloqueados lentamente, mas de forma consistente. Por outro lado, também se preocupam com os avós, com o contacto entres as crianças e os avós. Em geral, grande parte dos pais optaram por criar circuitos cuidadosos na relação com os avós visando a sua proteção.

A utilização de tecnologia aumentou. Que conselhos pode dar?
Sim. O uso de dispositivos eletrónicos aumentou, justificado por múltiplas circunstâncias. Seria importante os pais tomarem consciência de que o uso não regrado de videojogos ou de outras formas de entretenimento ligadas às novas tecnologias podem criar circuitos de dependência crescentes. A dopamina tem um papel biológico forte neste contexto e explica muitos dos comportamentos de dependência a que assistimos. Os pais devem conhecer como os seus filhos passam os seus dias e quanto tempo despendem nestas atividades. A promoção da saúde através de atividades desportivas, da leitura e de outras atividades culturais aumenta a diversidade da ocupação das crianças, representado um ganho em saúde física e mental.

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