Transportes públicos mais seguros do que se pensa? Depende do tipo, da lotação e dos passageiros

Estudos internacionais apontam riscos reduzidos. Mas há regras que é preciso cumprir à risca, como o uso de máscara, a desinfeção e... o distanciamento. Será este último requisito possível em horas de ponta? Mesmo assim, o ministro das Infraestruturas já veio dizer que se devia repensar a lotação máxima de dois terços.

O regresso ao trabalho e às aulas é sinónimo de um maior uso dos transportes públicos. Em tempo de pandemia, andar de metro, de comboio ou de autocarro representa também o receio de exposição ao novo coronavírus e de se ficar infetado com covid-19. Parece que não é bem assim: da Europa à Ásia, à medida que os cientistas se vão familiarizando com o vírus e estudando as formas de transmissão, tem-se vindo a concluir que, afinal, os transportes públicos coletivos não representam um risco assim tão elevado - mesmo que contrarie aquilo que se dizia há muito pouco tempo, podem até ser menos perigoso do que ir a um bar.

Há fatores que explicam o agora apontado risco mais baixo dos transportes públicos: os passageiros viajam todos de máscara e não falam entre si, o que reduz a exposição aos aerossóis; as viagens urbanas são geralmente curtas; há renovação do ar e desinfeção dos equipamentos.

O cumprimento da regra dos três C - close spaces, crowded places e close contact (em português livre, espaços fechados, espaços sobrelotados e contactos próximos) - é fundamental para que uma viagem de metro ou de comboio decorra sem perigos de maior. "Com estas condições, estamos a minimizar os riscos", diz Carla Nunes, diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, que chama a atenção para a importância da ventilação, nomeadamente com a abertura de janelas - um desafio para o inverno que se aproxima e em que o novo coronavírus vai circular ao mesmo tempo que os vírus da gripe.

Para manter os níveis de risco baixos, o uso de máscara, o distanciamento e a desinfeção são fatores de que não se pode abdicar - em Portugal a máscara passou a ser obrigatória a partir de 3 de maio, quando se deram os primeiros passos para o desconfinamento e a lotação recomendada para os transportes é de dois terços. Uma regra difícil de cumprir em hora de ponta e quando se aposta na retoma da normalidade.

Os defensores dos transportes públicos alegam, por exemplo, com um rastreio de contactos levado a cabo pelas autoridades sanitárias de Paris que concluiu que nenhum dos 386 surtos de infeção identificados entre maio e julho teve origem em transportes públicos.

Os estudos internacionais foram também um argumento usado pelo ministro das Infraestruturas e da Habitação para minimizar a sobrelotação dos comboios da CP na Linha de Sintra. "Eu acho que temos de equacionar isso porque de outra forma vamos ter problemas sérios de mobilidade na Área Metropolitana de Lisboa. E a verdade é que nós somos dos poucos países da Europa que fazem essa restrição. A maioria das capitais onde há inclusivamente uma intensidade de utilização do transporte urbano muito maior do que na Área Metropolitana de Lisboa não tem essa limitação", disse Pedro Nuno Santos, em julho, numa entrevista ao Dinheiro Vivo e à TSF.

A resposta da ministra da Saúde ao colega de Governo não se fez esperar. Marta Temido disse que não via razões para alterar o que está definido.

Taxa média de transmissão de 0,32%

Mas não é só a Europa que está a estudar os riscos de utilização dos transportes coletivos. Uma das investigações mais badaladas diz respeito à China, país onde surgiu o novo coronavírus. O estudo realizado por cientistas da Universidade de Southampton, no Reino Unido, examinou as possibilidades de contrair covid-19 numa carruagem de comboio que transportava uma pessoa infetada, com base nas rotas de alta velocidade chinesas. A conclusão foi que, para passageiros de comboio sentados a três filas e cinco colunas de uma pessoa infetada (paciente-índice), entre zero e 10% (10,3%) contraíram a doença. A taxa média de transmissão para esses viajantes foi de 0,32%.

O estudo, em colaboração com a Academia Chinesa de Ciências, a Academia Chinesa de Eletrónica e Tecnologia da Informação e o Centro Chinês para Controlo e Prevenção de Doenças, concluiu igualmente que os passageiros que viajam em assentos diretamente adjacentes a uma pessoa infetada sofriam o nível mais alto de transmissão, com uma contração média da doença de 3,5%. Para quem está sentado na mesma fila, o valor foi de 1,5%.

Os japoneses também levaram a cabo um rastreamento exaustivo dos surtos e nenhum foi relacionado com a grande ferrovia de Tóquio. A Áustria fez um estudo semelhante e os transportes ficaram fora dos focos.

"A tentativa de procurar culpados não é uma tentativa muito útil à comunidade."

As notícias são animadoras, mas os especialistas pedem cautelas. Até porque em muitas cidades do mundo os cidadãos estão a preferir usar o carro em vez de se meterem num transporte público e os números de passageiros estão muito abaixo dos meses anteriores à pandemia. Carla Nunes chama a atenção, por exemplo, para o facto de ser extremamente difícil identificar a origem de um surto num transporte público, uma vez que não se sabe com quem se viajou. Em Portugal não há notícias de surtos com origem em transportes. "A tentativa de procurar culpados não é uma tentativa muito útil à comunidade. Fala-se da abertura das escolas, agora dos transportes, mas o importante é que cada um faça a sua parte", afirma a especialista em saúde pública.

A verdade é que os portugueses viam até há dois meses a utilização dos transportes públicos um dos locais de maior risco para contrair a covid-19, só ultrapassada pelas festas e pelos grandes ajuntamentos. A conclusão consta de uma sondagem da Aximagem para a TSF e o JN em que 73% dos inquiridos elegem os transportes como um espaço de risco para ser infetado com o novo coronavírus, enquanto apenas 6% consideram que isso lhes pode acontecer num restaurante ou em cafés e pastelarias (13%).

Recomendação de lotação de dois terços "é um disparate"

A qualidade do ar é um fator determinante para diminuir o risco de infecciosidade nos transportes. Manuel Gameiro da Silva, professor da Universidade de Coimbra, começa por considerar que a recomendação das autoridades de saúde que estabelece a lotação máxima em dois terços "é completamente disparatada."

"Se as autoridades tratassem bem as coisas, aquilo que fariam era uma avaliação do que temos em cada meio de transporte e, em função disso, definiriam medidas de correção que podem ser de diferentes níveis - podem ser instalação de sistemas suplementares, alterações de formas de exploração, diminuições da lotação máxima -, mas não pode ser 'vai passar tudo a ser dois terços da lotação', porque nalguns casos até pode ser a lotação que existe e noutros passar para um terço", diz o especialista em qualidade ambiental.

Manuel Gameiro da Silva sabe do que fala. Fez medições da qualidade do ar em praticamente todos os transportes públicos em que viajou. Conclusão: "Há uma variabilidade muito grande." E explica que uma forma expedita de avaliar até que ponto o caudal de ar é mais ou menos forte dentro de um veículo é pela evolução da concentração do dióxido de carbono metabólico, aquele que exalamos.

"Uma pessoa no percentil 50, com uma corpulência média e com o nível de atividade que as pessoas têm quando vão sentadas dentro de um veículo, exala à volta de 36 gramas de dióxido de carbono por hora. Se não houver uma taxa de renovação grande, o que acontece é que a taxa de dióxido de carbono desce até valores que não são recomendáveis."

Em ambientes interiores, a qualidade do ar é considerada confortável se as concentrações de dióxido de carbono não ultrapassarem os mil ppm (partes por milhão) - um valor guia recomendado para os edifícios com sistemas de ventilação mecânica antes da pandemia. "Em alguns transportes, medi concentrações na ordem dos 3500/4 mil ppm. Há transportes em que é assim e outros que conseguem ter a concentração de 1000 ppm", conta o especialista em qualidade do ar.

Por isso, Manuel Gameiro da Silva já disse às autoridades de saúde que alguns transportes deveriam aumentar os tempos de paragem com as portas abertas, de forma a permitir maior renovação de ar. Já o facto de não haver janelas, sublinha, não é só por si uma indicação de má qualidade do ar, porque o sistema montado pode ter boa entrada de ar fresco.

"As primeiras recomendações da Direção-Geral da Saúde [DGS] são completamente disparatadas, porque sugeriu que no caso dos transportes públicos - autocarros, comboios, metro - se fizesse seis renovações por hora. O que é que isto significa? Um autocarro tem cerca 60 metros cúbicos de volume interior, seis renovações por hora daria 360 metros cúbicos por hora. Portanto, os tais 360 a dividir por 30 ou 40 vai dar cerca de 10 m3 por pessoa e por hora. Ora, os valores e cálculo que utilizamos para conseguir os tais mil ppm são 30 metros cúbicos de ar por hora por pessoa, são três vezes esse caudal."

Ora, os valores e cálculo que utilizamos para conseguir os tais mil ppm são 30 metros cúbicos de ar por hora por pessoa, são dez vezes esse caudal."

Felizmente, diz, os autocarros têm mais do que as seis renovações por hora. Uma recomendação da União Internacional de Transporte de Passageiros sugere 12 renovações por hora para garantir que, nomeadamente no inverno, quando param nos semáforos, não fique tudo embaciado.

"Devíamos ter uma política clara de atuação no sentido de melhorar a situação - tentar aumentar o número de renovações, tentar ter uma exploração que permita que as concentrações não atinjam valores tão elevados e ter também algum tipo de atuação no sentido de fazer a purificação do ar, utilizando, por exemplo, radiação ultravioleta C", acrescenta.

Utentes da Margem Sul manifestam-se

A orientação da DGS para que os transportes coletivos de passageiros circulem com uma lotação máxima de dois terços conseguirá ser cumprida se os utentes regressarem todos ao metro, aos autocarros e aos comboios? Marco Sargento, porta-voz da Comissão de Utentes dos Transportes da Margem Sul, acredita que não. E diz que nos comboios da Fertagus que utiliza era possível viajar sem todos os bancos ocupados, com o hall do comboio livre, mas que isso deixou de acontecer a partir de 15 de agosto, quando muita gente regressou de férias. Essa é uma das várias razões que levaram a comissão de utentes a manifestar-se nesta quarta-feira, 16, no Jardim da Cova da Piedade, em Almada.

A sobrelotação das carruagens - que se tornou mais visível com a criação do passe Navegante Metropolitano e consequente descida do preço dos passes - já era uma das queixas dos passageiros. Daí apontarem a necessidade de se aumentar a frequência de transporte e a colocação de mais composições. "Não se pode perder o que se estava a conseguir desde abril de 2019, com o aumento de utentes nos transportes e uma redução de carros na Ponte 25 de Abril", afirma Marco Sargento.

A Fertagus reitera que, desde o fim do estado de emergência, está a efetuar "a oferta máxima de serviço, com a garantia de que os níveis de lotação máximos de dois terços nunca são ultrapassados". Mais: "Neste momento, nenhum horário ultrapassa os dois terços de lotação definidos por lei, e registamos uma ocupação média no período do horário de ponta da manhã de 24% e no da tarde de 26%, muito longe dos limites definidos."

A empresa reviu e reforçou os protocolos de higienização, tendo introduzido novos produtos, nomeadamente da marca Zoono, "com ação antimicrobiana com 99,9% de eficácia na eliminação de microrganismos, até 30 dias após a sua aplicação."

Metro: menos 25 milhões de passageiros

Já o Metropolitano de Lisboa, no âmbito das ações de reforço das medidas de limpeza e higienização, realizou neste mês a sétima ação de desinfeção por nebulização elétrica (a primeira teve início em março), através da aplicação do produto em toda a frota de material circulante, com especial incidência nos locais de contacto dos passageiros. O Metro diz ainda que nesta semana estará em curso a desinfeção nas estações pelo sistema.

"Está previsto realizar mais três ações de desinfeção deste tipo, à cadência de uma por mês, estando contratualizado o serviço até ao final deste ano. Poderá ser ponderada a realização de mais ações idênticas, caso a situação pandémica venha a manter-se em 2021. O produto que tem sido aplicado tem uma ação prolongada, mantendo-se ativo o efeito biocida até 30 dias", refere o Metropolitano.

Desde o início da pandemia, o metro de Lisboa sofreu uma forte redução no número de passageiros: "No acumulado de junho-agosto de 2020, o Metropolitano de Lisboa registou 16,1 milhões de passageiros, correspondente a 41% do registado em período homólogo de 2019, com 40,8 milhões de passageiros - ou seja, transportou menos 24,7 milhões de pessoas. Relativamente à taxa de ocupação dos comboios, a carga não ultrapassou os 66,6% (dois terços), estando em média inferior a 50% da sua capacidade." O Metropolitano está, contudo, a operar a 100%.

Com a entrada em vigor do horário de inverno, a 14 de setembro, a empresa diz que reforçou a oferta nas linhas Azul e Amarela, nas horas de ponta da manhã e da tarde. Nas linhas Amarela e Azul, "foram reduzidos os tempos de espera, com um intervalo médio entre comboios de três minutos e 35 segundos a quatro minutos. Nas restantes linhas, o Metropolitano de Lisboa já se encontra a operar na sua capacidade máxima nas horas de ponta. Adicionalmente, com este horário de inverno, é possível reduzir substancialmente, em todas as linhas, a partir das 22.30, sete dias por semana, os tempos de espera dos comboios".

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