Negacionismo da covid-19. O jogo da avestruz que une líderes políticos, económicos e religiosos

Com motivações muito diversas, várias são as vozes que têm vindo a negar a dimensão global da covid-19 e a contestar as políticas de confinamento adotadas em muitos países. Mas, quando vindas de líderes políticos, económicos ou religiosos, tais atitudes têm um impacto real nas vidas (e mortes) de milhares de pessoas.

À esmagadora eloquência das imagens do colapso funerário em vários pontos do Brasil, em maio último, Jair Bolsonaro e seus seguidores contrapuseram o mais irredutível negacionismo. Fake e conspiração, exclamaram sem que lhes ocorresse uma hesitação. A covid-19 não só continuou a ser encarada como uma "gripezinha" como a chegada de tantos caixões aos cemitérios não passaria de uma encenação dos opositores ao presidente, já que - diziam - as vítimas de acidentes estariam a ser registadas como óbitos causados pela epidemia.

Não contentes com tal acusação, alimentaram a ideia de que muitos caixões estariam, na verdade, vazios, em estados como Amazonas ou Ceará.

Em entrevista à Rádio Bandeirantes, em abril, a deputada federal Carla Zambelli afirmou: "No Ceará tem caixão sendo enterrado vazio. Já viu isso!? Tem uma foto de uma moça carregando um caixão com um dedinho. Eu nunca vi uma mulher carregando um caixão com um dedinho." Como resposta, o governador deste estado, Camilo Santana, processou a deputada, considerando as suas declarações "um insulto aos profissionais de saúde e às famílias das vítimas".

As razões da economia

Esta recusa de encarar a realidade pandémica da doença e a sua capacidade não é, todavia, um exclusivo do Brasil, onde o atual governo se lançou há muito numa cruzada anticiência. Mais longe do que Bolsonaro, do que Donald Trump ou mesmo do que o bielorrusso Alexander Lukashenko (que recomendava vodca e hóquei no gelo como profilaxia da doença), foi o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega.

Durante semanas, recusou-se a atender os apelos internos e externos para decretar o confinamento obrigatório e manteve as fronteiras do país totalmente abertas. Para demonstrar confiança, organizou um festival nacional de dança, que reuniu milhares de pessoas, e, também por suas ordens, a Nicarágua foi o único país da América do Sul a não interromper o campeonato nacional de futebol. Só no final de abril, quando a maior parte dos países já levava mais de um mês de confinamento, é que foram feitas as primeiras recomendações para a salvaguarda do distanciamento social e para a utilização de máscara em espaços fechados.

Mais surpreendente, porém, foi a atitude tomada pelo empresário Elon Musk, que não só minimizou o problema como a sua ação teve efeitos realmente negativos nas vidas de milhares de pessoas, a começar pelos funcionários das suas empresas. Um player de primeira importância na área da tecnologia de ponta, CEO da Tesla Motors, fundador da Neuralink e da Space X, contestava publicamente, através da sua conta de Twitter, as afirmações dos cientistas e falava mesmo de conspiração "fascista" para manter os cidadãos sob controlo.

No final de janeiro, quando a covid-19 já era um caso sério na China, Musk começou a insurgir-se contra o pânico, que considerava mais perigoso do que a doença. Não mais parou, tuitando opiniões e considerandos do mesmo teor, ora minimizando os efeitos da doença ora favorecendo o recurso à cloroquina, o mesmo medicamento usado na profilaxia da malária insistentemente recomendado por Trump e por Bolsonaro.

A ação de Musk tornou-se ainda mais controversa ao passar das palavras aos atos. Quando a Polícia do condado de Alameda, Califórnia, onde funciona a fábrica da Tesla, ordenou que todos os serviços não essenciais fossem encerrados, Musk desobedeceu abertamente, argumentando que a produção de veículos e a infraestrutura elétrica são setores críticos.

Reabriu a fábrica a 11 de maio, alegando estar a respeitar todas as recomendações sanitárias exigidas e dizendo que ele próprio estaria na primeira linha, ao lado dos trabalhadores. Sem "papas na língua", declarou: "Se alguém quiser ficar em casa, ótimo. Deve poder ficar em casa e não ser obrigado a sair. Mas dizer que as pessoas não podem deixar as suas casas e que serão presas se o fizerem, isso é fascismo, não é democracia, nem liberdade. Devolvam a maldita liberdade às pessoas." Num outro tweet, no mesmo tom incendiário, exigiu mesmo: "Libertem a América agora!"

As contradições do empresário não terminam aqui. Envolveram a doação de ventiladores a numerosos hospitais que, na verdade, eram mais adequados à apneia do sono do que a doentes com formas agudas da covid-19. Mais recentemente, Musk envolveu-se numa polémica com Bill Gates (que, por sua vez, se viu objeto de um série de teorias da conspiração que o acusam de querer controlar a saúde da população mundial e até de querer eliminar parte dela) a propósito do tema das vacinas.

Quando o homem da Tesla anunciou a sua intenção de investir na produção de uma vacina capaz de erradicar a doença, Gates respondeu: "O posicionamento do Elon é manter um alto nível de comentários ultrajantes. Não está muito envolvido com vacinas. Faz um carro elétrico excelente. E os foguetões dele funcionam bem. Portanto, tem permissão para dizer estas coisas. Espero que ele não confunda áreas em que não esteja muito envolvido."

Motivações religiosas

Com a pandemia declarada, a ONU apelou aos líderes religiosos de todo o mundo para que colaborassem no esforço de combate à doença junto dos seus fiéis, partilhando informação e factos de acordo com as orientações da Organização Mundial da Saúde. Publicada pelos líderes da Task Force Interinstitucional sobre Religião e Desenvolvimento Sustentável e do Conselho Ecuménico das Nações Unidas, o comunicado dizia: "Neste momento de agitação, tristeza e angústia, líderes e organizações religiosas desempenham um papel único em aproximar as pessoas de valores comuns da humanidade, como solidariedade e compaixão."

Mas nem todos responderam a esta chamada. Na Coreia do Sul, onde se calcula que existam mais de mil credos secretos, a Igreja de Jesus de Shinchonji (dedicada a expandir a ideia de que seu fundador, Lee Man-hee, é a segunda encarnação de Jesus Cristo, capaz de levar consigo para o Paraíso os seus crentes mais devotados) chegou a esconder das autoridades os nomes dos fiéis que estavam infetados, permitindo que alguns deles viajassem sem entraves pelo país. Numa mensagem que escreveu numa aplicação interna da igreja, Lee Man-hee sentenciava: "Este caso de doença é visto como a obra do demónio para parar o rápido crescimento da Shinchoji. Tal como as provas que Job atravessou, é para destruir o nosso avanço."

Atitudes como esta levaram as autoridades sul-coreanas a acusarem formalmente a Igreja de ter impedido a monitorização e isolamento dos doentes, originando um surto epidemiológico muito expressivo.

Esta atitude de negação por dirigentes religiosos verificar-se-ia ainda noutras latitudes, em países como o Brasil. Embora a Igreja Católica e algumas congregações evangélicas tenham atuado de forma responsável, em consonância com o solicitado, outras como a Igreja da Graça de Deus, na voz do missionário Romildo Ribeiro Soares, afirmou que a população "não precisa ter medo de jeito algum" do coronavírus. "Já houve outras ameaças no meio da humanidade. A profecia, lá no Apocalipse, diz que vai chegar um tempo em que uma terça parte das pessoas vai morrer. Mas ainda não estamos nessa época, não estamos na época de ganhar as almas para Jesus."

Não muito diferente foi a posição pública do influente Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, que pediu aos seus fiéis para não lerem notícias sobre o coronavírus. "Quem anda pela fé anda pela frente. Quando você vê no noticiário "morreu fulano, beltrano teve coronavírus", não olhe para isso, não leia essas notícias."

Acusando a imprensa e Satanás de propagarem o medo, o líder religioso afirmou: "Meu amigo e minha amiga, não se preocupe com o coronavírus. Porque essa é a tática, ou mais uma tática, de Satanás. Satanás trabalha com o medo, o pavor. Trabalha com a dúvida. E quando as pessoas ficam apavoradas, com medo, em dúvida, as pessoas ficam fracas, débeis e suscetíveis. Qualquer ventinho que tiver é uma pneumonia para elas." Posteriormente, este vídeo seria removido das páginas e redes sociais da IURD. Em junho, Edir Macedo anunciou ter sido hospitalizado com o tal "ventinho". Mas tudo acabou bem graças, segundo o próprio, à "milagrosa" cloroquina.

Menos sorte teve Gerald Glenn, o pastor evangélico da Igreja Evangélica de New Deliverance, no estado norte-americano da Virgínia. Tal como Edir Macedo considerava o distanciamento social um absurdo e apelou à continuidade da participação do seu "rebanho" nos atos religiosos, a menos que estivessem na prisão ou no hospital. Morreu a 14 de abril, aos 66 anos.

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