Na solidão de si mesmo (3)

Joseph Ratzinger teve de percorrer a via crucis da renúncia na mais completa solitude of the self.

Quando se fala de sinais premonitórios para o gesto de Bento, nem sempre se atende a um dos mais intrigantes presságios da renúncia, vindo do mais profano dos mundos, oriundo de um cineasta de esquerda, Nanni Moretti, que, dois anos antes da "grande recusa" papal, realizou Habemus Papam, no qual um pontífice recém-eleito confessa à multidão de fiéis reunida na Praça de São Pedro a sua incapacidade para assumir o pesado fardo de liderar a Igreja. Sem forçar as analogias, até porque outros já o fizeram, há muito de semelhante entre as duas situações.

Em ambas, o Papa apresenta-se perante os outros, e perante si próprio, como humano, demasiado humano, para usar a expressão de Nietzsche, o que significa, em direitas contas, que a renúncia de Bento e a da personagem do filme de Moretti procederam a uma radical humanização da figura do Vigário de Cristo, concorde com os sinais dos tempos, em que todos os papas, sobretudo desde João Paulo II, revelaram através da imprensa o seu passado de conquistas amorosas, os seus hobbies e passatempos, os gostos íntimos, até do domínio da cultura de massas, como o futebol ou a música ligeira.

Uma vez, em Cracóvia, comprei uma revista de grande tiragem dedicada a Wojtiła, que o mostrava na capa de tronco nu, a barbear-se no meio do campo, provavelmente em jornada silvestre. Que um Papa se mostre assim e que uma revista católica da conservadora Cracóvia coloque na capa, com o maior deleite, uma tal fotografia do Santo Padre, são inquestionáveis marcas do tempo, do nosso tempo, em que as rainhas e os príncipes desnudam intimidades na imprensa cor-de-rosa, um tempo ao qual até os sucessores de Pedro têm de se adaptar, sob pena de perderem o mundo - e o afecto de milhões de crentes.

Se João Paulo II e Francisco, cada um ao seu estilo, humanizaram a figura do Sumo Pontífice, até com laivos de alguma vulgaridade e cedência a uma certa pop culture, Joseph Ratzinger acabou também por contribuir para esse empreendimento dessacralizador, desferindo um golpe profundo naquilo a que, muitos anos antes, o teólogo Yves Congar designou "papolatria".

Mas, como sempre, também aqui Bento XVI actuou à sua maneira, à maneira germânica, milimetricamente planeada. O resultado final foi estrondoso, e o abalo provocado tem contornos de abalo sísmico, de terramoto com magnitude superior ao que devastou Áquila, com mais de 300 mortos.

Contudo, e ao contrário do vaticínio pessimista de Paulo VI, a renúncia não significou um "trauma" para a Igreja, configurando-se antes como uma crise heureuse, cujo saldo final acabou por ser positivo, para o que contribuiu, como é óbvio, a imagem algo impopular, para dizer o mínimo, de Bento XVI e, de igual modo, o momento terrível que a Igreja como um todo atravessava, a exigir um sobressalto cataclísmico, mas ainda assim controlado e limitado no tempo, que lhe permitisse transmitir um sinal de mudança e seguir em frente, per saecula saeculorum.

Mais de um século antes, houve outra recusa importante, e também ela histórica. Em 18 de Janeiro de 1892, Elizabeth Cady Stanton, escritora, activista cívica, partidária da abolição da escravatura e dos direitos das mulheres, resignou ao cargo de presidente da National American Woman Suffrage. A demissão não teria relevância de maior - e, é óbvio, teve uma relevância infinitamente menor do que a renúncia do Papa Bento XVI - se não tivesse sido acompanhada de um discurso intitulado "The solitude of the self", um texto absolutamente extraordinário, do qual foram feitas mais de dez mil cópias, distribuídas por toda a América. Tive a ousadia (não a ousadia de Bento, bem entendido) de o traduzir de forma desastrada e de o publicar há uns anos no blogue Malomil, o que pouco importa (para mim, pessoalmente, importa muito, muitíssimo, pois a minha inesquecível amiga Fátima Patriarca disse-me que foi dos textos mais assombrosos que leu na vida).

Nesse discurso, Elizabeth Stanton começa por aludir à "individualidade da alma humana" para logo a seguir enaltecer o espírito protestante e, como princípio político, especialmente aplicado aos direitos das mulheres, a liberdade radical de cada ser humano na solidão de si mesmo. Ou, para os crentes, a sós, com Deus, como referiu Thomas More, tendo o Papa Emérito dito, sobre a decisão de renúncia, e no mesmo sentido, que, "com o bom Deus, fala-se abundantemente sobre ela" ou que se tratou de "uma decisão bastante pensada e conversada com o Senhor", da qual nunca se arrependeu.

A decisão de Bento, tomada meses antes de anunciada ao mundo (como revelariam depois o seu irmão, George Ratzinger, e o próprio Papa Emérito), acaba por ser, queiramos ou não, expressão de um enorme individualismo, o mais radical de todos. Em cada pontificado vemos a marca do Papa que o protagonizou, o seu "estilo", e até, ou sobretudo, o seu programa doutrinal e eclesial, sendo muito diversos os pontificados de João Paulo II ou de Francisco, só para citar dois exemplos mais recentes e conhecidos da relevância do indivíduo, dos seus caracteres pessoalíssimos, no exercício do ministério petrino.

Porém, até nesse plano a recusa de Bento foi diferente, mais individual ainda: desde logo porque, ao invés das visitas pastorais de Wojtiła ou da informalidade de Bergoglio, a decisão de renúncia foi contra tudo aquilo que era expectável ou conhecido em Ratzinger, o seu conservadorismo, o seu apego à tradição e aos seus signos e liturgias, o seu sentido de inserção institucional. Que um homem medularmente conservador, avesso ao discurso iluminista da modernidade que pugna pelas liberdades de cada qual, que um inimigo do individualismo, que reputou um dos principais males do nosso tempo, tenha ousado tal gesto é do domínio do assombroso.

O mais assombroso de tudo, porém, é a solidão de si mesmo. Por imperativo pessoal e institucional, por inclinação de carácter e por imposição do cargo, Joseph Ratzinger teve de percorrer a via crucis da renúncia na mais completa solitude of the self. Enquanto lá fora se ouvia o ruído do mundo, o barulho ensurdecedor das notícias, a cacofonia das opiniões, enquanto lá fora a imprensa fazia manchetes com os escândalos da pedofilia ou outras misérias humanas, um homem caminhou silencioso, passo a passo, durante meses, ou talvez anos, carregando sobre os seus ombros, absolutamente sozinho, o fardo bimilenar da instituição mais antiga do mundo. A partir do momento em que decidiu renunciar, nada o poderia deter, como é próprio das opções radicais tomadas na solidão de si mesmo, com o suicídio à cabeça, e é o próprio Papa Emérito que, anos depois, o reconhecerá: "Tinha a certeza interior de que tinha de fazê-lo e, nesse caso, não é possível dissuadir uma pessoa."

Quanto ao timing da renúncia, podemos olhá-lo de diversas formas. Na perspectiva de Ratzinger, foi a altura acertada, na qual menos pressões existiam para que saísse. Di-lo-á a posteriori a Peter Seewald, em Conversas Finais, quando referiu que "não nos podemos vergar perante as exigências", ou "não podemos ir embora quando isso significa fugir", ou ainda "nunca devemos recuar perante as pressões". Ou, como também disse, "só podemos ir embora quando ninguém o exige. E, no meu tempo, ninguém o exigiu. Ninguém. Foi uma completa surpresa para todos".

Anos antes, em Luz do Mundo, e igualmente a Peter Seewald, dissera algo parecido, numa demonstração de aparente ou simulada coerência: "Quando o perigo é grande, não podemos fugir. Não é, por isso, de certeza, o momento de abdicar. É precisamente num momento assim que temos de resistir e passar pela situação difícil. (...) Podemos abdicar num período tranquilo ou quando simplesmente já não podemos mais. Mas, face ao perigo, não podemos fugir e dizer que um outro o resolva."

Compreende-se que Ratzinger pretenda sustentar uma linha coerente entre a afirmação de 2010, nos termos da qual só poderia abandonar a barca de Pedro num momento de acalmia, e o que dirá depois de resignar, em 2016, quando asseverou que o momento em que resignou foi o mais acertado, pois então a Igreja vivia dias tranquilos, propícios a uma "saída limpa".

O argumento aduzido, segundo o qual todos ficaram surpreendidos, sendo essa a prova mais concludente de que aquele foi o momento certo, claramente não colhe, pois, como é evidente, o mundo inteiro, em qualquer ocasião, sempre ficaria surpreendido por um gesto não praticado há muitos séculos. E, por outro lado, esse argumento é contrariado pela afirmação, igualmente avançada pelo Papa Emérito, de que tudo estava a ser planeado há meses, como se fosse possível saber de antemão, com tal antecedência, a altura da renúncia seria, ou não, favorável ao abandono.

Mais decisivamente ainda, o momento da renúncia, não tendo coincidido propriamente com dias de brasa em que a saída de um Papa pareceria uma fuga às suas responsabilidades, espirituais e terrenas, não deixou de se situar, ainda assim, num período de alguma turbulência (de resto, ainda não inteiramente sanada), pois que o "dossiê dos abusos" não estava de modo algum encerrado como, o que é mais problemático, tinham sido feitas revelações, nomeadamente através do Vatileaks, que permitiriam a alguns especular e formular as habituais teorias da conspiração sobre os motivos, mais ou menos escondidos, da renúncia de Bento XVI, adensadas, para mais, pelos habituais rumores romanos que circularam em Dezembro de 2011 sobre a existência de planos para assassinar o Papa, estando o homicídio aprazado para Novembro de 2012, ou seja, escassos meses antes da efectiva data em que o Bento renunciou, Fevereiro de 2013.

Em 17 de Dezembro de 2012, ocorreu aquele que muitos consideram ser o facto que impulsionou Ratzinger no caminho irreversível da renúncia: encarregado de investigar uma teia criminosa no interior do Vaticano, cuja existência fora denunciada pela prisão do antigo mordomo do Papa, Paolo Gabriele, o cardeal Julián Herranz entregou a Bento XVI um relatório de trezentas páginas, em dois volumes encadernados a couro, conhecido como "dossiê vermelho". Segundo o La Repubblica, foi nesse mesmo dia que o Papa terá tomado a inabalável decisão de renunciar, mesmo que ela já viesse a pairar no seu espírito, como o próprio garantiria mais tarde, desde as férias de Verão de 2012.

Por outro lado, se Bento diz que surpreendeu tudo e todos, o facto é que o cenário de renúncia já vinha sendo ventilado de há muito (como, aliás, sucede com todos os papas, incluindo o actual), podendo dar-se como exemplo um artigo de Março de 2012, no jornal Libero, sobre "as hipóteses de demissão de Ratzinger".

Há quem sustente, no entanto, que apesar de a decisão estar a ser maturada e congeminada há meses, e falada na imprensa ainda há mais tempo, há indícios de alguma precipitação nos timings, patente, desde logo, no facto de Bento XVI não ter concluído a redacção da sua encíclica sobre a Fé, um empreendimento tanto mais importante para si quanto tal encíclica representava o culminar de um tríptico de onde já constavam a Esperança (Spe salvi, de 2007) e a Caridade (Caritas in veritate, de 2009).

Contudo, há outro dado não irrelevante, possivelmente revelador de uma boa gestão dos timings: praticamente logo após o anúncio da "grande recusa", iniciaram-se os Exercícios Espirituais da Cúria Romana, orientados pelo cardeal Gianfranco Ravasi, um tempo de meditação e silêncio que permitiu, por um lado, garantir a Ratzinger a tranquilidade e a ausência de ruído que tanto aprecia e, por outro, resguardá-lo, a ele e à Santa Sé, da pressão e da avidez dos media e das chancelarias diplomáticas.

O momento ideal para abandonar a barca de Pedro seria aquele em que o "dossiê dos abusos" estivesse mais ou menos encerrado, na medida em que um tal assunto pode sequer ser encerrado ante a divulgação sucessiva e contínua, aqui e ali, em todos os pontos do globo, de novos e até, porventura, mais graves escândalos. O que, numa visão favorável à posição de Bento, se pode afirmar é que, por um lado, a ele se deveu o lançamento da primeira investigação sólida sobre os abusos - de resto, prolongada pelo seu sucessor - e, por outro lado, que por alturas da renúncia não havia em aberto, acabado de deflagrar, e pelo menos que se saiba, um novo caso de grandes proporções e impacto.

A relojoaria da saída, como se disse, foi ou terá sido afinada com precisão milimétrica, de forma racionalíssima, com um ou outro gesto simbólico de permeio ("foi tudo muito bem planeado", dirá, anos depois, com indisfarçável orgulho, o Papa Emérito).

E o dia da ceia derradeira foi escolhido com total acerto: era a Jornada Mundial do Doente, a festa de Nossa Senhora de Lourdes (e, como confessará mais tarde o Papa Emérito, até pesaram motivos de índole pessoal, pois o dia de Santa Bernadette de Lourdes coincide com o do seu aniversário). Foi tudo tão planeado que quase nos perguntamos se a tempestade que se abateu sobre Roma na noite da renúncia e o raio que então fulminou a cúpula de São Pedro não terão sido, também eles, obra do próprio Ratzinger, ou uma acção dos céus por ele negociada com a mais alta das potências.

(Conclui na próxima edição)
Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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