Círculo Eça de Queiroz comemora 80 anos

Duas exposições inauguram nesta semana no Círculo Eça de Queiroz para marcar o 80.º aniversário da agremiação cultural. Mas não só. O programa estende-se a 2021 com ciclos de música, cinema e debates.

Foi a 16 de dezembro de 1940 que se validaram os estatutos do Círculo Eça de Queiroz. E, para assinalar as oito décadas, a instituição, presidida desde 2015 por Pedro Rebelo de Sousa inaugurou nesta quarta-feira duas exposições em simultâneo num almoço que reuniu várias individualidades da cultura portuguesa.

A exposição principal evoca os fundadores do Círculo Eça de Queiroz (CEQ), onde figura o nome de António Ferro, escritor, jornalista do DN e secretário da Propaganda Nacional no Estado Novo, ou do arquiteto Jorge Segurado. Também é recordado o banquete inaugural do CEQ no qual o prémio Nobel da Literatura, o belga Maurice Maeterlinck, se tornou o primeiro sócio honorário da instituição.

Na exposição paralela faz-se a abordagem da coleção de arte do CEQ - na sua maior parte formada durante os anos em que António Ferro dirigia o Secretariado da Propaganda Nacional (SPN). As obras de Canto da Maia, Bernardo Marques, Leopoldo de Almeida, Júlio de Sousa, Estrela Faria e Paulo Ferreira - artistas ligados às Exposições de Arte Moderna do SPN, às grandes feiras internacionais de Paris e Nova Iorque e à Exposição do Mundo Português - fazem do Círculo Eça de Queiroz um pequeno museu do movimento chamado Segundo Modernismo Português.

Nas palavras do curador das exposições, Francisco de Almeida Dias, "é nos momentos mais difíceis que importa tomar uma posição clara, acima das circunstâncias, conquanto elas pareçam, no imediato, dramáticas. Assim o fez António Ferro em 1940, com a Europa em pé de guerra, e assim se faz agora, com o mundo a braços com esta pavorosa pandemia de 2020."

O CEQ, que tem o estatuto de utilidade pública desde 2005 foi fundado com o objetivo de fomentar "o bom convívio entre os seus sócios e convidados e também o gosto pelas letras e as artes, por meio de conferências, exposições e concertos". O Círculo tem 202 associados, a quantidade está relacionada com número de uma mansão imaginária nos Campos Elísios, onde uma das personagens ficcionais do escritor Eça de Queiroz, Jacinto, viveu no século XIX, em Paris. Ao longo do tempo, o clube decidiu admitir um pequeno número de membros acima de 202, que gozam de todos os direitos sociais, exceto o do voto. Esses associados, supranumerários, aguardam vaga na Categoria A.

Na inauguração, Francisco Almeida Dias fez referência à cedência de documentação por parte do arquivo do DN sem a qual a exposição não seria possível.

Pedro Rebelo de Sousa

Presidente do Círculo Eça de Queiroz
"A pandemia tem sido um momento difícil apesar do notável esforço de os sócios voltarem a frequentar o Círculo"

Para além da dupla exposição a comemorar os 80 anos do Círculo, inaugurada nesta semana, que outras iniciativas estão previstas?
Para além das exposições já referidas e agora inauguradas, teremos um ciclo musical dinamizado por Adriano Jordão, um ciclo de recitais, bem como debates sobre personalidades associadas à fundação do Círculo: António Ferro, Lopes Ribeiro, Segurado, Maeterlinck, etc.) bem como um ciclo de cinema queiroziano, em colaboração com a Cinemateca. Exposições de forte componente iconográfica, reproduzindo documentos e imagens até agora inéditos. Eventual edição de brochura e exposição virtual para disponibilizar através do site, dadas as restrições criadas pelo contexto pandémico. Teremos ainda encontros, presenciais ou virtuais, em redor das obras de arte do CEQ - as da exposição e outras. Já em 2021 retomaremos o programa de conferências sob coordenação dos professores Rui Ramos, Manuel Braga da Cruz e do doutor Manuel Dinis de Abreu pois 80 anos da fundação do Círculo Eça de Queiroz em Lisboa, em 1940, é uma oportunidade para refletir sobre as mudanças em Portugal e no mundo nos últimos 80 anos, e debater o que poderá acontecer nas próximas décadas. Estão previstas nove sessões quinzenais que versarão, entre outros temas, sobre o Círculo Eça de Queiroz em 1940 e em 2020, o mundo de língua portuguesa, ameaças à democracia ontem e hoje ou a comunicação social: dos grandes jornais às redes sociais.

A pandemia afetou o Círculo de alguma forma?
Sim, o Círculo fechou de 13 de março a finais de maio e durante todo o mês de agosto. Tem sido um momento difícil apesar do notável esforço de os sócios voltarem a frequentá-lo atentos todos os requisitos de segurança e rigoroso funcionamento. A redução drástica de eventos e número limitado de participantes aliados, naturalmente, ao abrandamento do convívio nas suas instalações para o habitual almoço deixam uma imagem de um exercício de 2020 muito desafiante a vários títulos.

Qual continua a ser o papel atual do Círculo Eça de Queiroz na sociedade cultural portuguesa?
O Círculo afirma-se, a par de instituições como o Grémio Literário e a Sociedade de Geografia, como uma instituição de índole sociocultural independente de quaisquer movimentos ou correntes políticas, ideológicas ou de pensamentos filosóficos, correntes científicas e de natureza programática. Uma plataforma, como desejada pelos fundadores, para um debate de ideias, apresentação e divulgação de obras e de manifestações de ordem artística em particular musical, o Círculo assume-se com outras associações, como as citadas ou ainda o CNC, para promoção de eventos diversos. Através de protocolos com congéneres internacionais recebe sócios e os seus realizam visitas que enriquecem o intercâmbio sociocultural. Exemplificativamente, ciclos de conferências com embaixadores acreditados em Lisboa dos países com maior relevo para Portugal, em que se debatem as estratégias recíprocas, são momentos de intensa exposição do clube. Tertúlias várias funcionam ao seu abrigo com dinamismo assinalado. Com a Fundação Eça de Queiroz tem homenageado o patrono com inúmeras conferências e lançamentos de obras. Nos últimos anos o Círculo consagrou como seus sócios honorários, entre outros, Eduardo Lourenço, João Lobo Antunes (ambos em vida), Adriano Moreira, Marcelo Rebelo de Sousa - antes de assumir a Presidência da República -, Fernando Henrique Cardoso, Eunice Muñoz e inúmeras personalidades como sócios correspondentes como recentemente Nelida Piñon e Renato Flores.

É presidente desde 2015. Como adjetiva a sua presidência?
A presidência que tenta honrar os que sucedeu (Prof. Bigotte Chorão - pai de Pedro Mexia -, juiz conselheiro Gonçalves Pereira e Fernando Guedes - fundador e presidente da editora Verbo, membro da Távola Redonda) mas conferindo uma dinâmica de aproximação mais ativa aos membros das ciências, artes, letras e restante mundo intelectual com uma tónica muito forte no rejuvenescimento quer dos sócios quer dos convidados mais frequentes.

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