Antirracismo ou identitarismo?

O atual debate global sobre o racismo e as formas de superá-lo tem levantado questões que, se a humanidade estiver realmente disposta a eliminar todas as formas de divisão com base na "raça", tem de discutir e resolver. Uma delas é a relação entre o combate antirracista e as lutas identitárias.
Antecipando o meu posicionamento sobre o assunto, começo por afirmar que, na minha opinião, o objetivo final da luta antirracista deve ser o fim de todas as diferenças com base na cor da pele e não apenas a afirmação das várias identidades cromáticas existentes, embora também me pareça não só inevitável, mas igualmente necessário que passe por esse estágio.

Na realidade - e indo mais longe -, o antirracismo começa sempre, pelo menos no caso das vítimas, no ressentimento. Mas não pode ficar por aí, sob pena de transformar esse combate justo e imprescindível numa espécie de luta de todos contra todos, como avisou há anos o sociólogo norte-americano Cornel West. Por isso, podemos afirmar, com o brasileiro Muniz Sodré, que "o ressentimento é a doença infantil do antirracismo".

O ressentimento é fruto do sofrimento, da dor, da raiva e da fúria dos oprimidos. É historicamente compreensível, embora equivocado. Já a afirmação da própria identidade é um passo em frente. Mas, como procurarei demonstrar mais adiante, ainda insuficiente.

Não esquecendo que o racismo é um problema universal e que há várias direções da referida ideologia por esse mundo afora, ater-me-ei ao racismo antinegro, para mim a principal questão racial dos nossos dias. A sua estratégia consiste em desqualificar os negros em todas as suas dimensões, a começar pelo fenótipo, pelo que o antirracismo deve começar precisamente por desconstruir essa estratégia. Daí o "black is beautiful" criado pelos negros norte-americanos na segunda metade do século passado e que ainda hoje ecoa.

Faz igualmente parte da afirmação da identidade negra a valorização das múltiplas contribuições dos homens e mulheres negras ao desenvolvimento da humanidade, em todos os planos (e não apenas, como alguns folcloricamente defendem, na música, na dança ou no desporto).

O orgulho, a reivindicação e a afirmação da sua própria identidade por parte dos oprimidos não devem, entretanto, implicar a diminuição ou a obliteração, seja pelo esmagamento seja pela assimilação, das demais. Do mesmo modo, não devem, em definitivo, impedir as dinâmicas que levem a alianças ou mesmo a eventuais cruzamentos identitários, suscetíveis de criar novas identidades (não, não estou a falar de biologia, embora não tenha nada contra ela).

O facto, contudo, é que certas direções do atual movimento antirracista mundial parecem-se mais com lutas identitárias do que um combate pela superação de todas as diferenciações e discriminações com base na "raça". Das classificações aglutinadoras e das tentativas assimilacionistas (como se ser antirracista implicasse pertencer a um "tipo" único), ainda assim as mais benignas, ao exclusivismo radical, ideologicamente ancorado em conceitos produtivos, mas desvirtuados (como "apropriação cultural", "colorismo" e outros), cujo único resultado é enfraquecer a luta - o antirracismo corre o risco de perder o foco.

Pessoalmente, sonho com uma humanidade que possa não apenas coexistir civilizadamente, mas conviver - e, se o quiser, misturar-se - de maneira livre e descomplexada. As imagens das ruas norte-americanas, mostrando pretos, mestiços, brancos, hispânicos, asiáticos, homens, mulheres, gays, lésbicas, transgénero, jovens, velhos, numa palavra, todos, de joelho no chão e punho erguido, unidos contra o racismo sistémico antinegro, ajuda-nos a todos, creio, a ter alguma esperança.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21.

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