Telemóveis controlados e velhos recolhidos. A nova sociedade

Estamos dispostos a abdicar de liberdades e isso não é estupidez, é sinal de civismo. Assim também será, desta vez. E enquanto os princípios forem nobres, e as coisas controladas, tudo estará bem.

1 É provável que já ninguém se lembre de como vivíamos antes do 11 de Setembro de 2001. Como éramos mais livres e viajávamos despreocupados, garrafas cheias a bordo e sem termos de passar horas nas filas do controlo de segurança nos aeroportos, com raios X que nos desnudam e outros controlos sobre tudo e mais alguma coisa - de documentos a sapatos e lugares por onde passaram os nossos dedos.

O mundo era diferente antes da Guerra ao Terror. Menos vigiado, apesar das memórias dos romances policiais tentarem mostrar-nos o contrário. E mesmo em países que eram já maníacos, como os EUA, foram as leis antiterroristas feitas depois dos primeiros atentados ao World Trade Center, de que ninguém se lembra, porque aconteceram na pré-história, em 1993, que mudaram definitivamente os poderes das polícias, as regras apertadas de circulação e a vigilância das pessoas e da sociedade.

As pessoas aceitaram as novas regras, obedientes. As sociedades são organismos vivos, com instinto de sobrevivência. Há uma ameaça, as funções normais são desligadas e entra-se em modo de emergência. Foi o que aconteceu com o terrorismo. Tantas vezes é invocado, pelas nossas consciências e espírito pragmático, o mal menor.

E bem. Reparem, mais uma vez é o que está a acontecer com esta normalidade que se tornou estarmos todos em casa, sossegados, solitários, sem um drone permanentemente a controlar-nos. Fazemo-lo por autopreservação. E isso é bom.

Em breve vamos fechar os olhos, agradecendo, quando aplicações governamentais começarem a vigiar os nossos telemóveis para saber ao pé de quem estivemos.

Quando os tempos não estão normais, as anormalidades acontecem. Toleram-se coisas que nos tempos banais seriam inaceitáveis. Além do confinamento praticamente voluntário, muito em breve vamos todos fechar os olhos e aquiescer, agradecendo quando aplicações governamentais começarem a vigiar os nossos telemóveis para saber ao pé de quem estivemos. Até porque esta tecnologia ajudará ao mais acelerado regresso à rotina, desejado por todos. Muito desejado por todos.

Em todos os países que conseguiram até agora lutar contra o covid-19, as aplicações de telemóvel controladas foram fundamentais.

Na mais radical China - onde a aplicação Código de Saúde determina onde e com quem se pode ir, e é absolutamente uma extensão do controlo social e da recolha de dados que já eram feitos, através das aplicações de mensagens com pagamento, Alipay e We Chat, o reconhecimento facial uma banalidade com câmaras em todas as ruas e cruzamentos. Em Singapura, o regime democrático, embora musculado, exigiu que a aplicação Trace Together fosse descarregada voluntariamente pelos cidadãos.

Em Taiwan já existia uma lei que agora permite uma "cerca eletrónica" dentro da qual a polícia estava autorizada a telefonar a toda a gente de quarentena por suspeita de infeção - se a pessoa não responde, a polícia pode entrar em casa em 15 minutos. Na Coreia do Sul o governo tem um site que segue os movimentos das pessoas infetadas e lança alertas àquelas com quem elas se cruzaram. E o governo israelita tem acesso a um arquivo de dados dos telemóveis que permite alertar todos os que entraram em contacto com quem se descobriu infetado. Tudo isto não é ficção, é realidade, e prestes a instalar-se na Europa - Alemanha, Itália, Polónia e Reino Unido estão a testar sistemas - como contava um texto do DN.

Ou seja, pelo bem comum, estamos dispostos a abdicar de liberdades individuais e isso não é estupidez, é um sinal de civismo. Assim também será, desta vez. E enquanto os princípios forem nobres, e a prática controlada, tudo estará bem. Para já, há várias formas de controlo - há as ilegais, nas democracias liberais, que envolvem a localização por GPS. Mas há também as mais tecnológicas - que funcionam por Bluetooth e que não implicam a recolha de dados.

O problema não surge quando o normal é anormal. O problema é quando o anormal passa a ser normal.

Mas porque todas implicam que abdiquemos de parte do que nos é absolutamente privado - a saúde - em prol do que nos é absolutamente necessário - também a saúde -, é bom estarmos atentos e vigilantes. O problema não surge quando o normal é anormal. O problema é quando o anormal passa a ser normal.

No 11 de Setembro, o FBI começou a poder recolher dados de entidades privadas, bancos e companhias de seguros. Só uma dúzia de anos depois, o Ministério da Justiça americano percebeu que estas práticas, totalmente ilegais e de "estado de guerra", se tinham tornado rotina.

2 Enquanto nós estivermos a ser televigiados, mas de novo nas ruas, os nossos velhos vão continuar confinados às suas casas - porque assim mandam as regras de segurança para uma brecha de normalidade.

E esta não será a única desigualdade provocada pelo covid-19. Enquanto uns vão ter de ir trabalhar, expondo-se, os outros vão continuar seguros, em teletrabalho. Uns vão ter emprego, outros vão levar anos a encontrá-lo. Enquanto uns vão ter subsídios, os outros vão andar aos papéis, em vidas desreguladas, sem regras que os protejam.

Temos de ser muito fortes e estar muito vigilantes para não sair disto tudo com uma sociedade dividida, fraturada, odiosa. É que a crise pode vir a reverter toda a sensação de solidariedade que a doença começava a trazer. E as ideias de uma sociedade mais empática e mais justa serão apenas isto: ilusões.

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