Tempos de saber do que somos capazes (e não anima)

Passei parte da vida irritado com o ator Michael Douglas por causa de uma mania dele. Em todos os seus filmes, quando se chegava (e chegava-se sempre) àquela manifestação humana tão agradável e deitada, ele e o par estavam de pé e contra uma parede. Não é preconceito, é porque me cansava. Mas eu acabava por desculpar o filho de Kirk Douglas. O pai Douglas, que morreu há poucas semanas e com 103 anos, além não ter nada contra as paredes, tem filmes enormes, incluindo um sobre a minha profissão e a falta de escrúpulos, O Grande Carnaval.

Mas é de Spartacus (1960), produzido e protagonizado por ele, que quero falar. Há uma cena que vocês não viram, nem eu. Dalton Trumbo, o maior cenarista de Hollywood, por causa da caça às bruxas passou um ano na prisão e quase dez sem poder assinar os seus filmes. Ele escrevia obras-primas que se tornavam sucesso, mas alguém tinha de assinar por ele. Kirk Douglas foi buscá-lo para escrever o filme, exigiu ao estúdio Universal um cartão de entrada para o proscrito e no cartaz pôs-lhe o nome. Eis o que não vimos no filme: "Obrigado, Kirk, por me teres devolvido o nome", disse Dalton Trumbo, a partir daí resgatado.

Fica explicada a minha benevolência com o filho de Kirk, apesar de Michael me cansar e não me encantar. Até que há dias a Netflix me ofereceu a série televisiva O Método Kominsky, protagonizada por Michael Douglas (a partir de agora MD). Sabem, caros confinados, como os tempos modernos foram inventados para ver episódios a eito. Foram todos. Em O Método Kominsky, MD faz de professor de atores, tem uma pequena academia em Los Angeles, uma vida amorosa sem paredes (palmas, palmas...), mas infeliz, tem angústias por lançar para o mercado as esperanças iludidas dos jovens alunos e tem, como todos os atores esquecidos, uma sede de anteontem de voltar a aparecer.

O seu agente arranja-lhe, enfim, um anúncio para a tevê. Um banco contrata-lhe a voz cativante, o olhar que enrola, o gesto que prende. É falsa a bipolaridade do mundo, entre os que têm e os que não têm. Há os que têm. E há os outros. Eis MD, dominando com mestria profissional o discurso aldrabão do banco dirigido a velhos reformados, com a garantia, claro, de os defender para o resto da vida...

E eu, confinado na boa série televisiva, começo a ver irromper em MD, o Michael Douglas. Primeiro, juro, vi-o a ver a palheta do pai em O Grande Carnaval, abusando dos fracos... E a seguir, volto a jurar, vendo o pai a fazer de Spartacus, o escravo que liberta. E até reconheci a cena. Aquela, no vale, com a legião romana a cercar os escravos, vencidos e por terra. Quem é Spartacus?, grita o centurião. Kirk Douglas levantava-se, mas um companheiro levantou-se também: "Eu sou Spartacus!" E outro e outro e o vale inteiro: "Eu sou Spartacus!" E vejo, enfim, o filho de Spartacus a não fazer o anúncio do banco e a abandonar o estúdio.

Que presunção a nossa de vivermos tempos novos. Passo da série para o canal aberto e calha cair num anúncio. Prometem vir-me a casa buscar ouro e joias, prometem a segurança de gente de bem - imagem de um tocar gentil na campainha da porta - e prometem pagamento limpo e honesto. Volto ao jornalista sem escrúpulos Kirk Douglas, em O Grande Carnaval. Anda aos caídos, desempregado e bêbado e oferece-se a um editor: "Quer ganhar 200 dólares por semana? Eu sou um jornalista de 250 dólares, mas pode ter-me por 50..." E o editor: "Nesta casa eu pago 60." E contrata-o por 50. Um pobre diabo é sempre um pobre diabo. Ganharão muito nas joias pobres os que rapam no medo e na angústia dos confinados?

Mas esses são o menos. Os pobres diabos sem escrúpulo são sempre só os outros - um longo tempo de convívio defende-nos deles e há sempre a probabilidade de um Dickens transformá-los em grandes obras. O mal somos nós, a gente comum, capaz, pelo medo, de um pior desconhecido. O aviso à porta de entrada: "Doutor, sabemos que vai para o hospital e cá no prédio há muita gente que não pode ser contagiada. Por favor, não volte." O que nos corrói, mesmo, é isso. Somos capazes disso e não sabíamos.

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