Um policial no único lugar onde não há um português

A literatura policial escandinava foi surpreendida por um autor francês, Olivier Truc, que escreveu sobre o povo sami. Uma minoria discriminada que vive na Lapónia, um lugar onde nunca se viu um português mas o crime existe.

O título do primeiro de três policiais que têm como cenário o norte da Lapónia é Quarenta Dias sem Sombra e é nesse período escuro do ano que começa o romance de Olivier Truc que agora chega às livrarias portuguesas. No primeiro dia em que o sol reaparece no horizonte, o polícia Klemet obriga a sua colega de patrulha Nina a ver os primeiros raios enquanto um crime está a acontecer. Trata-se do assassínio de um pastor de renas e a dupla tem de investigar as causas dessa morte, que está em muito ligada às tradições do povo sami, ao racismo, à intolerância religiosa e à exploração de minérios.

Poderia dizer-se que é mais um policial nórdico típico, mas não é verdade. É o mais diferente e original que se faz neste género literário que os países escandinavos produzem à exaustão depois de este filão literário ter tomado de assalto o mundo dos livros devido ao sucesso da Saga Millennium de Stieg Larsson.

O autor, Olivier Truc, foi correspondente do jornal Libération e do Le Monde na Suécia. Entre as várias reportagens que foi escrevendo nos últimos 25 anos estão várias neste cenário esquecido pelas autoridades suecas, norueguesas e finlandesas, como o acompanhar das patrulhas da Polícia das Renas, que tem como função evitar discussões entre os vários pastores de renas e as confusões provocadas pelos seus rebanhos quando não são bem vigiados.

Com a diminuição de pedidos de reportagens por parte dos jornais, Olivier Truc decidiu concretizar uma ideia que há muito tempo lhe ocupava uma parte da cabeça: escrever sobre o povo indígena sami, o que vive mais perto do Polo Norte, ensanduichado entre as estepes geladas que fazem fronteira com a Rússia e os três países já referidos.

Além do crime que a dupla que continuará a existir em mais dois livros, Klemet e Nina, tem de solucionar, passam pelas quatrocentas páginas deste Quarenta Dias sem Sombra muitas outras questões antropológicas e sociológicas que afetam a relação nem sempre pacífica ou respeitadora das tradições deste povo indígena e a forma de ser dos habitantes dos países que rodeiam este grande norte da Lapónia.

Ainda o romance vai nas primeiras dezenas de páginas e percebe-se que as questões económicas vão surgir em força nos séculos seguintes através de uma expedição que em 1635 levou uma equipa de investigadores, arqueólogos e geógrafos para cartografarem as riquezas naturais da região. Aliás, esta expedição que até hoje tem repercussões na vida do povo sami foi a que deu argumento para o próximo romance, desta vez é histórico, de Olivier Truc. Relata a vontade da Suécia em se tornar rival de Espanha e de Portugal devido à exploração das minas de prata da Lapónia enquanto realiza a colonização da Lapónia pelo país, o que "fez" vir até Lisboa e Sagres um dos personagens para aprender cartografia na Casa da Índia e na mítica Escola de Sagres do infante D. Henrique em 1636.

Truc esteve um Portugal em 2016 - em jovem veio até cá à boleia - para fazer pesquisa histórica para esse novo romance que tem referências a um português, coisa pouco habitual na Lapónia. Quando se lhe diz que é impossível encontrar um lugar no mundo onde não exista alguém de Portugal, Olivier Truc pensa e garante que desconhece qualquer presença de um português entre o povo sami. Acrescenta que a época dos Descobrimentos deve ter sido "um tempo fascinante para Portugal" enquanto franze a testa a tentar encontrar um português no cenário onde o seu policial se passa.

Tendo sido publicado há seis anos em França, Quarenta Dias sem Sombra chega amanhã às livrarias portuguesas e o autor esteve em Lisboa na semana passada, altura em que deu uma entrevista ao DN.

Entrevista com Olivier Truc

Quando o primeiro livro é um sucesso o segundo torna-se um pesadelo para o autor. Foi o que lhe aconteceu?

Não, mesmo que tenha sido surpreendido pelo sucesso por não o esperar. Este assunto da Polícia das Renas na Lapónia é muito específico e poderia não interessar a muita gente, mas o que eu queria era escrever sobre esse tema. Tinha feito muitas reportagens e viagens à Lapónia e queria contar uma história que me dava prazer sem me preocupar com o leitor.

Depois continuou e já vai em três volumes...

Como era o meu primeiro romance, quando comecei a escrever Quarenta Dias sem Sombra [tenta dizer o título em português] fui invadido por muitas ideias que complicavam a estrutura do romance. Então, decidi logo que era melhor dividir o argumento em vários volumes ou seria uma coisa impossível de ler. Quando o livro saiu em 2012 ganhou vários prémios, fiquei satisfeito e decidi continuar a escrever sobre o tema como tinha pensado. Ou seja, meti-me no tal pesadelo mas por vontade própria, decidido a fazer um romance como o anterior mas com uma história muito diferente e bastante inesperada. Interessava-me que fosse um desafio que me dificultasse a escrita, evitando a monotonia dos policiais em moda entre os nórdicos, mesmo que continuassem a existir as duas personagens principais, Klemet e Nina.

E como ficou o jornalismo?

Sou jornalista há mais de 25 anos, no entanto o sucesso do livro abriu-me um mundo novo. Estava um pouco desiludido com os caminhos do jornalismo atual e queria encontrar soluções, pois enquanto correspondente em Estocolmo recebia cada vez menos pedidos da redação e não queria morrer de tédio. Eu não era leitor de policiais mas gostava da estrutura deste género e lera muitos thrillers. Então pedi a amigos que me recomendassem bons policiais, li dois manuais de autores consagrados e procurei a melhor forma de utilizar o material muito generoso que já tinha em mente.

Viveu essas aventuras na sua profissão?

O meu romance tinha a particularidade de ser inspirado em reportagens que já fizera com polícias na Lapónia, que eram elas próprias uma verdadeira matéria policial, durante sete anos na região. Designadamente uma série de verão para o Libération sobre os polícias das renas, em que fui para o terreno várias vezes durante mais de um ano e meio, dormia com eles dias seguidos, guiava a minha moto de neve, ou seja, vivia como igual. Muito do romance é sobre situações que vivi e que fui investigando.

Porque é o cenário da Lapónia tão ignorado pelos autores nórdicos?

Essa foi uma questão que eu coloquei muitas vezes e em sessões de apresentação perguntaram-me frequentemente porque era um estrangeiro a escrever sobre o tema. A explicação, creio, deve-se à existência de um problema de consciência por parte dos suecos devido a terem-se portado mal com o povo sami, o que se mantém até à atualidade. A colonização que fizeram dessa parte do território no século XVII, e posteriormente, com práticas racistas, bem como a dos outros países vizinhos como a Noruega e a Finlândia. Ainda hoje os sami são vítimas de discriminação por parte dos países à sua volta.

Mesmo que sejam muito protegidos pela legislação?

Sim, porque existe uma situação ambígua. De um lado há leis que os protegem, de outro não são na maioria das vezes aplicadas. Até há um Parlamento sami, mas é tudo fachada para esses três países justificarem o seu comportamento errado. Ainda há poucos meses os suecos foram admoestados pela Comissão de Discriminação de Genebra por desrespeito aos direitos dos sami. Isso enerva esses países nórdicos que se dizem os reis dos direitos civis! No papel está tudo bem, mas na realidade a situação é outra: muito racismo contra os sami; porque os consideram desordeiros, porque alegadamente exigem direitos especiais e aproveitam-se da situação de serem povos indígenas só para terem benefícios.

Como foi a reação a este romance na Suécia?

Foi bem recebido, mas houve uma grande surpresa por ser um francês a pôr o dedo neste problema e de uma forma tão direta. Até porque faltavam na história os clichés habituais neste tipo de narrativas e, creio, conseguia mostrar um profundo conhecimento da vida dessa região do grande norte.

E a reação dos sami?

Também gostaram do que leram e convidaram-me para a segunda edição do Festival de Literatura Sami, na Lapónia. Consideraram que, apesar de ser uma versão romanceada do que lhes acontece, o livro retratava-os e aos seus problemas de uma forma pouco habitual. Ninguém se interessa por eles e este romance descreve-os e fala dos seus problemas ao mundo, deixando os suecos de ficar na fotografia como os bons rapazes de sempre. Tanto assim que eles vieram contar-me muitas outras histórias para eu saber como é o povo sami.

Há entre o povo sami a comunicação de um património por via escrita ou é só oral?

Cada vez mais há mais documentos sobre os sami. Eles também têm alguns escritores e universidades, portanto começa a aparecer uma investigação sobre a sua cultura feita pelos próprios e por académicos suecos.

O país sami está a ser vítima do aquecimento global?

A situação está a ficar perigosa, pois existe um impacto na criação das renas, que ficam sem alimentos, e porque começa a haver muitas indústrias que utilizam os recursos naturais da Lapónia. Existe um risco grande para a cultura sami tal como se a conhece, com a transumância, de desaparecer em meio século. Está ameaçada e essa situação preocupa-os muito, mas os Estados nórdicos preferem estar do lado do crescimento da economia com as indústrias que se estabelecem cada vez mais no país em vez da produção das renas.

Aprendeu a língua sami?

É muito difícil e há vários dialetos. Como sei sueco, é assim que comunicamos, mas também há muitos sami que já não falam a sua língua devido à política dos países nórdicos de os obrigar a falar a língua predominante.

Quarenta Dias sem Sombra

Olivier Truc

Editora Planeta

437 páginas

PVP: 19,95

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