Antas Atrium. Os terrenos do velhinho Estádio das Antas vão voltar a ganhar vida

Ao abandono desde que o antigo recinto portista foi demolido, em 2004, os terrenos junto à Alameda das Antas vão ver nascer um empreendimento habitacional com mais de mil apartamentos destinados às classes média e média-alta, num conceito de "luxo acessível". O arranque das obras está previsto para o primeiro trimestre de 2021.

Na Alameda das Antas, com o moderno Estádio do Dragão a atrair os olhares, lá ao fundo, há 16 anos que jazem num amplo descampado as memórias físicas do Estádio das Antas, o antigo recinto do FC Porto. Dele sobram uma velha torre de iluminação e um sentimento de nostalgia nos portuenses (e sobretudo nos portistas) que ali testemunham diariamente o abandonado espaço que já foi a mais importante catedral desportiva da cidade. Um abandono que está prestes a terminar.

Com o arranque previsto para o primeiro trimestre de 2021 (fevereiro/março), a área que durante mais de 50 anos acolheu o Estádio das Antas - inaugurado em 1952 com uma derrota frente ao Benfica e demolido em 2004 após um último jogo vitorioso frente ao Estrela da Amadora - vai ver nascer o Antas Atrium.

Trata-se de um empreendimento residencial que pretende apostar na atração de agregados de classe média e média-alta para aquela que "já foi a zona nobre da cidade, antes da Foz, e que volta a ganhar uma nova centralidade", descreve Carlos Vasconcellos, presidente executivo da Quântico, a sociedade portuguesa que em 2017 se aliou aos espanhóis da Albatross Capital para formarem o fundo imobiliário Quântico/Albatross.

No total, são quase 178 mil metros quadrados de área bruta de construção, divididos em seis lotes, que "num horizonte temporal de seis a sete anos" vão dotar aquela zona contígua à Alameda das Antas com mais "1000 a 1100 fogos habitacionais", explica ao DN Carlos Vasconcellos, que já foi CEO de alguma das maiores empresas portuguesas e brasileiras, como a PT Comunicações, a PT Internacional, a Telesp Celular ou a Global Telecom.

A primeira fase arranca então no primeiro trimestre de 2021 com 180 apartamentos - "estamos em fase final de escolha do parceiro de construção", refere o gestor. Com tipologias que vão do T0 ao T4, "predominarão sobretudo T1 e T2". O primeiro lote a arrancar é virado para a Alameda e situado mais próximo do Estádio do Dragão e do centro comercial ali existente. Depois, a construção far-se-á faseadamente até fechar o retângulo final em que se apresentará o Antas Atrium, com um grande espaço verde interior de cerca de 25 mil metros quadrados. "Será o bosque, como gostamos de lhe chamar", diz Carlos Vasconcellos.

No fundo, uma conceção algo semelhante a um estádio de futebol, com um grande retângulo verde ladeado não por bancadas, mas por blocos de apartamentos onde predominarão, segundo o promotor, boas varandas na maioria deles: "É um empreendimento que respira para dentro e para a Alameda."

O Plano de Pormenor das Antas e a câmara como "parceiro"

Condicionante inicial a qualquer projeto para esta área era o Plano de Pormenor das Antas, aprovado em 2002. "Cordialmente, o vereador do Urbanismo do Porto [Pedro Baganha] disse-nos logo à partida que a flexibilidade para mexer no PPA era zero", admitiu já Carlos Vasconcellos, numa conferência recente sobre os novos projetos estruturantes na cidade do Porto.

Ao DN, garante que a câmara liderada por Rui Moreira foi "um parceiro importante" e explica que o fundo Quântico/Albatross estudou "ao pormenor o PPA" desde que surgiu a oportunidade, "há pouco mais de um ano". Um aspeto importante foi verificar "que não havia obrigação de uma área comercial extensa" nesta zona classificada como "zona mista", destinada a habitação, comércio, serviços e equipamentos complementares. "Com uma grande superfície comercial ali tão perto [Alameda Shop & Spot], não faria sentido um empreendimento com uma grande área comercial", explica. Mas, dos cerca de 178 000 m2 de construção, "apenas menos de 2000 m2 são destinados a comércio, que será sobretudo um comércio de conveniência".

"Verificámos que podíamos ultrapassar as limitações do projeto com a possibilidade de fazer esse grande espaço verde de 25 mil metros quadrados no interior da área residencial", salienta Carlos Vasconcellos, que garante que foram até "além do exigido pela autarquia", ao encomendarem por iniciativa própria um estudo de impacte ambiental Estudo de Impacte Ambiental para a obra.

"Luxo acessível" por 3500 euros/m2

Com a classe média e média-alta como target preferencial, o Antas Atrium será "aquilo a que chamamos de affordable luxury", descreve o gestor. "É um grande projeto, de grande modernidade, como se pode constatar já nas imagens 3D disponíveis, com um conjunto de amenities [comodidades] que são próprias de empreendimentos de luxo, mas a preços acessíveis para a classe média", refere.

O preço por metro quadrado rondará "os 3500 euros" e os apartamentos serão construídos numa lógica de "otimização de espaços para otimização de preços", sublinha. "São apartamentos compactos, na lógica da construção naval. Ou seja, optámos pela supressão de espaços perdidos (como corredores) para apostar mais nas áreas úteis, com grande arrumação interior das habitações. No fundo é oferecer a mesma funcionalidade de uma determinada tipologia, mas com 10% a 20% menos de área, o que permitirá um preço final 10% a 20% mais baixo do que o praticado pelo mercado."

OODA responsável pela arquitetura

A arquitetura do projeto ficou a cargo do gabinete OODA, de Matosinhos, já responsável também pela requalificação do Matadouro do Porto, ali perto, do outro lado da Via de Cintura Interna que atravessa aquela zona da cidade, o que "vai permitir uma harmonia e complementaridade nesta Zona Oriental do Porto", destaca Carlos Vasconcellos.

Entre as amenities que completarão o "conforto" de um empreendimento ecofriendly e focado no conceito de sustentabilidade, haverá "percursos pedonais e de corrida, bicicletas, zonas de carregamentos elétricos, office space, lavandaria, ginásio e piscina interior e até uma horta ecológica", enumera o gestor, que sublinha ainda que os condóminos poderão usufruir desses equipamentos desde a primeira fase.

Pensada antes da pandemia, a aposta do fundo Quântico/Albatross não ficou condicionada pelo contexto covid, garante Carlos Vasconcellos, para quem este é um segmento de eleição onde escasseia oferta de qualidade em Lisboa e Porto. "O nosso objetivo, com os nossos parceiros e investidores, é este segmento. Projetos de 40/50 mil metros quadrados para cima, no Porto ou em Lisboa. Temos a noção de que é o que falta nas duas cidades. Há um gueto nestes segmentos intermédios que pretendemos continuar a explorar."

Voltando ao Antas Atrium, onde o investimento previsto é de 240 milhões de euros, não haverá nele qualquer memorabilia ou elemento evocativo do velhinho Estádio das Antas que ali jaz. "Isso está e estará sempre no coração das pessoas, dos portuenses e dos portistas", diz o gestor, que também garante ainda não ter recebido qualquer telefonema de Pinto da Costa.

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