Heróis esquecidos

Como seria se soubéssemos dos grandes jogadores do passado tudo que sabemos sobre os de hoje em matéria de performance e rendimento?

Lewandowski, do Bayern de Munique, foi eleito pela FIFA na quinta-feira o melhor jogador do mundo na temporada. Seus concorrentes eram Cristiano Ronaldo e Leonel Messi. Fosse para municiar as apostas num vencedor ou para demonstrar a magnitude da eleição, as agências nos bombardearam durante semanas com todas as informações possíveis sobre esses craques. Ficamos sabendo quantos golos cada um marcou até hoje e em quantos anos de carreira; quantos por ano, quantos por partida em média, quantos de pé direito, quantos de pé esquerdo, quantos de cabeça, quantos de fora da área, quantos de penálti, quantos de cobrança de falta e de quantos em quantos minutos, em média, cada qual marcou cada golo.

Seguiam-se mais estatísticas, referentes às atuações de cada um em sua seleção nacional e pelo clube ou clubes em que jogou - quantos golos, quantas partidas, quantos de penálti, de falta, de cabeça etc., etc., e as respetivas médias de tudo isso por jogo e por minuto. E mais: quantos títulos (mundiais, continentais, nacionais) e quantas vitórias e derrotas por cada clube ou seleção, e as inevitáveis médias por ano, por partida e por minuto. Ufa!

Essa avalancha de dados não se limita aos eternos candidatos a melhor do mundo, como Cristiano Ronaldo e Messi, nem aos que eventualmente poderiam desafiá-los, como Lewandowski, Neymar ou Mbappé. Hoje, todos os jogadores dos grandes clubes de toda parte têm suas performances escrutinadas jogo a jogo. Ao fim de cada partida, as equipas de monitoramento desses clubes são capazes de dizer não só quantas vezes cada jogador tocou na bola, chutou à meta, desarmou os adversários ou serviu os companheiros, mas quanto correu em quilómetros, por quantos minutos e a qual velocidade, a média de seus batimentos cardíacos, quantos litros despejou de suor e o total de suas piscadelas de olhos nos 90 minutos - para tanto serve aquela caranguejola eletrónica que eles usam grudada às costas sob a camisola.

Não admira que, sabendo tudo sobre si mesmos e sobre os outros, nossos craques vivam batendo recordes, os próprios e os alheios. É o que chamam de "objetivos a alcançar", e com razão, porque cada recorde batido equivale a uma bonificação no contrato e a alguns milhões na conta bancária. Houve uma época, se se lembram, em que Messi parecia bater um recorde dia sim, dia não. Achava-se até que ele já tinha batido todos os recordes possíveis. Esqueciam-se, claro, de um que ele nunca bateu e nunca baterá: o de Copas do Mundo conquistadas para seu país - tem zero Copas pela Argentina, contra as três conquistadas por Pelé para o Brasil.

Enfim, é uma sorte que os jogadores de hoje disponham de equipamentos que nos informem sobre suas estatísticas. O futebol ganhou com isso. Só lamento que não fosse assim antes, muito antes. Eu gostaria de saber, por exemplo, se, armados com tais recursos, teríamos podido avaliar o rendimento de tantos avançados de outros tempos, aqueles de quem só ouvimos falar em livros e reportagens e pelas descrições dos mais velhos e os que, mesmo mais recentes, não beneficiaram do arsenal de análise de que beneficiamos agora.

Para ficarmos somente aqui pela vizinhança do Brasil, eu citaria alguns grandes craques dos últimos cem anos - homens como o peruano Cubillas, o chileno Valdés, os uruguaios Schiaffino e Gigghia, os argentinos Labruna, Moreno, Lostau, Méndez, Di Stéfano, Sívori, Artime e Kempes, e os nossos Friedenreich, Riemer, Feitiço, Preguinho, Leônidas, Perácio, Ademir, Heleno, Julinho, Garrincha, Evaristo, Dida, Vavá, Coutinho, Amarildo, Jairzinho, Rivelino, Tostão, Zico, Reinaldo, Roberto Dinamite, Nunes, Careca, Bebeto, Romário, Edmundo, uns mil outros e, ah, sim, Pelé. E estou me referindo apenas aos que se notabilizaram por sua genialidade como avançados. Deixei de fora os meio-campistas cerebrais, como Fausto, Tim, Zizinho, Danilo, Bauer, Jair, Didi, Rubens, Gerson, Paulo Cesar Caju, Zé Carlos, Dirceu Lopes, Ademir da Guia, Falcão, Carpegiani, Adílio, Sócrates e muitos mais, cada qual capaz de ficar seis meses sem errar um passe.

Sim, eu sei que esses nomes, exceto pelos que disputaram Copas do Mundo ou jogaram em clubes internacionais, significam pouco ou nada para um europeu. Mas eu, que assisti a muitos deles, inclusive uns contra os outros, sei que a Europa se encantaria se os tivesse visto. E fico-me perguntando como seriam os números de suas carreiras - se tivessem sido contados. Quem fora do Brasil sabe que existiu, por exemplo, um meia-avançado chamado Zizinho, que atuou de 1939 a 1959 no Flamengo, no Bangu e no São Paulo, e foi eleito o maior jogador da Copa do Mundo de 1950? Zizinho era, simplesmente, o craque que Pelé um dia esperava se tornar.

Na verdade, essa lacuna de informações não se limita aos sul-americanos. Pense nos grandes jogadores europeus do passado que não tiveram seus feitos esquadrinhados. Será que muitos portugueses, ainda com vivas lembranças de Rui Costa, Luís Futre e Figo, saberão descrever as maravilhas que Fernando Peyroteo, Águas, Coluna, Nene e o próprio Eusébio produziram? Os russos saberão que um dia tiveram um jogador como Igor Netto? Os húngaros terão uma ideia perfeita do que Czibor, Kocsis, Kubala e Puskas significaram para o mundo? Os suecos se lembrarão de Hamrim e Skoglund? Os franceses, de Kopa e Fontaine? Os alemães, para além de Beckenbauer e Matthäus, saberão tudo sobre Overath, Rahn e Müller? E os britânicos, de Stanley Matthews, Billy Wright, George Best e do galês John Charles?

Nenhum desses homens teve seus golos, passes e dribles radiografados em números, estatísticas e percentuais. Nunca saberemos quantos quilómetros correram por partida e nem quanto despejaram de suor. Eles próprios nunca souberam que eram tão bons. Bem feito para eles. Quem os mandou jogar naquele remoto país chamado Ontem?

Jornalista e escritor brasileiro

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