"O vírus veio de investida e já matou muita gente. Sem vírus, este Natal já será incrível"

Como é que os lares se prepararam para os idosos celebrarem a quadra natalícia em tempos de pandemia? Sem orientações da DGS, a maioria não permite saídas. Alargaram as visitas e festejam com decorações natalícias e versos. As exceções são dos que têm meios que permitem respeitar a quarentena no regresso.

Joaquim Arsénio, 70 anos, visita a mãe no Lar de São José da Lamarosa, em Coruche. É Rosa Arsénio, de 89 anos e que há 12 perdeu o andar. Recebe o filho numa cadeira de rodas na ponta da mesa, na parte principal do edifício. O filho está na outra ponta, com três metros a separá-los. A comunicação entre os dois é difícil. "É uma grande distância e ela não ouve bem, às vezes pergunta o que venho cá fazer. Venho vê-la", diz-lhe Joaquim. Tenta fazer conversa: "A mãe está bem?" Rosa responde: "Estou e tu?" Ele assegura: "Estou ótimo, graças a Deus."

Esta vai ser a forma de contacto mais próxima que os familiares dos utentes terão neste Natal devido à pandemia. Será aberto um segundo espaço para permitir o agendamento de mais pessoas. O mesmo se irá passar na maioria destas residências. As saídas são restritas, não só porque não têm instalações para que façam a quarentena no regresso, mas também porque as famílias não arriscam estar com os mais velhos.

"A distância é um pouco exagerada, mas preferimos pecar por excesso. A verdade é que não tivemos nenhum caso de covid-19 até agora, quando houve um surto num lar aqui perto", orgulha-se Manuel Rocha. É o presidente da instituição, a Associação de Solidariedade Social São José da Lamarosa.

Ainda pensaram em permitir saídas, mas optaram por não o fazer. "Analisámos a situação e decidimos que não vai haver visitas aos familiares. Mas podem vir duas vezes na próxima semana e todo o agregado familiar, quando até aqui só podia vir uma pessoa. Vamos fazer a nossa festinha: almoço melhorado e a missa de Natal, celebrada pelo padre Elias, de Coruche. Nos outros anos, fazíamos um lanche com os familiares de quem não ia a casa, neste ano não pode ser."

Habitualmente, 15 a 20 utentes passavam a quadra natalícia com as famílias. Neste ano, para que tal acontecesse, tinham de ter quartos para que pudessem cumprir os 14 dias de isolamento no regresso, e antes de ocuparem o quarto habitual. O lar tem cinco quartos destinados aos períodos de quarentena, mas destinam-se aos que saem para ir ao hospital. Uma regra que têm desde que surgiu o primeiro caso de covid-19 em Portugal, a 2 de março. Tiveram de transformar a sala de fisioterapia e a capela em dormitórios.

Quarentena à chegada do hospital

"Assim, temos evitado a entrada da covid, porque uma das grandes fontes de contágio da doença é o hospital, uma ida ao hospital representa um risco elevadíssimo. Outra fonte são os enfermeiros, e nós temos um enfermeiro em exclusividade. E fomos o primeiro lar a cortar com as visitas", explica Manuel Rocha. São as medidas que considera terem dado bons resultados. Continuam com a proibição das saídas durante a quadra natalícia, salientando o presidente do lar que os utentes preferem ficar na instituição. Muitos têm familiares emigrados, sobretudo em França, e que neste ano não vêm a Portugal.

Mecia Maia fazia a consoada na casa de um familiar e o almoço de Natal noutra. "No ano passado já não fui ao Luís, mas almocei com a minha sobrinha. Agora, vou ficar por aqui, e fico bem, mesmo que pudesse não iria sair, é muito arriscado, temos de ter mais um pouco de calma", explica Mecia, sublinhando: "Vamos tendo as visitas. Ainda no domingo, o meu sobrinho veio com os filhos e dissemos adeus pela janela." Tem 90 anos e foi professora primária.

O lar fica numa aldeia onde todos se conhecem, incluindo os funcionários. Por exemplo, Mecia foi professora da mãe de Manuel Rocha. Além do espaço próprio para visitas, com a duração de 30 minutos, os utentes acamados estão em quartos com janela virada para o exterior, o que também lhes permite ver os familiares.

Augusta Elisa está no quarto que antes era a sala da fisioterapia, deslocam-na para perto da janela sempre que recebe familiares. "Estão bons? Eu estou bem", diz e acena com a mão. É a utente mais velha, tem 104 anos, e dois dos filhos também ali residem.

Manuel Rocha destaca os laços que ligam o lar à população. "É um meio rural, há uma ligação mais afetiva, penso que nos meios urbanos não haverá uma relação tão grande, 90% dos utentes recebem familiares. E a comunidade está muito ligada, temos 1400 sócios entre a população." O que, também, lhe tem trazido dissabores, uma vez que ser sócio não garante a entrada. Tem uma lista de espera de 1200 pessoas.

A Associação de Solidariedade Social São José da Lamarosa começou como centro de dia e apoio domiciliário, em 1998, e inaugurou o lar em 2013. Tem 45 residentes e, brevemente, poderão receber 70 com a construção do primeiro andar. O valor da mensalidade é uma percentagem da reforma, com os utentes a pagar entre 400 e 650 euros mensais. O restante é suportado pela Segurança Social, sendo 1060 o valor de referência de cada utente.

Manuel Rocha salienta que não é fácil a gestão dos recursos para garantir a qualidade do serviço, proporcionando valências clínicas e atividades várias. A pandemia veio trazer despesas como a higienizarão dos espaços e o equipamento de proteção individual: batas, máscaras, luvas, proteção para os sapatos para quem é de fora.

Os funcionários deixam o calçado à entrada. Desde março, gastaram mais de 30 mil euros com esses artigos. Além da Segurança Social, vale-lhes o apoio da Câmara Municipal de Coruche e da Junta de Freguesia da Lamarosa.

As restrições para a quadra natalícia foram tomadas depois de terem percebido que a Direção-Geral da Saúde (DGS) não iria emitir recomendações para esta época de festas.

Dirigentes dizem que não há condições

O que existe da DGS são as normas relativas às visitas, depois de estarem suspensas durante o primeiro estado de emergência, entre março e maio. Os responsáveis dos lares também se servem das regras relativas à admissão de utentes: "É necessário um teste laboratorial para SARS-CoV-2 negativo e um período de isolamento não inferior a 14 dias."

A Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade (CNIS), através do presidente, Lino Maia, recomendou que evitassem "as deslocações a casa dos familiares para o convívio natalício e/ou Ano Novo. Se tal acontecer, devem garantir que no regresso fiquem descartadas a possibilidade de infeção e de futuro contágio."

Também a Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos (ALI), que representa as instituições privadas, recomenda que restrinjam as saídas. "Não podemos pensar em cada um individualmente, temos de pensar que há um grande risco de contaminação ao juntarem-se várias pessoas, temos de pensar em todos. É muito duro, especialmente nesta quadra, mas tem de ser. Essa é uma decisão que cabe a cada instituição. Se tiverem condições que permitam que os idosos façam a quarentena no regresso, podem permitir as visitas a casa", sublinha João Ferreira de Almeida, presidente da associação.

Lembra que 40% dos lares são em casas transformadas para o efeito, o que limita a existência de mais espaços para adaptarem aos riscos de infeção. "Andamos há nove meses a evitar que o vírus entre nos lares, não vamos perder tudo agora." Contabiliza 847 lares privados legais no país.

No caso das Misericórdias, também vai ser dada autonomia às instituições. As regras são um teste à covid-19 e isolamento profilático no regresso. "Não pode haver saídas maciças, aqui vamos reforçar o que disse a senhora Merkel [a chanceler alemã], Vamos tomar conta dos nossos idosos para que possam ter Natal para o ano", defende Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias. Além da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, existem 767 residências para idosos em Portugal, a maioria fora dos grandes centros urbanos.

Miguel Lemos acrescenta que não são assim tantas as pessoas a passar a quadra natalícia com os familiares, mesmo em anos anteriores. Além de que muitos têm os filhos e os netos no estrangeiro, que neste ano não estarão no país nesta quadra. O mais frequente vão ser as visitas aos lares.

Residência de luxo permite saídas

Maria da Graça Oliveira tem o marido há dois meses na Residência Domus Areeiro. As complicações do foro psiquiátrico tornaram impossível ela cuidar sozinha de Ernesto. Ele não percebe porque é que tem de falar com a mulher à entrada do prédio, separados por uma parede de acrílico, ainda menos ter de usar uma máscara. "Sinto-me muito isolado, estão aqui pessoas, mas sinto-me isolado. Gostava de ti ao pé de mim", diz-lhe. Maria da Graça tenta suavizar a confusão mental. "Eu não posso estar ao pé de ti. Assim que puder, estaremos mais juntos. Por mim, vinha todos os dias, mas só posso vir uma vez por semana." Ela tem 85 anos, ele 84, eram ambos profissionais de seguros.

A casa do casal é na mesma rua do lar, na Almirante Reis. Maria da Graça visita o marido à quarta-feira, leva-lhe pão-de-ló. Decidiu que ele não irá a casa neste Natal e, por vontade dela, também não sairia para a casa de ninguém. "Vivo sozinha e preferia passar o Natal só, as milhas filhas não deixam. Neste ano tem sido muito difícil, tive de internar o marido em plena pandemia", lamenta.

Ernesto está num lar que permite a saída dos utentes nesta quadra. Instalado no centro de Lisboa, num prédio totalmente remodelado para o efeito, tem as instalações e os meios que o permitem fazer. Pertence ao grupo espanhol Clece, é considerada uma residência de luxo, com todos os serviços e atividades necessárias a quem não tem possibilidades de viver só. Abriu há dois anos. Têm outra estrutura em Fátima e mais de cem em Espanha.

"Estamos a fazer um compasso de espera pelas orientações da DGS, mas prevê-se que não vão sair orientações especiais, e já definimos o nosso plano. Tendo em conta que não há proibição das saídas, vamos dar essa possibilidade", diz Diogo Ferreira, responsável pelas residências do grupo em Portugal. Os utentes podem sair, mas só por uma vez, podendo ficar vários dias fora. "Estamos a questionar as famílias como será a saída e a maioria ficará fora vários dias."

Os utentes fazem um teste antes de saírem. É um teste rápido para covid-19 aplicados na própria instituição. Adquiriram os testes, que fazem quinzenalmente, uma semana aos utentes e na outra aos funcionários.

No regresso, os testes são repetidos à entrada e a pessoa fica 14 dias isolada dos restantes, voltando a testar antes de ir para o seu quarto. Há espaço para todos fazerem a quarentena, até porque a unidade não está lotada. Ainda se está a instalar e teve quebras com a pandemia. Tem 120 camas, espalhadas por vários pisos, e 66 residentes, a viver em quartos duplos ou individuais. As mensalidades variam entre 1750 euros (quarto partilhado) e 2450 (quarto individual).

A lista de quem vai a casa não está fechada, poderão ser entre 20 e 40 pessoas. "As famílias também estão à espera de indicações do governo", justifica Diogo Ferreira. Acrescenta que, antes da pandemia, era normal os utentes saírem. "Tínhamos muitos que saíam durante o dia para passear, almoçar, faziam disto um hotel." Em Fátima, não existe tanto este intercâmbio, até porque muitos dos familiares dos idosos estão emigrados. Em Lisboa, as pessoas saem mais vezes.

Matilde Paula, 86 anos, que foi técnica de saúde pública, e Mariana Marques, de 81, doméstica, saíam com regularidade antes do aparecimento do SARS-CoV-2. Agora, ocupamos os dias nas atividades e a conversar. Decidiram não sair para festejar o Natal com a família, embora o pudessem fazer. "Estava resolvida a ir, mas, com o desenrolar dos acontecimentos, resolvi não o fazer. Como as coisas estão, com tantas pessoas infetadas, achei que não havia necessidade de causar preocupação à minha família e cortei o mal pela raiz. Estamos aqui tão protegidos, ir lá para fora um ou dois dias não justifica o risco. Ainda por cima, tinha de ficar 14 dias isolada", argumenta Matilde.

Muitos utentes têm problemas de saúde mental e tem sido muito difícil gerir todas as situações resultantes da pandemia, o que levou a instituição a criar um gabinete de psicologia. Existe para dar apoio aos utentes e aos familiares. "Muita ansiedade e muitas saudades são as principais queixas, em especial nesta altura do ano", explica Ana Catarina Silva, a psicóloga.

Além dos testes periódicos, e sempre que algum utente sai para um tratamento médico, compraram uma máquina que desinfeta todos os espaços com raios ultravioletas. Uma máquina americana de nome Xenex e que custou cem mil euros. "Tiveram um caso de covid-19 logo no início, o que permitiu aprender com isso", sublinha Diogo Ferreira.

Tenda especial enfeitada

Uma tenda da Proteção Civil, cedida pela autarquia, instalada no terraço da Residência Sénior das Fisgas, da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, vai permitir ar mais festividade às visitas dos familiares na época natalícia. "Embelezámos o espaço para não parecer igual aos outros dias. E, em vez de uma pessoa, vamos permitir três ou quatro familiares. O utente fica num dos lados, junto a uma mesa e à arvore de Natal, enquanto os visitantes ficam afastados. A tenda é arejada e permite o distanciamento necessário", explana Ana Carreira, diretora técnica do lar.

A tenda vai juntar-se a uma outra divisão, onde têm sido as visitas. Aqui o utente e o familiar estão separados por um acrílico, com uma abertura em baixo, como se tratasse de um guiché. "É para terem algum contacto, calçam as luvas e dão as mãos. No primeiro dia em que o fizemos chorámos todos, agarraram com tanta força as mãos. Antes, a pessoa ficava no interior e o familiar do lado de fora da janela", ilustra a técnica.

Os dias das visitas também serão alterados por forma a juntarem-se aos dias de Natal e Ano Novo. Habitualmente, as visitas são à terça, sexta e sábado, 15 minutos por utente, um espaço com pouca decoração, uma vez que tem de ser tudo desinfetado e arejado depois de cada visita. "Temos de ter um acompanhante durante a visitante, os familiares não respeitavam as regras de distanciamento", observa Ana Carreira.

Fernando Tavares, 90 anos, tipógrafo, aparece para dar os últimos retoques na árvore de Natal. Conta que trabalhou no Diário de Notícias e que, desse tempo, ficou-lhe a mania de anotar tudo. Anda sempre acompanhado de um bloco e de uma caneta.

Dotes para a escrita tem Susy Garrido, 92 anos, era enfermeira. E, num instante, escreve umas quadras apropriadas ao Natal em tempos de pandemia. "Foi sempre quadra festiva, mas neste ano é diferente. O vírus veio de investida e já matou muita gente. Evitar agrupamentos para se não propagar, reprimir os sentimentos dos entes querer abraçar. Neste ano, é especial esta quadra festejar. Festejemos pois então o Natal que nos é dado e haja a consolação de não haver infetados. Para todo um bom Natal, na medida do possível. E sem vírus, afinal, já temos um Natal incrível". Explica que escreve todos os dias: "É o meu exercício mental."

Susy costuma passar o Natal com uma sobrinha, mas neste ano prefere ficar na instituição. Isto, apesar de haver saídas domiciliárias, mas apenas seis utentes o vão fazer. Vão a casa duas semanas, o que inclui Natal e Ano Novo, todos em dias diferentes para haver desfasamento. A família tem de apresentar o teste do utente antes de este entrar e ir para uma zona de isolamento. O lar tem quatro alas e não há contactos entre eles. "Chegámos a fazer visitas guiadas às alas. Temos uma creche ao lado e conviviam com as crianças, os palhaços continuam a vir, mas não estão mascarados e não se vê a boca. É muito difícil para quem aqui está. O que nos valeu foi que tivemos um bom verão e eles podiam vir para o exterior", conta Ana Carreira.

A residência tem 60 utentes, alguns dos quartos destinados à Segurança Social. Os utentes pagam entre 300 e 800 euros, por quartos duplos, sendo o resto suportado pelo Estado. Recebem visitas regularmente cerca de 80%. Ana Carreira sublinha: "As pessoas estão assustadas, apesar de desligarmos os canais de notícias. Antes da telescola, viam o canal RTP Memória, agora vêm vídeos disponíveis no YouTube: filmes portugueses, concertos, circo." Diz Ana Carreira: "É uma espécie de discos pedidos."

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