Barbra Streisand: assim nasceu uma estrela

Funny Girl: Uma Rapariga Endiabrada, de William Wyler, estreou-se há 50 anos. Foi o filme que revelou um novo ícone de Hollywood. E o Óscar da Academia não se fez esperar.

Contava 26 anos quando as luzes do cinema lhe confirmaram o destino de ser, como diz a canção a que deu voz, the greatest star. Na altura, já trazia dois Grammys no bolso, do seu disco inaugural, e antes disso tinha dado os primeiros passos na representação com a peça da Broadway I Can Get It for You Wholesale (1962), na qual fez um brilharete no solo Miss Marmelstein, que se tornou o tema mais famoso do espetáculo. Deste triunfo (somado à presença em nightclubs, com interpretações jazzísticas que incluíam comentários divertidos entre as músicas) até à glória absoluta, não foi preciso muita estafa. Logo a peça seguinte, Funny Girl (1964), assentou-lhe que nem uma luva: a história verídica da ascensão de Fanny Brice - a peculiaríssima comediante que fez nome como uma das Ziegfeld Girls - é a essência natural de, senhoras e senhores... Barbra Streisand.

Contava portanto 26 anos quando o veterano William Wyler lhe apontou a câmara ao semblante, que saltava à vista por uma beleza pouco convencional. Com efeito, Funny Girl: Uma Rapariga Endiabrada (1968), o filme que hoje assinala o cinquentenário da estreia, foi o golpe de asa de uma jovem judia nova-iorquina ansiosa por chegar mais longe; que é como quem diz, alcançar o topo de Hollywood. Depois do gigantesco sucesso que tinha sido o musical da Broadway, valendo a Streisand o privilégio de ser capa da Time, o produtor Ray Stark (genro de Fanny Brice), para quem o projeto era muito pessoal, fez questão de lhe atribuir novamente o papel da protagonista na versão cinematográfica - para desagrado da Columbia Pictures, que, por imperativos comerciais, achava mais agradável a aparência de Shirley MacLaine... Também começou por ser Sidney Lumet o realizador incumbido do projeto, mas rapidamente o ego de Streisand entrou em choque com as suas opções criativas. Do mesmo modo, foi considerado Frank Sinatra para o papel de Nick Arnstein (o marido de Fanny Brice), mas a atriz, embora o respeitasse no plano artístico, não o suportava pessoalmente.

Rodagem atribulada? No fim de contas, não tanto assim, porque Wyler, que sempre se recusara a fazer musicais devido à surdez de um ouvido (mazela da Segunda Guerra), acabou por engraçar com a debutante e deu-lhe toda a liberdade para exercer o narcisismo. Veja-se, a título de exemplo, que as decisões de como iluminar o seu rosto foram muitas vezes da própria, e mesmo a escolha de Omar Sharif para interpretar Arnstein partiu dela. Inclusivamente, os dois tiveram um caso amoroso que agitou os ânimos da imprensa, enquanto decorria a Guerra dos Seis Dias - como se pode perceber, por ela ser judia e ele egípcio. Em todo o caso, o que verdadeiramente ficou na memória desta estreia de Barbra Streisand nas lides de Hollywood foi a sua enorme aclamação. A crítica declarou-se unânime nesse aspeto: o filme era ela, ponto final. Por isso, a estatueta dourada assentou tão bem a esta novata audaciosa.

Hello, gorgeous

"Diz-se com frequência que o musical Funny Girl foi um conforto para as pessoas porque trazia a mensagem de que não é preciso ser-se bonito para ter sucesso. Isso é um absurdo; a 'mensagem' de Barbra Streisand em Funny Girl é de que o talento é beleza. E isto não é nenhuma mensagem reconfortante para as pessoas comuns; é a definição de show business." O elogio de Pauline Kael, respeitada crítica de cinema americana, resume e explica bem aquilo que fez da recém-chegada às luzes da ribalta um caso extraordinário em 1968 (quando Hollywood já tinha tido os seus dias de ouro e se preparava para uma viragem). A verdade é que a fisionomia de Streisand quebrou algo na noção comum de "estrela de cinema": estava longe de corresponder aos padrões de beleza da indústria que lançou Marlene Dietrich, Greta Garbo, Audrey Hepburn ou Marilyn Monroe. A sua particularidade denotou-se nas inflexões de voz e numa graça espontânea, entre o drama e a comédia, evidente nos gestos e linguagem do corpo, isto é, numa persona muito bem definida.

Por isso, as duas primeiras palavras pronunciadas no filme, e repetidas no discurso de aceitação do Óscar, se tornaram tão simbólicas. "Hello, gorgeous", diz nessa célebre cena preambular, com um sorriso e brilho melancólico nos olhos, enquanto se mira de perfil ao espelho com o rosto meio escondido na aba do casaco tigresa. De seguida, dirige-se para o palco de onde se vê uma plateia vazia, e do vazio irrompe o som de aplausos-fantasma: não há entrada mais bonita do que esta para uma atriz principiante... Ainda na cena, esta é a altura em que ela experimenta connosco o lado do espectador. Senta-se num lugar dessa plateia sem recheio e, através de um longo flashback, revisita a história que a conduziu a esta aparência de diva nostálgica, horas antes de uma grande noite de estreia. Ou seja, revisita, e nós revisitamos com ela, o nascimento de uma estrela, e o seu atribulado romance com um jogador profissional.

Nesta viagem no tempo, nunca deixamos de confundir a personagem com a própria Barbra Streisand. Mas importa relembrar que é Fanny Brice (1891-1951) a figura que nos é apresentada através dela; uma personalidade fascinante posta em perspetiva biográfica. Trata-se do caso extraordinário de uma nova-iorquina judia (tal como Streisand) que, apesar de consciente da sua pouco formosa aparência, sonhou, com muita convicção, um dia vir a brilhar nos palcos da Broadway. E o sonho teve pernas para andar graças ao célebre empresário teatral Florenz Ziegfeld, que se rendeu ao seu talento vocal e inteligência performativa, com essa característica tão rara numa intérprete feminina - o génio cómico. Foi esta singularidade que lhe valeu depois (e isto não é relatado no período que o filme acompanha) um lugar na rádio e alguns papéis no cinema, entre eles, em O Grande Ziegfeld (1936) e As Mil Apoteoses de Ziegfeld (1945), ambos com William Powell no papel do empresário.

Entre o clássico e o moderno

Funny Girl foi o segundo filme mais rentável desse ano de 1968, numa lista encabeçada por 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. E se tal curiosidade interessa, não é de somenos referir que está também classificado, pelo American Film Institute, no 16.º lugar do elenco dos melhores musicais. A grande razão? Não desfazendo a perícia de William Wyler, que já acumulava 40 anos de carreira e um profundo conhecimento da indústria de Hollywood, Barbra Streisand levou tudo à frente. A mais-valia do cinema em relação à Broadway consistia nesta possibilidade de revelar plenamente a sua expressão facial, esse mapa de emoções que, no teatro, a distância do palco não permite captar tão bem (ou nem sequer permite captar).

Por essa razão, Funny Girl funcionou como um acesso mais íntimo à personagem e, de igual modo, um amplificador do seu carisma - a tal ideia do bigger than life. Se dúvidas houver, é vê-la a cantar o último tema do filme, My Man (música de Maurice Yvain e letra de Channing Pollock), que se impõe como uma das suas mais emocionantes interpretações, desde logo porque ela exigiu que fosse filmada com voz ao vivo, e, além disso, as suas lágrimas não são de crocodilo: Wyler mandou Omar Sharif ficar atrás de uma das cortinas negras próximas de Streisand, para lhe falar entre os takes. Como a rodagem estava a chegar ao fim, e com ela o affair entre os dois, este momento destinava-se a registar o adeus escrito no guião e na realidade.

De resto, Streisand conseguiu aquilo que não se vislumbrava nada óbvio numa atriz da nova geração de Hollywood: a aliança justa entre o clássico e o moderno. Dir-se-ia que ela emergiu do interior de um legado e deu provas da sua originalidade. Daí que o reconhecimento tenha sido tão fervoroso, e se tornasse por demais evidente que Streisand tinha nascido para o papel de Fanny Brice. Exagero? Basta comparar as performances de ambas, feitas de oscilações entre o registo humorístico e a aptidão sensual da voz, para se perceber uma afinidade tremenda.

Houve ainda uma sequela do musical de Wyler - Funny Lady (1975), de Herbert Ross - mas é apenas uma pálida continuação da saga íntima de Fanny Brice, mesmo que tenhamos Streisand a repetir a dose. O seu lugar na indústria ficou assegurado desde o primeiro momento, estendendo-se, mais tarde, à produção e realização. Mas o que gostamos mesmo é de a ver à frente da câmara como a vimos, por exemplo, em Que Se Passa Doutor? (1972), de Peter Bogdanovich - realizador que foi muitas vezes perguntado sobre como seria lidar com o alegado mau feitio da estrela. Para desilusão mediática, dele só conseguiram depoimentos entusiastas sobre a magnífica experiência e a vocação natural da atriz para a comédia.

Hoje continua a ser uma das grandes senhoras do mundo do espetáculo nos Estados Unidos, mantendo mais esporádica a relação com o cinema. Em entrevistas, diz que o filme pelo qual gostava de ser recordada é, precisamente, Funny Girl. E será essa "rapariga endiabrada" que nos vem à cabeça quando se ouve o hit, de 2010, dos Duck Sauce cujo refrão tem apenas duas palavras: Barbra Streisand.

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