Aviação com prejuízos de milhões trava contratações e abre a porta a licenças sem vencimento

É uma das indústrias mais atingidas pela pandemia e os remédios que as companhias aéreas estão a adotar passam pelo corte de investimentos, travão no recrutamento e licenças sem vencimento. O setor pede apoios.

Mário Centeno comparou os efeitos para a economia do confinamento forçado provocado pelo novo coronavirus aos de uma guerra. Para as companhias aéreas, o covid-19 caiu quase como uma bomba. Em três semanas, os anúncios de cancelamentos de voos foram-se sucedendo e as restrições no espaço aéreo começaram a chegar a conta-gotas, estando agora presentes em grande parte do continente. As companhias aéreas, um pouco por todo o mundo, enfrentam prejuízos avultados. As últimas contas da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) indicam que vão ser necessários apoios até 200 mil milhões de dólares para ajudar a salvar o setor (cerca de 182 mil milhões de euros).

Em Portugal, a TAP anunciou até ao momento o cancelamento de 3500 voos, sem quantificar o impacto financeiro que isso vai ter nas contas da transportadora que, nos últimos dois anos, teve prejuízos superiores a cem milhões de euros. A companhia, que é detida em 50% pelo Estado mas cuja gestão é totalmente privada, já suspendeu todos os investimentos que não são cruciais e está a rever e a cortar as despesas não essenciais. Além disso, a empresa liderada por Antonoaldo Neves, que conta com mais de dez mil funcionários, a maioria dos quais pilotos e tripulantes, já suspendeu contratações (estimava contratar cerca de 800 pessoas neste ano) e abriu um programa de licenças sem vencimento por um período mínimo de 30 dias e máximo de 90, que abrange os meses de abril, maio e junho. Para já ainda não é conhecido o número de funcionários que aderiram ao programa.

A receita não é muito diferente para a easyJet, que tem vindo a cancelar igualmente centenas de voos. Questionada pelo DN/Dinheiro Vivo, a companhia aérea de baixo custo que tem bases em Portugal explica que "para ajudar a diminuir o impacto do covid-19 está empenhada numa gestão de eficiência operacional e de controlo de custos em diversas áreas do negócio, incluindo o congelamento do recrutamento, promoções e aumentos salariais em toda a rede". Além disso, a transportadora britânica vai adiar "projetos não urgentes e gastos de capital", vai conceder "licenças não remuneradas e interromper formação não obrigatória".

A irlandesa Ryanair traçou um cenário igualmente negativo e admitiu nesta segunda-feira que, a somar aos cancelamentos que já concretizou, nos próximos dois meses - abril e maio -, "espera reduzir a capacidade de lugares acima dos 80%, sendo certo que a manutenção em terra de toda a frota não pode ser descartada". Por isso, "tomou a decisão imediata de reduzir as suas despesas operacionais e melhorar o cash flow". Isto vai significar manter em terra aviões mas também "adiar todos os investimentos em bens de capital [Capex], congelamento do recrutamento e despesas discricionárias e implementar um conjunto de opções para saídas voluntárias, suspensão temporária de contratos e reduções significativas de horas de trabalho e pagamentos". A trabalhar com os sindicatos para a Europa, ainda não é possível antever quantas pessoas vão ser abrangidas pelas medidas.

Pacote de estímulos

Os ministros dos Transportes da União Europeia reúnem-se nesta quarta-feira. Numa carta aos responsáveis europeus, a Airlines for Europe - associação que inclui várias companhias aéreas incluindo a TAP, a Ryanair e easyJet - defende que "uma crise sem precedentes exige uma resposta sem precedentes". E pedem que seja adotado um conjunto de medidas. Entre elas, o adiamento "dos impostos sobre a aviação ao nível europeu ou nacional para ajudar na recuperação futura do setor". E lembrando que na Europa as companhias aéreas são responsáveis por 2,6 milhões de empregos diretos e 12,2 milhões indiretos, a associação defende que "qualquer fardo financeiro deve ser adiado ou suspenso até que o setor esteja totalmente operacional e numa situação financeira sólida".

"A comunidade de aviação saúda o pacote de estímulos anunciado pela Comissão Europeia a 13 de março. Contudo, as regras de ajudas de Estado não podem distorcer a concorrência entre companhias. As transportadoras europeias deviam ser também elegíveis para apoio direto de fundos da União Europeia, como a Iniciativa Investimento Resposta ao Coronavírus da UE, disponibilizada para abordar a crise económica", notam ainda.

O setor da aviação é um dos mais afetados pela propagação do covid-19, embora ainda seja cedo para medir o alcance dos danos. A Europa é considerada neste momento o centro da pandemia e vários governos, incluindo o português, têm vindo a adotar medidas a um ritmo diário para tentar conter os efeitos da doença nas sociedade e na economia. Muitas delas afetam diretamente o setor.

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