Cronologia dos factos no lar de Reguengos: desidratação, cheiro de urina e médicos que se sentiram mal

No relatório entregue aos ministérios da Saúde e da Segurança Social e ao Ministério Público, a Ordem dos Médicos faz uma cronologia sobre tudo o que aconteceu entre os dias 17 de junho e 16 de julho, data em que visitou o lar.

Num mês morreram 17 pessoas, a 18.ª morreria a 29 de julho. Foram infetados 80 utentes do Lar Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva (FMIVPS) e 26 funcionários, mas, ao todo, o surto de Reguengos de Monsaraz contabilizou 162 infetados. O DN teve acesso ao relatório elaborado pela Comissão de Inquérito da Ordem dos Médicos (OM), que teve por base a denúncia de várias situações pelos médicos que ali foram chamados a dar apoio. O Ministério Público (MP) também já está a investigar. Aqui fica o relato dos factos feito pela OM.

17 de junho, quarta-feira

É o primeiro caso diagnosticado com infeção de covid-19. Trata-se de uma funcionária do lar, com 40 anos, que teria recebido a visita da irmã, que reside em Lisboa, no fim de semana anterior, permanecendo a trabalhar na fase pré-sintomática. Neste dia, a funcionária dirige-se à médica de família por apresentar sintomatologia. A médica contacta a Autoridade de Saúde Pública local, informando que vai enviar a utente para o hospital por suspeita de infeção pelo novo coronavírus. A doente acaba por ficar internada.

18 de junho, quinta-feira

Depois de ter sido notificada do caso de infeção da funcionária do lar, a Autoridade de Saúde Pública Local articula com o diretor do ACES o rastreio dos restantes funcionários e de todos os utentes do mesmo. O caso é noticiado. Ao fim da manhã, os médicos da USF Remo recebem uma notificação do ACES, por e-mail, para se dirigirem ao lar da FMIVPS e realizarem os testes de rastreio de infeção de covid-19 a todos os utentes e funcionários; nessa tarde, um médico e cinco enfermeiros realizam mais de uma centena de colheitas, sem conseguirem terminar a tarefa pelas más condições que dispunham.

19 de junho, sexta-feira

De manhã são realizadas as restantes colheitas para os testes de rastreio por uma equipa de um laboratório privado. Os médicos da Unidade de Saúde Familiar (USF) Remo recebem um e-mail a comunicar que deveriam deslocar-se novamente ao lar para avaliar cerca de 50 utentes com um rastreio positivo para infeção por covid-19 (após chegada dos primeiros resultados). Existem nesse momento poucos equipamentos de proteção individual (EPI) na USF. E os médicos são informados de que chegará um carregamento de EPI no dia 20 de manhã. Deslocam-se ao lar dois médicos de medicina geral e familiar, após fazerem o levantamento das listas de problemas dos utentes e fluxogramas de atuação clínica sobre doentes com covid. Após a avaliação, entendem que 11 doentes têm critérios de gravidade para referenciação hospitalar. Contactam o ACES, recebendo a informação de que devem contactar a linha 112. Os doentes são transferidos para o Hospital Espírito Santo de Évora (HESE) e três acabam por ficar internados.

20 de junho, sábado

Ainda não são conhecidos todos os resultados dos testes de rastreio. A grande maioria dos doentes que já se sabe serem positivos estão em quartos separados dos restantes. No entanto, alguns doentes que não constam ainda da lista de infetados encontram-se "misturados" com doentes positivos confirmados nos mesmos quartos, e todos circulam pelos mesmos corredores e áreas comuns. As casas de banho também são partilhadas. Os utentes não usam máscara cirúrgica ou comunitária. Morre o primeiro doente e já há 43 utentes e 15 funcionários infetados.

21 de junho, domingo

Os médicos da USF Remo que fizeram a avaliação inicial dos utentes do lar da FMIVPS infetados são submetidos a rastreio da infeção. Simultaneamente reportam à direção do ACES e à Autoridade de Saúde Pública, através de e-mail, as péssimas condições existentes na instituição para prestação de cuidados aos utentes infetados. A equipa das Forças Armadas faz a avaliação inicial in loco da situação.

22 de junho, segunda-feira

Os mesmos médicos da USS Remo são informados de que devem manter a prestação de cuidados aos doentes do lar, de acordo com um despacho ministerial. Nessa manhã, encontraram no lar elementos das forças militares. Durante a tarde, três doentes agravaram a sua situação clínica.

23 de junho, terça-feira

A Segurança Social faz uma visita ao lar. Uma equipa de dois médicos e três enfermeiros vai ao lar fazer novamente os testes de rastreio aos utentes e funcionários que tinham anteriormente testado negativo. Equipam-se no ginásio. Os EPI não tinham o tamanho adequado (eram pequenos), constituindo perigo de falha na segurança dos profissionais de saúde. Não existem circuitos definidos para separação de pessoas infetadas e não infetadas. Foi-lhes solicitado, por um colega da UCCI contígua ao lar, que se deslocassem aos quartos dos doentes para a realização dos testes de rastreio, uma vez que estes tinham grande dificuldade de mobilização e faltavam recursos humanos suficientes para proceder a essa deslocação.

A equipa médica desloca-se aos quartos dos utentes em causa. Observam funcionários do lar em contacto com os doentes, utilizando apenas uma máscara cirúrgica, sendo certo que os doentes não utilizavam qualquer tipo de máscara. E descrevem que havia "quartos de quatro ou de cinco camas, numa parte do edifício antigo, degradado, com calor extremo, cheiro horrível, lixo no chão, vestígios de urina seca no pavimento".

Os doentes estão deitados em camas quase lado a lado, sem espaço para se movimentarem. "Vemos doentes acamados, desidratados, desnutridos, alguns com escaras com pensos repassados, alguns só usando uma fralda, completamente desorientados." Um dos médicos sentiu-se mal ao fim de realizar 15 testes, deslocando-se ao ginásio para remover o EPI: não encontrou zona delimitada para a retirada do mesmo em segurança.

Não dispôs de casa de banho para se lavar, desinfetar, mudar a roupa, que estava toda molhada. A avaliação dos sinais vitais dos doentes tinha sido realizada por equipas de enfermagem, que informam os médicos de que os doentes estão clinicamente estáveis. Não conseguiram realizar os testes de rastreio a todas as pessoas, pelo menos a 12 ou 13 que constavam da lista que lhes tinha sido fornecida, mas que não se encontravam no lar naquele momento.

Ninguém lhes conseguiu dar a informação sobre o paradeiro dessas pessoas: alguns seriam utentes transferidos para o hospital, outros funcionários que estariam em quarentena no domicílio. No dia seguinte, ambos foram trabalhar para a USF. Nunca foram testados para covid-19. Até à altura do inquérito, nenhum desenvolveu qualquer sintomatologia de infeção.

24 de junho, quarta-feira

Nesta altura, havia já cerca de 70 utentes do lar infetados com covid-19. Os únicos oito utentes que testam negativo são transferidos para outra instituição. Os médicos da USF Remo, após solicitação, têm finalmente uma reunião com a direção do ACES e com a Autoridade de Saúde Pública. Há um médico que fica nomeado como interlocutor com o ACES, porque o coordenador da USF Remo está de quarentena.

Na reunião, os médicos são informados pelo presidente da ARSA, José Robalo, de que devem manter a prestação de cuidados no lar, porque, caso contrário, incorreriam em processo disciplinar. Quatro médicos da USF Remo vão ao Lar, transportando consigo os EPI que haviam recebido na USF no dia 20. Equipam-se no ginásio da instituição, improvisado para esse fim. Não há zonas delimitadas para vestir ou despir os equipamentos de proteção individual nem cartazes afixados com a informação das boas práticas clínicas a ter em atenção nestes procedimentos.

Foram acompanhados de uma funcionária do lar que ia identificando os doentes, para que os pudessem ir avaliando de acordo com a lista que lhes foi fornecida. Os doentes não usavam máscara cirúrgica, estando distribuídos por quartos com duas a seis camas, algumas com espaço tão reduzido entre elas que tinham de circular de lado para conseguirem chegar ao doente. Não existem frascos de gel de desinfeção das mãos nos quartos ou nos corredores. Dispunham de termómetro e oxímetro para as avaliações clínicas. Não há aparelhos de climatização ou circulação do ar, pelo que os quartos têm temperaturas elevadas. Os médicos contam que há obras no exterior e muito barulho. Vários doentes referem que há vários dias que não lhes é administrada a medicação habitual.

À saída, verificaram que os funcionários do lar não tinham conhecimento sobre a forma de tratamento dos resíduos contaminados, pelo que colocaram os EPI num saco, levando-o para a USF.

25 de junho, quinta-feira

Há nova reunião com a direção do ACES, que determina que, apesar de reconhecimento de falta de condições de segurança, os médicos devem continuar a prestar os cuidados possíveis aos utentes infetados do lar. Nunca foi dado a conhecer até esta altura o plano de contingência da instituição. Fica determinado que deveriam, a partir daquele momento, ser sempre escalados três médicos 24h/24h, além da equipa de enfermagem. Esta equipa médica seria constituída por um médico militar, um de medicina geral e familias e um internista do HESE. Esta informação é emitida em despacho da ARS Alentejo.

26 de junho, sexta-feira

Durante a manhã há uma reunião presencial no lar da FMIVPS, com a presença do diretor clínico e o diretor executivo do ACES, bem como o representante das Forças Armadas e um médico do HESE.

À tarde são desenhados os circuitos dos doentes para separação dos circuitos "limpos" e "sujos". Todos os doentes infetados são alojados no 1.º andar do edifício, para o rés-do-chão constituir zona limpa para as equipas de saúde. Uma equipa médica do HESE desloca-se ao lar, por indicação da administração e pressão do presidente da ARS, para fazer uma avaliação clínica dos doentes, de modo a analisar a gravidade da situação e as repercussões esperadas na atividade hospitalar. Referem que "a maioria dos doentes se encontrava clinicamente estável, alguns acamados, alguns a fazer oxigenoterapia por hipoxemia".

As Forcas Armadas já haviam transportado para o lar algum equipamento de monitorização e balas de oxigénio. Não viram carro de emergência. Não havia controlo da medicação que era prescrita ou administrada. Prescreveram avaliação laboratorial à maior parte dos doentes e transferiram alguns para o hospital.

27 de junho, sábado

Chega ao lar remessa de fármacos necessários para uma melhor prestação dos cuidados aos utentes, de acordo com uma lista elaborada por um médico internista do hospital de Beja. Os médicos solicitaram a presença do presidente da ARS Alentejo na instituição para verificação das más condições existentes, mas ficou decidido que seria o diretor clínico do ACES a assumir a responsabilidade pela instituição. A equipa médica transfere alguns doentes para o hospital por agravamento do estado clínico.

28 de junho, domingo

Durante este fim de semana, chegaram a estar presentes no lar cinco médicos, que se deslocavam todos os dias, dois médicos da USF, dois médicos das Forças Armadas. No entanto, vários doentes mostravam agravamento do seu estado clínico, com sinais de desidratação, desnutrição, disfunção renal.

De 29 de junho, segunda-feira, a 1 julho, quarta-feira

Todos os dias se deslocam ao lar médicos das USF locais, alguns dos dias acompanhados de médicos hospitalares ou das Forças Armadas para prestação de cuidados clínicos aos doentes. No dia 30, deslocou-se uma equipa médica de medicina interna do HESE para fazer uma visita geral aos doentes e colher sangue para controlo analítico. Sistematicamente, as equipas médicas alertaram autoridades competentes de que não dispõem das condições necessárias para tratar os doentes de acordo com as boas práticas clínicas.

2 de julho, quinta-feira

É ativado o plano municipal de emergência em Reguengos de Monsaraz. O presidente da câmara anuncia que os utentes infetados vão ser transferidos para um pavilhão no Parque de Feiras da cidade.

3 de julho, sexta-feira

Os utentes com covid-19 já eram cerca de 60 e são transferidos para o pavilhão multiúsos de Reguengos de Monsaraz. Os médicos do ACES AC recebem um e-mail por parte da diretora executiva e do presidente do conselho clínico e saúde, com a distribuição das diferentes unidades funcionais do ACES, até ao início de setembro, atendendo à necessidade de dar cumprimento à determinação do conselho diretivo da ARS Alentejo, no âmbito da prestação de cuidados de saúde (médicos e de enfermagem) aos utentes covid da FMIVPS em Reguengos de Monsaraz. Nesta altura, já havia oito mortes e 13 utentes no pavilhão.

Cada unidade funcional ficou responsável por designar uma equipa composta por um médico e um ou dois enfermeiros. A equipa trabalharia das 08.00 à 20.00 durante um período de quatro dias consecutivos, após o que se seguiriam sete dias de quarentena, com os profissionais testados durante este período. Os médicos hospitalares deixam de prestar apoio presencial, mantendo disponibilidade aos colegas para apoio por via telefónica. O número de internados no HESE do surto de covid-19 contabiliza 17, dos quais seis na unidade de cuidados intensivos.

4 de julho, sábado, e 5 de julho, domingo

Durante o fim de semana, morrem mais quatro doentes devido ao surto. Uma das mortes ocorre na comunidade, um homem de 52 anos. O número de internamentos no hospital sobe para 20.

6 de julho, segunda-feira

No pavilhão multiúsos, os doentes estão em "enfermarias" separadas por pladur, com seis a oito camas com distância adequada entre as mesmas. Os profissionais dispõem de EPI adequados.

7 de julho, terça-feira

Acabam por falecer mais dois doentes no hospital de Évora.

8 de julho, quarta-feira

O HESE reativa uma enfermaria para doentes com covid-19 para "dar resposta" ao "aumento de pressão" no internamento provocado pelo surto em Reguengos de Monsaraz. Entretanto, no pavilhão, o médico destacado pelo ACES não dispõe de fardamento à chegada. Em vez deste, é-lhe fornecido um pijama idêntico ao usado pelos doentes no internamento hospitalar.

"Muitos destes pijamas estavam rasgados/cortados, pois devido ao calor os voluntários cortaram as pernas/mangas dos mesmos." O médico faz a avaliação de cerca de 24, 25 doentes sintomáticos. A equipa de enfermagem avalia parâmetros vitais de todos os doentes e os registos são feitos pelo médico num ficheiro da Google Drive criado recentemente para esse efeito. Após a avaliação, é necessário transferir um doente para o hospital por agravamento do seu estado clínico: os bombeiros demoraram duas horas e meia a chegar.

O médico tenta ainda realizar uma avaliação analítica (ionograma) de um dos doente: contacta um colega do HESE, que sugere colher GSA, colocar em meio refrigerado e transportar até ao HESE. Como nenhum dos passos sugeridos é viável, o médico contacta o PCCS do ACES para relatar a situação. Neste dia, recebem a "medicação de urgência", com reforço de stock de alguns fármacos, que até então não existiam (adrenalina, atropina, clemastina, diazepam ev, dinitrato de isossorbida, hidrocortisona ev).

9 de julho, quinta-feira

O Ministério Público anuncia que está a proceder a averiguações sobre o surto de covid-19 em Reguengos de Monsaraz. Já havia 16 mortes. Os doentes estão mais estáveis do que na véspera. Parte do tempo é passado a rever prescrições terapêuticas, a acertar procedimentos com a farmácia comunitária, a rever os tipos de dieta disponível, a dar apoio aos voluntários que vêm pela primeira vez, a rever protocolo de colocação de EPI, stocks...

É feito um contacto com a Saúde Pública para programar a realização dos primeiros testes de cura aos utentes que ainda não o tinham feito.

10 de julho, sexta-feira

O médico de MGF, juntamente com o médico das Forças Armadas e dois enfermeiros, organizam a medicação de todos os doentes. Os blisters vindos da farmácia encontram-se todos amontoados numa mesa, alguns abertos, com variados comprimidos fora dos blisters e caídos na mesa. Verificam ainda que em várias ocasiões houve medicação que não foi administrada a muitos doentes. Passam várias horas a separar tudo por quartos, a arrumar os blisters e a confirmar as medicações. Iniciam a construção de um Cardex.

11 de julho, sábado

Os médicos continuam com as revisões terapêuticas para conclusão da construção de um Cardex para todos os doentes. Pela primeira vez, desde que aqui estão, os utentes puderam estar por períodos curtos (ao início da manhã e ao final da tarde) no exterior do edifício, num pequeno espaço vedado junto ao acesso do pavilhão onde se encontram.

15 de julho, quarta-feira

Mais uma morte, a décima sétima, devido ao surto de covid-19 com início no lar da FMIVPS.

16 de julho, quinta-feira

A Comissão de Inquérito da Ordem dos Médicos realiza visita ao pavilhão multiúsos situado no Parque da Feiras de Reguengos de Monsaraz, para onde foram deslocados os doentes do lar da FMIVPS infetados com covid-19. Realiza-se igualmente uma reunião com todas as autoridades locais e centrais da saúde, da Segurança Social e da Defesa Nacional.

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